[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  A salutar briga do ministro

quarta-feira 13 de maio de 1992


Após meses de calmaria, o mercado financeiro voltou a ficar em polvorosa, com disparadas para o dólar no black e o ouro. A puxada naqueles mercados pode ser explicada em poucas palavras: trata-se de manobra acertada entre o mercado financeiro e os grandes aplicadores (em que predominam grandes empresas) para forçar o governo a desistir de derrubar as taxas de juros. Nas últimas semanas, ou desde meados do mês de abril, Banco Central e Ministério da Economia começaram a intervir no mercado, das mais diversas formas, para forçar a queda de juros, de resto tão ansiosamente defendida pelas principais lideranças empresariais e políticas nos últimos meses. A iniciativa do ministro Marcílio, no entanto, nada tem a ver com esses “apelos“. A equipe econômica dispõe de dados que indicam a possibilidade de a queda da inflação fazer novos avanços no mês de maio, após a relativa estabilização dos índices no mês de abril. Ora, se essa perspectiva concretizar-se em maio, as taxas de juros no mês deverão estar mais baixas, para não alargar desmedidamente os lucros dos aplicadores – e não onerar em demasia os custos financeiros da empresas, tudo resultando em prejuízos ao combate à inflação. A iniciativa do ministro Marcílio, no entanto, contraria poderosos interesses, poderosos investidores (em que se incluem grandes empresas) habituados com os ganhos no jogo financeiro. Muito espertos, esses interesses começaram a espalhar, desde meados de abril, que os rendimentos das aplicações financeiras poderiam ficar abaixo da inflação, caso em que o aplicador na verdade estaria tendo, na prática, prejuízos. Os espertalhões estão-se esquecendo de dizer, o tempo todo, que para quem aplica dinheiro “hoje”, o que interessa é a inflação de “hoje” em diante, isto é, o que conta é a inflação do período em que ele estará investindo: se o rendimento de um CDB for de 20%, por exemplo, e a inflação no mês de 18% ou 19%, não haverá o tão falado prejuízo. O que está ocorrendo, em resumo, é uma queda-de-braço entre o ministro e os especuladores do mercado financeiro. Uma briga saudável, finalmente. Nos últimos meses, o que o País viu foi exatamente o contrário: os aplicadores, os credores, o mercado financeiro vinham realizando grandes lucros por causa de juros desnecessariamente elevados puxados pelo próprio governo. Basta relembrar que a TR, que virou o novo indexador da economia brasileira desde sua criação, ficou praticamente todos os meses muito acima da inflação devido ao seu sistema de cálculo, baseado exatamente nas taxas de juros pagas no mercado financeiro. Essa distorção beneficiou, trouxe lucros a quem tinha aplicações financeiras ou às instituições emprestadoras – mas confiscou dinheiro de empresas e pessoas que carregavam prestações, contratos etc. reajustados pela TR. Tudo resultando em inflação “desnecessária”. A partir de agora, tenta-se, numa boa briga, repita-se, abrandar a distorção: o Banco Central puxa os juros para baixo, derrubando também a TR para maio, não por “manipulação”, mas porque há indícios de persistência da queda da inflação. Existem mesmo esses indícios? Neste momento, o governo aponta para o declínio do famoso IGPM, Índice Geral de Preços do Mercado apurado pela Fundação Getúlio Vargas e que acusou o resultado inferior a 20% já para o mês de abril (o IGPM tem um período diferente de coleta de preços para o seu cálculo: no caso de abril, ela se estendeu de 21 de março a 20 de abril). Já os porta-vozes do mercado, e tem até ex-ministros fazendo esse papel, alegam que outros índices para abril, como o da Fipe, estão mostrando uma interrupção no processo de queda da inflação e isso justificaria a reação dos aplicadores contra a redução dos juros. São muito esquecidos, os espertalhões, quando o desejam. Acontece que o IGP-M foi criado pelo próprio mercado financeiro, que o “encomendou” à Fundação Getúlio Vargas por achar que índices como os da Fipe não eram adequados para orientar a fixação dos níveis de juros e de rendimentos nas aplicações de dinheiro. Por quê? Índices como os da Fipe medem a variação do custo de vida apenas para o consumidor, isto é, medem em última análise a perda de poder aquisitivo das famílias. Já o IGP-M, ao incluir não apenas a variação do custo de vida, mas também a variação de preços no atacado (que afeta as compras das empresas) e da construção, tende a refletir melhor os efeitos da inflação, a perda de poder aquisitivo da moeda, dentro da economia como um todo. Até ontem, o mercado e ex-ministros davam preferência ao IGP-M, e torciam o nariz aos dados de instituições como a Fipe. Agora, dizem o contrário – e ainda fazem piadinhas insinuando que o governo é que a cada momento, dá preferência ao índice que lhe é mais favorável. Tudo jogada. O que importa ao País, nessa história toda, é que está em cena uma decisão de desinchar a TR, para consolidar o processo de queda da inflação. Resta torcer para que a salutar decisão do ministro Marcílio não desemboque em desfechos bastante freqüentes na história recente do Brasil. PS: se os trabalhadores, os aposentados, os funcionários podem perder até 80% de seus rendimentos ao longo de quatro meses (à espera do reajuste) por que os aplicadores do mercado financeiro não poderiam perder 1% ao mês – se o juros ficassem mesmo abaixo da inflação? Injustiça social? Sacrifício hediondo?



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