Jornal Gazeta Mercantil , quinta-feira 17 de abril de 1975
A parcialidade na análise de problemas econômicos pode levar a perigosos equívocos de diagnósticos, com efeitos desastrosos para a economia em geral e as empresas em particular. Neste característico momento da vida nacional, há ostensiva preocupação em levantar determinados temas e silenciar até mesmo sobre suas causas. Chega ao absurdo, por exemplo, o enfoque usado na discussão do problema da correção monetária em um de seus aspectos: sua influência sobre o custo do dinheiro. Critica-se a correção monetária mas não se fala, nunca, no problema da inflação, como se a primeira não fosse conseqüência desta última. Há total silêncio sobre o comportamento dos preços no Brasil, que, segundo a Fundação Getúlio Vargas, subiram 6,82 para o consumidor, no primeiro trimestre, mas que, segundo outros órgãos oficiais, avançaram em até 11,02, como é o caso dos índices apurados em Porto Alegre (por outros órgãos oficiais, frise-se). No mesmo período, a economia brasileira continua atolada no carrascal da inflação, com todas as suas conseqüências, e, no entanto, é ela a grande ausente das análises dos problemas levantados no momento. Em seu lugar, procura-se colocar, como ré, a política “distributivista”, de redistribuição de renda, para formação de um mercado de massas no país.
A INQUIETAÇÃO ESTIMULADA
Estranhamente, a inflação não é lembrada como uma das causas fundamentais dos três problemas básicos da economia brasileira, neste momento:
Queda no consumo – em todo o mundo, a alta de preços de 1973/1974 teve como efeito a retração da demanda, em função da perda do poder aquisitivo do consumidor. No Brasil, houve a implicação dos preços dos alimentos, o surgimento de camisas e calças vendidas na faixa de Cr$ 200,00 a Cr$ 300,00, a duplicação dos preços do fusquinha, o lançamento dos fogões na faixa de Cr$ 500,00. A queda no consumo era uma tendência previsível, ainda mais tendo-se em conta a concentração de renda no país. Embora o Ministério da Fazenda repita freqüentemente que ninguém mais ganha salário mínimo no Brasil, na última semana a Sudene divulgava dados revelando que 60% da população da área – note-se bem – industrial do Nordeste recebe até um salário mínimo. E 79% ganham até metade de um salário mínimo.
- Queda nos investimentos das multinacionais: a intenção manifesta no II Plano Nacional de Desenvolvimento – de disciplinar a atuação das multinacionais no país – seria, seguindo análises correntes, um dos motivos para o menor interesse de investidores estrangeiros pelo Brasil. Mesmo que aspectos da nova política econômica não sejam de pleno agrado das multinacionais – e a tentativa de criar tecnologia local certamente pode ser admitida como um ponto de atrito – há dados econômicos, na “retração” de investimentos externos. Um, já visto em artigo anterior, (Gazeta Mercantil, 11/4/75) é o novo quadro mundial, de excesso de capacidade instalada em vários setores, como “herança” do “boom” de 73/74.
AS CAUSAS INTERNAS
... O outro dado, porém, é de ordem interna: a inflação brasileira e, por efeito dela, a sobrecarga de custos financeiros sobre um projeto que se tente implantar no Brasil. Tem-se evitado falar no problema, internamente mas empresários estrangeiros, inclusive o presidente da Britsh Tobacco (Souza Cruz) têm-se referido a ele. No momento de optar pela implantação de uma fábrica no Brasil ou na Sibéria, o investidor multinacional fará suas contas: o investimento, em termos de obras de construção e compra de equipamentos, equivaleria a 100 milhões de dólares; mas, no Brasil, no período de implantação da fábrica, hipoteticamente de dois anos, a inflação poderá somar 70% e o custo dos empréstimos (através da correção monetária ou cambial, não importa) subirá igualmente. O gasto final será de, no mínimo, 170 milhões de dólares, no Brasil, contra os 100 milhões na Sibéria.
Logicamente, para a recuperação dos investimentos, os produtos saídos da fábrica brasileira serão mais caros que os produzidos na Sibéria, o que poderá reduzir a possibilidade de exportações (objetivo da maioria dos investimentos das multinacionais no Brasil, nos últimos anos), por falta de poder competitivo. A opção, é evidente, será instalar a fábrica na Sibéria (a menos que outros fatores anulassem a vantagem de “menor custo” para o investimento).
Queda nos investimentos das empresas privadas nacionais – fenômeno igualmente ligado à queda na demanda (em função da inflação) e ao alto custo do dinheiro (idem). E, estruturalmente, à falta de mercado interno, diante da concentração de renda.
A FALSA AGIOTAGEM
... Nos últimos meses, sobraram protestos contra a correção monetária cobrada nos financiamentos às empresas - sobretudo quando os financiamentos partem de instituições oficiais, numa insistência que parece atribuir uma imagem de “agiota”. Mas não se discute, até agora, o problema da inflação (inclusive a sua realimentação, por parte da própria correção monetária). E é a persistência da inflação que ajuda, também, a distorcer o debate em torno do custo do dinheiro no Brasil, e suas influências, já vistas sobre investimentos. Mas ela tem outra atuação, sobre o consumo enquanto se critica a política “distribuitivista”, não se questiona se é possível formar um “mercado de massas”, em um país onde o sistema de crédito ao consumidor cobra taxas de até 84% ao ano, conforme admitem as financeiras, ou de mais de 100% ao ano, conforme apontou várias vezes o ex-ministro Bulhões.