Jornal Diário da Manhã , quinta-feira 25 de agosto de 1983
Há problemas que o País não consegue resolver, por causa de “mitos”, que acabam servindo de biombo para a omissão ou incompetência de seus ministros. Nos últimos meses, torrentes de análises focalizaram o problema dos níveis escorchantes de juros cobrados no Brasil, desembocando-se sempre em dois argumentos para tentar justificar a sua manutenção. De um lado, alega-se, a contenção do crédito “exigida pelo FMI” tornaria o dinheiro escasso, justificando-se os juros altos com base nessa “escassez”. De outro, haveria o problema da dívida interna do Tesouro, que já chegou aos Cr$ 15,0 trilhões, e que exigiria a venda de letras do Tesouro Nacional a taxas de juros extremamente elevadas, “para atrair os investidores”.
Se a Nação esquecesse um pouco a “moratória”, e voltasse os olhos para o que acontece (ou não acontece) dentro do País, poderia questionar a orientação (ou desorientação) dos ministros nessas áreas – e contribuir para a rápida solução do problema.
Antes de mais nada, pode-se verificar que a escassez de crédito “exigida pelo FMI” é um mito. Lendo-se o noticiário diário das seções de Finanças dos jornais, sobretudo nas últimas semanas, pode-se ver que o Brasil virou um imenso cassino. Há empresas comprando ouro – não barrinhas de 25, 100, 250 gramas, mas dezenas e dezenas de quilos (inclusive sem usar dinheiro, mas simplesmente utilizando “cartas de fiança” de bancos). Da mesma forma, essas empresas viraram grandes aplicadoras no “mercado negro” do dólar. Ou, ainda – basta ler aquelas seções, repita-se –, essas empresas aplicam maciçamente no open market.
Esse vaivém das empresas, ora aplicando em ouro, ora em dólar no black, ora no open, vem sendo explicado – pelos próprios banqueiros, note-se -, como uma conseqüência natural da atual situação da economia. Como as vendas caíram para a maioria dos setores industriais, tem sobrado – sobrado, note-se – crédito nos bancos, que (para não ficarem com o dinheiro parado) então realizam empréstimos a grandes empresas que por sua vez os “desviam” para as atividades especulativas.
Conclusão óbvia a partir desses fatos: não há “falta de crédito”, os “limites do FMI” não são exagerados (para o atual quadro deprimido da economia). Logo, as taxas de juros deveriam cair. Logo – o que é ainda mais importante –, o Banco Central, na verdade, não precisaria pagar juros altíssimos no open, para vender as Letras do Tesouro, realimentando a inflação e, por extensão, a própria dívida interna – “corrigida” pela inflação.
O FMI tem sido apresentado como o responsável pelos males da economia brasileira. Na verdade, eles se agravam porque os ministros da área econômica fecham os olhos a distorções evidentes, como é o caso da especulação financeira alimentada por excesso de crédito. A poucas empresas, claro.