Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 18 de dezembro de 1984
Há uns dez dias, o secretário especial de Abastecimento e Preços, José Milton Dallari, encarregado do “acordo” para o combate à inflação, divulgou uma lista de aumentos de preços realizados por diversos setores industriais, não apenas no mês de novembro, como no transcorrer do ano todo. A iniciativa de Dallari mostrou que o “acordo” não existe e que a inflação continua a avançar por conivência da própria Seplan/Seap e CIP (Conselho Interministerial de Preços): grande número de produtos industriais tiveram seus preços reajustados em mais de 300% ou mais de 350%, este ano, e de mais de 100%, em poucos meses, sofrendo novos e violentos reajustes em outubro/novembro.
Ora, o “acordo” foi anunciado como uma iniciativa ampla, em que empresários e representantes do governo tomariam assento ao redor de uma mesa, para estudar os aumentos de preços realmente necessários, e, mais que isso, até estudar providências para estes aumentos (por exemplo: se os preços das panelas devessem ser reajustados devido ao aumento do custo do alumínio, seria verificada a possibilidade de reduzir o preço dessa matéria-prima). Na verdade, os empresários e governantes estão-se reunindo apenas para ler as listas de aumentos de preços, e dizerem, em conjunto: “ora, pois, pois, a inflação continua em alta”.
Há mais um detalhe, porém: mesmo sem o “acordo”, caberia ao CIP, também subordinado ao ministro Delfim Netto, fiscalizar a política de aumentos, também de setores “liberados”, isto é, que não precisam pedir ordem ao governo para os reajustes, justificando-os com demonstrações de custos. Mesmo sem o “acordo”, repita-se, era função do CIP verificar “abusos”, e forçar o cancelamento de aumentos desnecessários. Como se pode ver, pela lista divulgada pelo próprio Dallari, nada disso está ocorrendo: a conivência com as remarcações indevidas é total, enquanto prossegue o blá-blá-blá sobre o “acordo”.
Tem-se alegado que, em muitos setores, somente agora as empresas vêm conseguindo reajustar preços no ritmo necessário para cobrir os aumentos de custos, isto é, elas viriam trabalhando com prejuízos ou lucros baixíssimos, na fase em que o mercado consumidor estava retraído, e somente agora estariam atingindo sua margem de lucros “ideal”. A verdade é diferente. Já há vários meses as empresas vêm aumentando seus lucros à medida em que a recuperação da economia avançava, graças ao aumento nas vendas – o que tornaria desnecessário promover grandes altas de preços, como vem ocorrendo.
Segundo pode ser visto na tabela anexa, há empresas que, de 31 de março a 30 de setembro – isto é, nos últimos dois trimestres – conseguiram lucros 400%, 600%, 800%, 1.000% ou até 4.000% maiores do que os registrados no primeiro trimestre. Salvo as exceções de praxe, não se trata de um comportamento sazonal, mas reflexo direto da recuperação da economia, como se pode ver por estes exemplos (o aumento dos lucros, nos últimos seis meses, em relação aos obtidos no primeiro trimestre): Alpargatas, mais 243%; Artex, mais 454%; Belgo Mineira, mais 424%; Cacique, mais 2.540%; Eluma, mais 1.055%; Guararapes, mais 4.051; Magnesita, mais 753%; Vale do Rio Doce, mais 840%; ou Vidraçaria Santa Marina, mais 1.054%.
Moral da história: os lucros que as empresas vêm acusando mostram que, se os empresários quisessem, o ritmo de inflação poderia ser “brecado” imediatamente, arquivando-se todo esse debate inútil e pedante sobre desindexação, indexação, política monetária e quejandos. É difícil acreditar que o atual governo vá pedir essa colaboração, já que continua empenhado em “blefes” como o “acordo com os empresários”. Resta a esperança de que o próximo governo tenha conhecimento dos lucros das empresas, para obter aquela cooperação.
O combate à inflação é possível, basta querer.