Jornal DCI , domingo 15 de maio de 1977
Como uma sociedade evolui? Como o debate dos problemas básicos da Nação ganha alto nível, fugindo-se à demagogia e à critica fácil? Para isso, antes de mais nada, é preciso que suas lideranças de quaisquer áreas dêem demonstração de seriedade, fujam a explicações escapistas que escamoteiam a verdade, ou partam para as acusações fáceis na tentativa de calar ou rotular maldosamente os segmentos da sociedade que tentam dar sua contribuição, fundamentada, da solução dos problemas do País.
Infelizmente as lideranças tecnocráticas e políticas do Brasil, nos anos recentes, fogem totalmente às expectativas que se podia ter a seu respeito. Há uma paixão infantil pelos ditos mordazes, pelas frases sarcásticas, ou pelo deboche da resposta insultuosamente despida de qualquer traço de verdade, como se a opinião pública merecesse esse tipo de "treinamento".
Ainda agora, nos rumorosos episódios que estão envolvendo o mercado financeiro, não se fugiu a essa regra. Primeiro, um ministro de Estado, em São Paulo, procura ganhar a simpatia do empresariado com uma acusação simplista: quem critica a ajuda às empresas ou instituições em dificuldades está querendo a falência da empresa privada, "É partidário da estatização." Agora, os números estarrecedores que vêm sendo divulgados demonstram quanto tal colocação está distante da realidade. Afinal, despejar 3,5 trilhões de cruzeiros nas mãos de um único grupo não significa em absoluto fortalecer a empresa privada nacional. Mas desmoralizá-la (além de prejudicar milhares de empresas privadas nacionais).
CASTIGO INJUSTO – Agora, apresenta-se também à perplexa opinião pública, como um avanço no "saneamento" do mercado, a decisão de só devolver até Cr$ 50 mil a investidores que compraram letras de câmbio ou certificados de depósitos bancários do Grupo UEB. Com isso, diz outro ministro, o investidor vai ter mais cuidado ao escolher a instituição à qual vai confiar suas economias (todo o dinheiro aplicado e que exceder aquele limite de Cr$ 50 mil só será devolvido daqui a um ano, sem juros e correção monetária). É o caso de perguntar-se: é mesmo, ministro? E como é que o investidor vai saber qual instituição é sólida, confiável, bem administrada? Afinal, não foram dois ou três conglomerados que faliram, mas 23, em poucos anos. Não se tratava de pequenas instituições, ou "arapucas", mas de grupos empresariais importantíssimos, cujos diretores surgiam freqüentemente em fotos da imprensa ou na televisão ao lado de ministros. Como prever que eles faliriam?
A decisão oficial precisa ser revista, e por vários motivos:
1. Uma viúva que tenha 100 mil cruzeiros aplicados não pode ter o mesmo tratamento que um especulador que tenha 1,0 milhão aplicados no grupo intervenção.
2. Além do mais, a viúva jamais soube que o grupo estava para ir à garra. E os grandes aplicadores, os grandes especuladores, as outras instituições financeiras sabiam. Em outras palavras: a demora por parte do Governo, em intervir no conglomerado, deu tempo para que todos esses "aplicadores" fossem vendendo as letras de câmbio e certificados que tinham em seu poder. Eles nada perderam, eles só lucraram. E é bem provável que, graças à demora do Governo, eles tenham ido ao Interior, revender os títulos que tinham comprado e que sabiam que o grupo não pagaria de volta.
3. Sabe-se, ainda, que grandes volumes de letras de câmbio e certificados foram entregues a indústrias e outras firmas, como pagamento por mercadoria e serviços fornecidos à cadeia de lojas e às indústrias do grupo UEB. Tais fornecedores não compraram os papéis com fins especulativos, não precisam ser “ensinados”, não merecem punição. É preciso um critério especial também para eles. Afinal, são milhares de empresas prejudicadas exatamente porque o Governo prolongou a agonia do Grupo UEB, entregando-lhe 3,4 bilhões que se evaporaram. Essa demora é a causa dos seus prejuízos, eles não podem ser aumentados.
A LONGO PRAZO – O mais importante, ainda, nas declarações do ministro, são seus efeitos sobre o próprio mercado financeiro. Há uma despudorada mania, no Brasil, de insinuar que as grandes instituições (como as grandes empresas) são as mais seguras, e que o investidor deve confiar suas poupanças às pequenas instituições, às instituições independentes. No entanto, os principais "estouros" têm atingido as instituições de grande porte, os grandes conglomerados — detalhe que o investidor esquece graças às afirmações freqüentes em sentido contrário. E o que é preciso, a esta altura, é fortalecer o maior número possível de instituições independentes — carreando-se poupança para elas — fugindo de vez ao negro pesadelo dos conglomerados como base do processo brasileiro de desenvolvimento.