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  Direita, esquerda e futuro

Revista Visão , quarta-feira 22 de janeiro de 1992


Ao longo das últimas décadas, os porta-vozes das alas conservadoras apavoraram a sociedade brasileira, com suas previsões de explosão populacional, crescimento da miséria, Quarto Mundo etecetera. Tudo muito conveniente para a implantação de certas políticas e, até muito lucrativo: exagerar o tamanho dos problemas nacionais, falar na gravidade da questão social era e continua a ser um excelente caminho para arrancar grandes vantagens do governo (isto é, da sociedade toda), a pretexto de criar empregos, criar novas fontes de renda etc.

A esquerda, por radicalismo, entrou nesse jogo. Repetiu a mesma ladainha terrorista da direita, ainda que pensando que isso fosse “progressista”. Repetia o mesmo superdimensionamento dos problemas, acreditando que, com isso, estava forçando a adoção de medidas “sociais” por parte do governo. Os resultados do Censo estão deixando claros os malefícios resultantes das posições “dogmáticas” da direita e da esquerda. O Brasil tem adotado planos errados, estratégias erradas, decisões erradas, pelo fato puro e simples de que estava trabalhando com estatísticas populacionais totalmente erradas.

Vai demorar algum tempo para que governantes e sociedade se apercebam de todas as implicações das conclusões do Censo. Mas, repita-se, elas são simplesmente fascinantes. Mudam tudo. Antes de mais nada, é preciso tentar olhar para alguns “segredos” que os números frios ainda encobrem. Primeiro desses “segredos”: já hoje, neste momento, o crescimento da população é muito menor do que o Censo revelou. O Censo está errado? Não é isso. Pelos seus resultados, a população da capital de São Paulo, por exemplo, cresceu 1,22% ao ano na década de 80, um terço do crescimento de 3,7% da década de 70. Isso não significa, no entanto – e aí está o “segredo” –, que, agora, o crescimento anual da população paulistana é de 1,22%, o que daria apenas cerca de 100 mil habitantes por ano e, sim, muito menor. Como assim? Acontece que aquele 1,22% é a média de 10 anos, isto é, o crescimento populacional de uma década dividido por 10 (simplificadamente). Ora, como os dados estão mostrando, na realidade o crescimento da população foi caindo ano a ano, isto é: em 1981, por exemplo, a população ainda crescia algo como 3,5% ao ano, em 1985 já havia caído para algo como 2% ao ano e, finalmente, em 1990 já deveria estar abaixo de 1,0% ao ano.

Em resumo, a média de 1,22% é enganosa, porque inclui as altas taxas de crescimento do começo da década. A realidade já é outra. Há um segundo grande “segredo” dos dados do Censo, importantérrimo para demonstrar que é preciso passar o Brasil a limpo, pois o país de que se fala até hoje não existe há muito tempo. Qual é esse grande “segredo”? Ele se refere ao tipo, à “qualidade” do crescimento populacional de hoje (e dos últimos anos), totalmente diferente do tipo de crescimento ocorrido no passado. Segundo os dados do Censo, a capital de São Paulo (tomada como exemplo, mas o raciocínio vale para outras cidades) recebeu apenas cerca de 20 mil migrantes por ano, nos anos 80.

Uma queda vertiginosa, quando se compara com a média de 200 mil migrantes registrada na década anterior. Anote-se bem: o que importa, aqui, não são apenas os números, a quantidade de pessoas recebidas pela Capital paulista. Longe disso. Quando houve migrações maciças, como nos anos 70, dezenas de milhares de famílias desembocaram na Capital paulista (e outras cidades). Nesse processo de salto na população, da noite para o dia, não há casas para abrigar famílias, não há escolas, hospitais, postos de saúde para atender milhões de habitantes que vão chegando aos borbotões, literalmente da noite para o dia, ao longo de anos. Proliferam as favela, os bairros distantes, a necessidade de estender incessantemente as redes de água, esgoto, energia elétrica, a construção de escolas etc.

Ora – e eis aqui o segundo “segredo” –, quando o crescimento populacional deixa de ser puxado pelas migrações (como já aconteceu nos anos 80), nada disso ocorre. Hoje, a população de São Paulo (e outras cidades) é vegetativa, isto é, resultante de nascimentos (menos mortes). Como se sabe, os bebês moram em casas já existentes, com seus pais. Vale dizer, desapareceram todos aqueles problemas resultantes da chegada maciça de migrantes, a cada dia. Nada disso foi enxergado pelos especialistas, pelos formadores de opinião nos últimos anos. Cabeças dominadas por chavões de direita e de esquerda ficaram papagueando desgraças, catástrofes, caos. Agora, o Brasil está sendo passado a limpo. A sociedade vai descobrir coisas surpreendentes. Vai descobrir que o “catastrofismo” fez a cabeça dos brasileiros, alimentando a impotência e o sentimento nacional de infelicidade. As mudanças já estavam aí.



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