[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Médici, sindicatos e emprego

quarta-feira 15 de abril de 1992


Em pleno “milagre econômico” dos anos 70, nem o presidente do regime militar brasileiro conseguiu fugir ao diagnóstico: “A economia vai bem, mas o povo vai mal.“ O paradoxo reflete uma realidade hoje óbvia: altas taxas de crescimento econômico não significam forçosamente redução da pobreza da maioria da população. Nem maior oferta de empregos. Nem menos “trombadinhas”, menos banditismo – e, por reflexo, menos assaltos, violência, seqüestros contra a classe média e seus filhos. Pode-se crescer pouco e ter um país com melhores condições de vida para a população em geral – bastando, para isso, que se tenha uma política econômica que dê prioridade à criação de empregos, a uma distribuição justa na cobrança de impostos (quem ganha mais, paga mais), ao uso do dinheiro dos impostos de forma a beneficiar a maior parcela da população – e não a pequenos grupos. O importante, em resumo, não é “quanto” crescer, e sim “como” crescer. Suponha-se um país hipotético, que só produza automóveis e feijão. Como o PIB de um país é o valor dos bens que ele produz (simplificadamente, para horror dos “puristas”), o crescimento de seu PIB, isto é, de sua economia, será medido de acordo com a expansão daqueles dois bens. E aí começam as distorções, que podem levar a uma economia rica e um povo miserável. Se, por exemplo, a produção de feijão for de 3 milhões de toneladas por ano, ao preço de Cr$ 1,5 milhão por tonelada, o país terá aí Cr$ 4,5 trilhões (esses dados se aproximam da realidade brasileira); se a produção de carros chegar a um milhão de unidades, ao valor médio de Cr$ 30 milhões, o país terá aí Cr$ 30 trilhões. Somando os dois valores, a economia desse país produziria por ano (ou seu PIB, sempre simplificadamente, seria de Cr$ 34,5 trilhões), isto é, Cr$ 30 trilhões em carros e Cr$ 4,5 trilhões em feijão. Suponha-se que, por uma catástrofe qualquer, o valor da produção de feijão caia 50%, isto é, para Cr$ 2,25 trilhões, mas, inversamente, a produção de carros venha a subir 10%, para 1,1 milhão de unidades, no valor de Cr$ 33 trilhões. Apesar da queda brutal na produção de feijão (50%), o PIB cresceria de Cr$ 35,5 trilhões para Cr$ 35,25 trilhões, isto é, algo como 2%. Por quê? Por que o valor unitário dos carros é muito superior ao valor de cada tonelada de feijão. Está aí o ponto central da questão: um país pode aumentar enormemente a produção de produtos de baixo valor unitário como tecidos, remédios, calçados, roupas, móveis, eletrodomésticos – e alimentos. Como o valor unitário desses bens é baixo, no final das contas o PIB crescerá pouco – embora toda aquela produção signifique, de um lado, que um vasto contingente de mão-de-obra estará sendo empregado, e por conseqüência obtendo renda e alcançando condições razoáveis de vida. Inversamente, se um país aumentar (mesmo modestamente) a produção de carros, eletrônicos de alto custo, comidas refinadas, edifícios e vidro fume etc. o PIB poderá crescer velozmente – embora aquele modesto aumento da produção se traduza em aumento insuficiente na oferta de emprego, mantendo-se milhões de pessoas na condição de subempregado ou desempregados, sem renda, sem capacidade de consumir ou atender as suas necessidades básicas. Foi o que aconteceu na época do “milagre” e mesmo em períodos posteriores, transformando o Brasil em um dos países líderes na má distribuição da renda, com grandes massas humanas mantidas na miséria. Todo esse diagnóstico foi repisado ao longo de anos, propondo-se mudança na política econômica para corrigir as aberrações. Desgraçadamente, neste momento – sem que a sociedade se aperceba claramente disso –, o País está levando o modelo concentrador da renda a níveis ensandecidos, semeando aberrações ainda mais gigantescas para o futuro. Há não apenas omissão, mas até conivência de lideranças políticas, intelectuais e, mesmo, sindicais. Usam-se argumentos de forte apelo para engabelar a opinião pública: fala-se em “criar empregos”, “voltar ao crescimento” e que tais. Ora, é preciso entender que há caminhos alternativos para voltar a crescer: um deles beneficia toda a população, toda a sociedade; outro, beneficia grupos, cria mais miséria e mantém o desemprego/subemprego. O governo tanto pode dar incentivos, redução de impostos, a empresas de setores capazes de criar milhares de empregos: têxteis, calçados, alimentos etc. Como o governo pode doar dinheiro dos impostos (ao reduzi-los) ou de juros a meia dúzia de grupos empresariais, envolvidos em negócios que poucos empregos criarão. Ou ainda: se o governo quer recuperar a economia, beneficiando ao mesmo tempo a população como um todo, pode pagar melhor ao funcionalismo e/ou aos aposentados, usando para isso o dinheiro que está doando a grandes grupos (que, neste caso, não teriam a redução dos impostos). É isso que mais espanta no acordo entre sindicalistas (???), governos estaduais, governo federal e indústria automobilística. Como nos tempos de Médici, está faltando à sociedade compreender que o que o País “dá” a uns poucos está sendo negado a milhões de brasileiros, que, se o dinheiro fosse usado em seu proveito, poderiam ter mais empregos, melhores salários, renda para não morrer de fome e de doença. Neste Brasil enlouquecido, a sociedade parece ter perdido até a noção de que a miséria, os problemas sociais, a violência são apenas o outro lado da moeda de uma política em que as opções de uso do dinheiro do País são feitas em proveito de pequenos grupos. No passado, pelo menos havia lideranças capazes de apontar as distorções e lutar para que houvesse mudanças. Hoje, até os líderes sindicais estão participando da lambança, defendendo os interesses de pequenos segmentos do operariado, esquecendo-se dos restantes milhões de brasileiros. Nem Médici ousou fingir-se de cego.



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