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  PIB não é mais emprego

Jornal Folha de S.Paulo , sexta-feira 23 de outubro de 1981


As estatísticas sempre escondem armadilhas: altas taxas de crescimento para a economia não significam forçosamente a criação de mais empregos, nem o aumento da renda da população como um todo. Podem, ao contrário, trazer desemprego e ampliação da miséria, fatos que estão absolutamente esquecidos no atual debate, equivocado, em tomo da "necessidade" de o PIB brasileiro voltar a crescer a altas taxas, para "criar empregos" e "permitir a redistribuição da renda". Isso não passa de mitos, pois, como lembrava o mestre Celso Furtado, no auge do "milagre econômico" dos anos 70, o PIB é uma ilusão estatística, pintando de rosa o que pode ser negro. O PIB, ou Produto Interno Bruto, é a soma de todos os bens e serviços produzidos dentro do País, em determinado ano, isto é, representa a "renda" da Nação naquele ano. Teoricamente, quando a produção cresce e a renda nacional cresce, isto é, o PIB cresce, toda a população estaria sendo beneficiada. A realidade é multo outra: * A ilusão do valor — Como o PIB é a soma dos valores de todos os bens e serviços produzidos em um ano, surge aqui a primeira distorção: quanto maior o valor de cada bem produzido, maior será o PIB. Ou, como exemplificava Celso Furtado: se um país passa a produzir vinhos, automóveis, equipamentos de som, objetos de acrílico, o PIB crescerá muito mais rapidamente do que se o país produzisse toneladas de feijão, leite em pó, calçados, remédios — pelo fato puro e simples de que milhares de quilos de feijão valem muito menos do que "um quilo" de automóvel, ou dez litros de leite valem menos do que um litro de uísque e assim por diante. * Ainda a ilusão — Se o Brasil produzir 400 mil casas populares num ano, o PIB crescerá menos do que cresceria se o dinheiro fosse aplicado na construção de 20 mil apartamentos de luxo — porque o valor de cada apartamento é mais de vinte vezes superior ao valor de uma casa popular. E o que conta para o PIB é o valor do bem produzido. Os exemplos já permitem entender que o crescimento do PIB não tem nada a ver com o bem-estar da população, ou o atendimento de suas necessidades básicas. A produção de milhões e milhões de bens baratos (alimentos, remédios, roupas ou casas) pode fazer o PIB crescer menos do que a produção de alguns milhares de bens caros — ainda que estes sejam consumidos por pequena parcela da população, e aqueles se destinassem às necessidades básicas de milhões de pessoas. É essencial relembrar esse paradoxo do crescimento do PIB, hoje, para que o País chegue a uma conclusão sobre a política econômica que interessa ao seu povo: deve-se crescer muito (estatisticamente) e não melhorar rapidamente a situação do povo, ou deve-se crescer menos e cuidar das necessidades básicas da população? Quem pensa que a pergunta é descabida, que a necessidade dessa opção não existe, está redondamente enganado. Nos anos do "milagre", como então explicava a mestra Maria da Conceição Tavares, houve uma política deliberada para fazer as estatísticas do PIB crescerem rapidamente, quer dizer, uma política que estimulava a produção de bens de alto valor, pois assim o PIB dava pinotes. E daí? Daí que, para um país produzir bens de alto valor, precisa de um mercado para comprá-los — e por isso a política econômica deliberadamente concentrou a renda no País, isto é, elevou a renda, o poder de compra de pequena parcela da população, para que ela sustentasse a produção (com suas compras), de bens caros. E o PIB crescesse, enquanto 60% dos brasileiros permaneciam marginalizados. Ao contrário do que se diz agora, portanto, o aumento do PIB não traz melhor redistribuição da renda. Ao contrário: pode exigir a concentração da renda. Pouca gente está entendendo, hoje, que em certa escala e sob certos aspectos, a política econômica está fazendo exatamente o contrário do que era feito à época do milagre. Por vários caminhos, a renda vem sendo melhor distribuída, criando mercado para os bens de consumo popular, os produtos mais baratos. Um desses caminhos é a política salarial — talvez por isso mesmo combatida pelos "adoradores do PIB" — que, como todos os dados mostram, está levando o povão a comprar mais alimentos, roupas, calçados. Se há aumento na produção e vendas desses bens, por que o PIB cai? A resposta já foi dada: como se trata de produtos de valor baixo, mesmo que eles sejam produzidos e vendidos à base de milhões de unidades, não podem compensar a queda — no valor — da produção dos bens caros, como automóveis e eletrodomésticos, bebidas finas ou alimentos sofisticados (e essa queda tem que ser mantida, para conter as importações, como já se disse). Ao contrário do que se diz, portanto, a queda no PIB não significa forçosamente piora na redistribuição da renda, ou piora na situação da população. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A renda pode até ser deliberadamente distribuída (via política salarial, por exemplo), a produção de bens populares crescer — e ainda assim o PIB cair. E a influência do PIB sobre a criação de empregos? É fácil entender que aqui também não existe nenhuma relação: uma fábrica têxtil automatizada pode produzir milhões de metros de fio com meia dúzia de funcionários, e fazer o PIB crescer, com o valor de sua produção. Inversamente, dezenas de pequenas empresas, com milhares de funcionários, podem produzir menos (em valor) do que essa fábrica, isto é, contribuir menos para o crescimento do PIB do que ela. É preciso arquivar a ilusão do PIB e debater uma política de emprego, redistribuição de renda e crescimento ordenado (que não agrave a dívida externa), para o País.



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