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  A falsa ajuda dos EUA

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 14 de abril de 1983


Sabe-se que influentes áreas empresariais de São Paulo e do Rio, apoiadas por alguns ministros de Brasília, vêm defendendo há alguns meses radical mudança na política externa do País. Na sua proposta, o Brasil deveria “realinhar-se” com os EUA e colocar de lado o Terceiro Mundo, passando a defender, nos fóruns internacionais, as posições do governo Reagan e não mais as reivindicações dos países subdesenvolvidos.

Segundo esses empresários e ministros, o Brasil lucraria com a “troca”: poderia contar com a boa vontade do governo Reagan para a renegociação de sua dívida externa, ganharia empréstimos e, quem sabe, até poderia exportar mais para os EUA. Uma atitude pragmática, segundo os defensores da proposta. A venda do futuro em troca de um prato de lentilhas, segundo os críticos dessas proposições.

A atual visita do subsecretário de Comércio dos EUA, Guy Fiske, ao Brasil, está sendo utilizada, mentirosamente como sempre, para tentar mostrar que as “vantagens” da aproximação com os EUA já começaram. Segundo fontes do Ministério do Planejamento, ouvidas pela “Folha”, os acordos acertados com o visitante, envolvendo US$ 4 bilhões em financiamentos ao Brasil, representariam também um indício de que já “está dando resultados” a “ofensiva” do governo brasileiro para alertar os países ricos contra os perigos de crise social trazidos pela política de “cintos apertados” exigida pelo FMI.

Para restabelecer a verdade, é preciso que se diga que os acordos assinados com os EUA interessam aos próprios EUA, e não ao Brasil. Quem diz isso, mostrando que o Planejamento está mentindo, é o próprio subsecretário norte-americano que, em entrevista ao jornal “O Globo”, explica as razões dos acordos de governo a governo, e não entre empresas privadas dos EUA e o governo brasileiro, como sempre ocorreu até hoje. Acontece, diz Fiske, que o governo Reagan quer aumentar as exportações norte-americanas – porque, pode-se acrescentar, os EUA tiveram um déficit de US$ 40 bilhões em sua balança comercial em 1982, e estão ameaçados por outro saldo negativo, de US$ 50 a US$ 60 bilhões, este ano. Por isso, o governo Reagan passou agora a assinar acordos de governo a governo, para abrir mercados a empresas norte-americanas – e, não, numa “deferência” especial para com o Brasil, como dizem o Planejamento e líderes empresariais.

O governo Reagan não ofereceu US$ 4 bilhões para “ajudar” o Brasil. O governo Reagan ofereceu US$ 4 bilhões para aumentar as exportações norte-americanas para o Brasil. Para vender, por exemplo, equipamentos de usinas hidroelétricas que poderiam ser fabricados aqui. A mesma história de sempre: crédito para comprarmos o que não precisamos – para aumentar nossa dívida externa, aumentar nosso desemprego, aumentar a ociosidade de nossas indústrias.

E acabarmos insolventes, tendo que fazer o que os “governos amigos” querem. Por exemplo: o governo Reagan quer que o Brasil abra sua indústria de computadores, nas áreas hoje reservadas apenas a empresas nacionais, a empresas norte-americanas. Outro assunto, aliás, sobre o qual o subsecretário norte-americano veio negociar, como ele mesmo revela na entrevista ao “O Globo”. Ultra-sintomático.

A política externa do Brasil, por suas implicações sobre o futuro do País, é um tema demasiado sério para ser tratado de forma superficial por ministros e empresários, com ou sem mentiras. As possíveis vantagens de um “realinhamento” com os EUA, em confronto com as desvantagens de um “isolacionismo” em relação ao Terceiro Mundo, precisam ser analisadas à luz de dados políticos, projeções para o futuro e, também, em cima de dados econômicos. Por exemplo: a longo prazo, quais sãos os mercados que oferecem maior potencial de crescimento para exportações brasileiras, principalmente de manufaturados? Os subdesenvolvidos ou os EUA?

Como é necessário perguntar também: se o governo Reagan está tão interessado nos “problemas” do Brasil, como se explicam suas advertências nas duas últimas semanas, de que os EUA vão iniciar “guerras comerciais” para roubar os mercados externos de frangos e soja hoje abastecidos pelo Brasil? A isso se chama “ajuda”?



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