Jornal Diário Popular , domingo 14 de maio de 2000
Estão confundindo, deliberadamente, a cabeça do brasileiro. Os EUA obrigaram o Japão a fazer a reforma agrária após a Segunda Guerra Mundial, durante o período em que aquele país ficou sob intervenção norte-americana. Os EUA, anos depois, obrigaram a Coréia do Sul a fazer a reforma agrária. Os EUA, em meados da década de 60, tentaram forçar os governos da América Latina a fazer a reforma agrária, principalmente na Colômbia, onde 18 famílias eram donas de praticamente todo o território do país. Assim, a menos que alguém ache que os EUA são um país comunista muito bem disfarçado, fica claro que reforma agrária não é “coisa de comunista”.
Ao longo de sua história, os EUA e países capitalistas ricos adotaram a reforma agrária ou políticas de distribuição de terras a milhões de famílias, com dois objetivos. O primeiro, óbvio, obedeceu a princípios de justiça social, ou mesmo simples lógica, já que não é racional uma sociedade dispor de milhões de hectares de terra sem produzir, enquanto milhões de famílias dessa sociedade enfrentam a miséria e a fome.
O segundo objetivo foi mais longe, beneficiou a toda a população, ao usar a reforma agrária como instrumento de crescimento econômico: as famílias que passaram a trabalhar no campo criaram renda, consumo, transformaram-se em mercado para os produtos industriais. Isso é conhecido.
Mas há ainda um aspecto menos lembrado, bastante estudado pelos economistas: com a reforma agrária, ao longo do tempo, houve aumento na produção e redução contínua nos preços dos alimentos (sem prejuízos aos agricultores), isto é, os trabalhadores da cidade passaram a gastar menos dinheiro com a alimentação, e esse barateamento da economia deixou uma “sobra” de renda para a compra de bens produzidos pela indústria ou serviços.
Em resumo, como dizem os técnicos, a reforma agrária, a desconcentração na posse das terras teve um papel duplo, foi a base para o crescimento da indústria dos países capitalistas ricos. Tudo isso precisa ser relembrado, neste momento em que a grande imprensa, a mando do governo FHC e seus assessores, tenta desmoralizar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, com insinuações de que “reforma agrária é coisa de comunista” maquiavelicamente espalhadas em jornais, revistas e TV.
Algumas publicações e comentaristas chegaram a divulgar frases das cartilhas adotadas pelos sem-terra, nas quais está dito que o movimento é adepto do “socialismo”, e quer implantá-lo em substituição ao capitalismo. Estão confundindo, deliberadamente, a cabeça do brasileiro. Nas democracias, há liberdade de opinião, de pensamento, de opções políticas. Não é proibido ser “socialista”, capitalista, anarquista, neoliberal, ecológico.
Tanto, oh céus, que há partidos socialistas nos países capitalistas ricos. Tanto, que há partidos socialistas no Brasil, oh céus. Tudo oficial, garantido pela Constituição. Em todas essas sociedades, os socialistas podem disputar eleições, tentar chegar ao poder com suas idéias. É uma vergonha que a imprensa venha apresentando os sem-terra como uma ameaça à democracia. A ameaça existe. Mas vem exatamente do lado oposto, como se aprofundará amanhã.