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  Dorothéa, Zélia e o desencanto

Revista Visão , quarta-feira 22 de maio de 1991


Saem Zélia e uma legião de jovens auxiliares, que o presidente Collor tanto elogiou no momento da sua posse. Entram Marcílio e uma legião de auxiliares, que já tiveram seu espaço no governo Sarney (e antes dele). A terrível inclinação para o desencanto que o brasileiro ostenta desencadeou prontamente conhecidas reações, para a alegria de Zélia e preocupação de Collor.

Aos olhos da opinião pública, e nos escritos dos analistas políticos, surgiram novos velhos dogmas: com a queda da ministra, o governo Collor teria passado a apresentar a sua verdadeira face, aquela que o desencanto nacional gosta de atribuir aos governantes. Ou sinteticamente, um governo conivente com os grandes interesses econômicos e submissos a exigências do Exterior. Uma sensação confirmada, nos primeiros momentos, pelo comportamento de lideranças empresariais eufóricas que, sem meias palavras, apareceram no noticiário da imprensa proclamando que haviam majorado seus preços e que o congelamento estava morto, isto é, as porteiras para a explosão da inflação estavam escancaradas. Zélia, como a encarnação do bem (derrotado), e Marcílio, como a encarnação do retrocesso (vitorioso), são mais uma demonstração dessa grande praga nacional que é o maniqueísmo, as interpretações sempre radicais em torno de qualquer mudança marcante na vida do país.

Como encarar, sem maniqueísmo, o retorno de “técnicos do governo Sarney” a posições de comando? Seria mesmo apenas uma falta de alternativas por parte do presidente Collor, engolfado pela debandada da equipe de Zélia da noite para o dia? Ou critérios bastante claros teriam determinado as escolhas? A segunda hipótese parece mais plausível, quando se puxa pela memória. Veja-se em primeiro lugar a nomeação da ex-ministra do Trabalho, Dorothéa Werneck, para um alto posto governamental. Seria ela uma representante do “conservadorismo”?

Na verdade, em sua gestão, o Ministério readquiriu um papel que não tinha há muitas décadas. Por exemplo: no auge do debate sobre a pretensa necessidade de “achatar” salários para combater a inflação, o Ministério do Trabalho de Dorothéa divulgou estudos mostrando dados que não ajudaram em nada o ministro da Fazenda da época, nem tampouco os empresários. Pura e simplesmente, tais estudos demonstravam que a produtividade na indústria brasileira havia crescido violentamente na década de 80, mesmo na fase de recessão do início do período – e os salários haviam continuado a cair.

Mineiramente, como quem não quer nada, o Ministério do Trabalho conseguia demonstrar que a lucratividade das empresas havia crescido no período, já que as empresas faturavam cada vez mais com o trabalho de cada operário (aumento da produtividade) e, ainda assim, os salários caíam... Por seu desempenho, a então ministra do Trabalho conseguiu vencer as desconfianças mesmo das centrais sindicais mais radicais – ao mesmo tempo em que, por seu método de interferir no debate, fundamentada em estudos técnicos, deixava de oferecer a lideranças patronais, que não são exatamente um primor de “progressismo”, o pretexto que gostariam de ter para acusá-la de “radical”.

Em resumo, habilidade – sem imobilismo, sem fazer o jogo conservador. A presença da ex-ministra Dorothéa, no governo Collor, está assim plenamente explicada. A ela caberá negociar preço e salários com empresários e trabalhadores, repetindo-se a tentativa de pacto que ela ajudou a esboçar no governo Sarney. Define-se, com sua indicação, uma das diretrizes da nova fase do governo Collor: a negociação, ou conciliação (não se pode descartar também a hipótese de que a escolha de uma mulher para essa tarefa tenha sido uma “cartada” de Collor, surpreso com as manifestações de apoio popular à ex-ministra Zélia, e, mais ainda, com as atitudes assumidas por ela. Para tentar barrar eventuais planos políticos de Zélia, nada melhor que permitir que outra mulher, “conciliadora”, venha a conseguir o que ela não conseguiu, isto é, um “pacto “ nacional.

Com isso, estaria “comprovado” – no raciocínio do Planalto – que Zélia teria falhado por força de seu próprio “radicalismo”...). Se a Dorothéa cabe a linha de conciliação, a outro ex-integrante do governo cabe o papel de demonstrar que a linha de austeridade para combater a inflação não foi abandonada – já que ele ocupou a Secretaria do Tesouro Nacional, na fase de arrocho de gastos públicos. Assim, é puro maniqueísmo simplista acreditar que as escolhas presidenciáveis representam um retrocesso e nada mais. Essa conclusão, de resto, seria uma injustiça para com a própria equipe econômica que deixou o poder. Por mais erros que tenham cometido, Zélia e sua equipe quebraram uma série de tabus, o que é reconhecido por adversários como (até) o senador Roberto Campos. Equivocados ou não, entraram em luta aberta contra poderosos interesses, demonstrando firmeza e aversão ao “jeitinho”. Sua queda não representa uma vitória do “Mal” pelo fato puro e simples de que a sociedade se apercebeu de que é possível mudar certas práticas enraizadas no país e há quem se disponha a fazê-lo. A grande descrença nacional sofreu um abalo, benfazejo, graças a Zélia e sua equipe. A partir dessa mudança, a sociedade já não aceitará passivamente os abusos de políticos e empresários. A própria formação do novo Ministério, mesmo com nomes “velhos” mostra isso. Conciliação, sim. Mas seriedade também.



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