Jornal Folha de S.Paulo , sexta-feira 11 de junho de 1982
Um dia antes de o ministro Delfim Neto adotar medidas contra aumentos abusivos de preços, um líder empresarial do setor de laticínios anunciava que esses produtos subiriam mais 20%, nos próximos dias, "acompanhando o reajuste, igualmente de 20%, que os produtores vêm pedindo para o leite fornecido à indústria, de Cr$ 41 para Cr$ 49,20 o litro". Pelos seus cálculos, o queijo prato, que vem custando Cr$ 1.000 o quilo ao consumidor (nos supermercados) passaria para Cr$ 1.200.
O exemplo poderia explicar, plenamente, a súbita suspensão do diálogo entre Seplan e empresários. Por quê? Antes de mais nada porque, segundo a FGV, o queijo prato custava Cr$ 325 o quilo em dezembro de 1980, chegando a Cr$ 505 em dezembro de 1981, e pulando para Cr$ 1.000, este mês, com alta de 100% em seis meses e praticamente triplicando de preço em dezoito meses.
Nem isto, porém, seria o mais importante, do ponto de vista da Seplan: o que se percebe, pela declaração do líder empresarial, é que vem sendo adotada no País uma política irracional de reajustes de preços: o aumento no custo da matéria-prima (leite, no caso) provoca um reajuste igual no preço do produto final, como se esse preço não fosse formado por uma série enorme de outros custos, como mão-de-obra, consumo de energia, impostos, aluguéis etc. "Confunde-se" o todo com a parte.
A sem-cerimônia com que essas decisões chegam a ser anunciadas mostra que havia desaparecido a distância entre a "liberdade de preços" adotada pelo governo no início do ano passado, e a "libertinagem de preços", refletida nos índices da Fundação Getúlio Vargas (v. tabela) – e da qual os ministros da área econômica certamente tinham conhecimento há muito tempo, pois ela estava à vista de todos.
O aparente término da tolerância é saudado com previsões de fracasso, porque foi isso que ocorreu em outras ocasiões em que o ministro Delfim Neto tentou segurar os preços, na base de represálias. Há duas novidades em cena, porém: nas experiências anteriores, não havia eleições à vista, ou melhor, não havia eleições no País. Hoje, há a abertura, e eleições marcadas. A segunda novidade é o grau de conscientização que a mesma "abertura" deve ter dado às lideranças empresariais: haverá ainda algum empresário, hoje, que acredite que o País possa voltar a suportar uma inflação rumando para os 150% ao ano, ou, mais ainda, uma nova recessão para combatê-la?
Neste momento, as principais entidades de classe do País estão oferecendo "apoio" ao governo Figueiredo. Pode-se desejar que esse apoio deixe de ser mera badalação festiva, lotadora de aviões para Brasília e marcada por coquetéis e tapinhas nas costas. E que se traduza naquilo que o País precisa, no momento: um acordo, liderado pelas próprias entidades empresariais, para esvaziar a nova escalada altista, marcada por violentos reajustes mesmo por parte de empresas de setores que, desde 1980, já vêm fixando aumentos superiores à inflação – "puxando-a" para cima.
De sua parte, o governo precisa rever decisões que vêm realimentando a inflação, como é o caso do preço mínimo para o trigo, fixado em dólares; os reajustes do preço do café etc. E, principalmente, a entrega do dinheiro do crédito agrícola ao comércio e indústria, uma inovação delfiniana adotada este ano e que significa criar condições financeiras para alimentar a especulação.