Preocupada? Não. A economista Maria Sílvia Bastos Marques, tão festejada que seu nome foi sugerido para o novo Ministério do Desenvolvimento, está tranqüilíssima com a desvalorização do real. É verdade que a empresa da qual ela é diretora- superintendente, a “privatizada” Companhia Siderúrgica Nacional, está altamente endividada no exterior, em quase US$ 3 bilhões. Mas a executiva e seu grupo empresarial já temiam, ou previam, que o real estava prestes a explodir e por isso – segundo entrevista à Gazeta Mercantil de 18/01/98 – aplicaram 70% do seu caixa de R$ 900 milhões, ou algo como R$ 650 milhões, em negociações com o dólar no mercado financeiro.
Em português claro, como é que isso funciona? Se Maria Sílvia foi tão vivaz, ao comprar dólares à espera da valorização, quem vendeu esses dólares, isto é, quem ficou com o prejuízo? Milhões de pequenos e médios empresários, profissionais liberais, agricultores, operários, classe média e povão. O Brasil. Por quê? Porque quem “vendeu” tolamente os dólares, e ficou com um prejuízo de no mínimo R$ 20 bilhões, foi o governo. Como assim?
Desde meados do ano passado, a equipe econômica começou a venda intensiva de títulos do governo com correção cambial, isto é, com o valor (além dos juros) corrigido de acordo com qualquer desvalorização do real. Justificativa para a política: “mostrar” ao mercado que o governo “nunca” desvalorizaria o real, pois isso lhe traria um “rombo” imenso.
De agosto de 1997 para novembro de 1998, os títulos com correção cambial “vendidos” aos felizardos pularam de 9% para 22% da dívida crescente do governo, isto é, de R$ 18 bilhões para R$ 66 bilhões (até novembro...). Uma desvalorização de 25% para o real significa, portanto, prejuízos de R$ 16,5 bilhões para o Tesouro e lucros equivalentes para as Companhias Siderúrgicas Nacionais do país. Houve mais prejuízos, porém, de no mínimo R$ 4 bilhões, sofridos pelo governo nos chamados mercados futuros. Como foram essas operações?
Simplificadamente: prevendo que o real iria cair e o dólar, subir, empresas (grandes) e bancos procuravam comprar, além dos títulos do governo, também dólares para “guardar”. Obviamente, nada de “dinheiro vivo”, cédulas de dólar, mas, sim, contratos na Bolsa de Mercadorias & Futuros, pelos quais um vendedor A se compromete a entregar ao comprador B, dentro de 30, 60, 90 dias, um valor determinado, de milhões de dólares – pelo preço do dia da assinatura do contrato, isto é, “congelado”. O vendedor A, no caso, foi o governo brasileiro, que fechou contratos, para entrega de dólares a esse preço “congelado”, em nova tentativa – segundo o pretexto oficial – de mostrar ao mercado que “nunca” desvalorizaria o real.
Quanto? Fala-se em US$ 12 bilhões, que representam um prejuízo de R$ 4 bilhões, com a desvalorização de 25%.
Pode-se alegar que esse prejuízo de R$ 20 bilhões para o Tesouro é lamentável, mas foi apenas “o preço” (mais um...) de uma tentativa do governo de impedir a explosão do real. Mas há um detalhe importantíssimo nessas operações, para o qual o Congresso e a opinião pública brasileira precisam dedicar sua atenção. As empresas “privatizadas” – atenção – têm empréstimos maciços do banco estatal, o BNDES. Bilhões e bilhões de reais. Então, na prática, tudo se passou assim: o governo, via BNDES, emprestou centenas de milhões de reais a determinados grupos, para que eles, em lugar de investir, aplicassem na “compra” de dólares “vendidos” pelo governo, à espera da valorização. Isto é, houve financiamento oficial para a especulação contra o real (sem esse dinheiro do governo, os grupos privilegiados não poderiam realizar operações de “compra” de dólares, que aumentaram a pressão contra a moeda brasileira).
Há outras aberrações, destruidoras do real, nas relações do BNDES com esses grupos privilegiados, principalmente os “compradores” de estatais. Tais grupos estão sendo financiados maciçamente pelo BNDES e, no entanto, segundo entrevistas de seus próprios diretores publicadas na imprensa, estão importando 85%, 90% e até 100% de peças e componentes dos telefones, geladeiras, equipamentos que deveriam produzir aqui. Isto é, de nada adianta a desvalorização “para encarecer as importações” e reduzi-las; esses grupos, multinacionais ou sócios delas, continuarão a comprar lá fora, pois esse é o desejo das “matrizes”. E as exportações? Também aqui o que vale é o interesse da matriz e de seu país-sede.
Veja o que aconteceu com as exportações de automóveis do Brasil: caíram 50% em outubro e novembro. Explicação enganosa: “É a retração do mercado mundial”. Verdade? Mas as exportações de automóveis, pelo México, caíram apenas 1% em 1998, revelando a decisão das “matrizes” em prejuízo do Brasil.
O presidente da República fala em “união nacional”. Poderia obtê-la, se organizasse um plano nacional, para a reconstrução da economia, no qual o BNDES e os bancos estatais dos Estados financiassem, fossem colocados à disposição de centenas de milhares de empresas – e não a serviço de pequenos grupos, com financiamentos esdrúxulos, utilizados até contra o real. Em lugar de mudanças, o presidente da República faz ameaças aos empresários que reajustarem preços em decorrência dos aumentos de custos resultantes da desvalorização. Omite que esses empresários perderam com a queda do real, ao contrário dos grandes grupos de sempre...
Se o Congresso, sempre colocado no “banco dos réus” pelos meios de comunicação, e empresários não agirem por mudanças radicais na política econômica, a crise continuará a aprofundar-se.