Jornal Folha de S.Paulo , domingo 17 de março de 1996
Os donos do Nacional foram beneficiados por decisão do Ministério da Fazenda em outubro último. Às vésperas da intervenção no banco, o governo permitiu que os títulos da dívida externa brasileira, até então negociados por 65% do valor (35% de deságio), fossem aceitos pelo seu valor de face, isto é, 100%.
Sabe-se agora que, na mesma época, uma empresa do Nacional, com sede em Cayman, comprou milhões de dólares daqueles papéis, com deságio, e em seguida os revendeu ao Nacional _pelo valor de face. Em novembro, ocorre a intervenção no Nacional, o BC "engole" os títulos pelo valor integral, reduzindo-se na aparência o "rombo" do banco _e os donos ficam com os lucros.
A mudança de regras não é a única coincidência que mostra que o governo vinha socorrendo o Nacional há mais tempo do que admite e coloca em dúvida suas afirmações de que só depois descobriu o rombo. Confissão - Em agosto, dois dias após a intervenção no Econômico, o presidente do BC, Gustavo Loyola, deu entrevista a esta Folha (13/8/95).
Loyola previa mais "quebras" em 95. E dizia que o governo evitaria liquidações de bancos, incentivando fusões e compras. Tudo, diz Loyola, "antes de os problemas se tornarem públicos". Caixa preta - Em setembro, o governo FHC, de forma autoritária, decidiu que as decisões do Conselho Monetário e do BC seriam sigilosas. Tudo estabelecido por portaria do BC (266).
Socorro - Em julho do ano passado, o BC gastou R$ 2 bilhões de reais no socorro a bancos. Somente uma parte foi para o Econômico. Julho, agosto, setembro, outubro. A quebra do Nacional foi revelada em novembro.
Todos os governos estaduais vêm adotando a política de reduzir/perdoar o ICMS de novas fábricas de cerveja. A Brahma está distribuindo R$ 400 milhões de reais em dividendos aos acionistas.
O BC sempre apresentou lucros bilionários, na compra e venda de títulos federais, dólar ou ouro. Esses lucros eram repassados ao Tesouro, contribuindo para reduzir "rombos". Em 1995, o BC teve prejuízos astronômicos.
Em janeiro, o noticiário afirmava que o mercado de imóveis estava em recuperação. Realidade: o ritmo de vendas em São Paulo foi de apenas 5,1 imóveis para cada 100 lançados. Em 1995, foram 14 em 100.
O número de demitidos pela indústria paulista na última semana de fevereiro chegou a 14 mil. Nas semanas anteriores: 2.300, 4.100 e 5.000.
O BNDES anuncia que vai financiar a instalação de fábricas de autopeças em outros países. Para as empresas ganharem "condições de concorrência".
A ex-ministra Zélia ’’confiscou’’ dinheiro da população. Mas o rendimento baixíssimo estabelecido para a poupança é uma forma pior de "confisco" _porque os prejuízos jamais serão devolvidos.
O congelamento de tarifas tem derrubado a lucratividade das estatais. Em 1995, o preço médio dos combustíveis caiu 13%; da energia elétrica, 7%; das telecomunicações, 18%. A Cesp, paulista, economizou R$ 950 milhões. Teve prejuízos mesmo assim.