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  As conclusões do debate com Furtado

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 15 de julho de 1982


Há unanimidade no diagnóstico sobre as causas dos atuais problemas da economia brasileira: falta de uma política econômica coerentes improvisações constantes por parte dos ministros responsáveis. O encaminhamento de soluções para o impasse, no entanto, divide as opiniões — demonstrando a necessidade efetiva de uma ampla consulta a todos os segmentos da sociedade, para a definição dos novos rumos, para que nâo prevaleçam, mais uma vez, os interesses deste ou daquele setor.

São essas as conclusões deixadas pelo encontro entre o professor Celso Furtado ministro do Planejamento no governo João Goulart Cláudio Bardella, vice-presidente da Fiesp; Roberto Konder Bornhausen, ex-presidente da Federação Brasileira dos Bancos, e Carlos Rischbieter. presidente do Conselho de Administração da Volvo do Brasil e ex-ministro da Fazenda, do governo Figueiredo, reunidos no programa "Critica e Autocrítica", na TV Bandeirantes.

Celso Furtado, tratado de forma reverenciai, como "mestre", pelos participantes (à exceção de Bornhausen), repetiu o seu diagnóstico demolidor da crise atual: "ela não é diferente de crises anteriores, mas o que há hoje, é uma incapacidade crescente para enfrentá-la. O governo, por falta de política econômica, meteu-se num círculo de ferro - não pode usar a política fiscal, por causa dos subsídios; não pode valer-se da política cambial, porque as empresas estão endividadas no Exterior. Nesse quadro, a margem de manobra é reduzida, e o impasse se acentua". Para ele, o governo precisaria "recuperar os instrumentos de ação" para sair da crise (diagnóstico que coincide com as posições defendidas pelo presidente do Banco Central, Carlos Langonl, em conferência feita na Escola Superior de Guerra Já em meados do ano passado).

CADA UM POR SI

Furtado prega a renegociação da divida externa, para que a política econômica deixe de ser totalmente definida a partir dos problemas dessa área. Defende o planejamento, a fixação de diretrizes claras, o estabelecimento de prioridades — pois a inflação e a divida externa são o resultado, também, da tentativa de investir acima da capacidade de poupança do País. Apóia, ainda, uma política de crescimento baseada na expansão do mercado interno atribuindo à "internacionalização da economia" a origem dos males atuais. A ênfase generalizada às exportações deve ser abandonada: o País concentraria recursos, investimentos, naqueles setores realmente com potencial para competir no Exterior, sem a necessidade dos monstruosos subsídios que hoje sangram o Tesouro.

—Todos concordaram com as críticas às distorções. Quanto às propostas, as reações caminharam em direções diferentes Cláudio Bardella. representante do setor de máquinas e equipamentos, de olhos postos no mercado externo, descartou compre-ensivantente a retirada de ênfase ás exportações: "Queiramos ou não, temos que enfrentar o mercado mudial. Roberto Bornhausen atravessou o programa repetindo as frases padronizadas da "campanha antiestatização": "o governo ê o culpado de tudo, o governo controla tudo". Logicamente, insurgiu-se contra as propostas de.pla-nejamento de Furtado: "a solução seria o governo intervir o menos possível". Quanto a Rischbieter, se nãc discordou abertamente das propostas de Furtado, teve a atuação mais "mineira" de toda a sua carreira, chegando a chamar o Finsocial de "uma maravilha" que "vai beneficiar 30 ou 40 milhões de brasileiros. Uma opinião que ficaria bem na boca de um candidato a ministro, desejoso de não irritar Brasília, mas que surpreende na boca de um ex-ministro, expelido de Brasília por suas opiniões contundentes — prevendo, em 1979, a crise que aí está. (AB)



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