Jornal DCI , quinta-feira 11 de novembro de 1976
A afirmação pode parecer surpreendente, mas o quadro da economia nacional é, hoje, menos preocupante, ou menos tumultuado, do que o existente há três ou quatro meses — a exceção da balança comercial, para a qual as perspectivas de médio e longo prazo são menos risonhas do que as autoridades monetárias freqüentemente afirmam, e que certamente exigirão soluções novas.
O declínio da inflação em outubro, e, possivelmente, em novembro, tem, realmente, o dom de criar um ambiente menos cheio de incertezas, como o vivido a partir de junho, marcado pela inflação galopante e pelas próprias medidas adotadas para combatê-la e que levavam o empresário à perplexidade e ao temor pelo futuro de seus negócios. Sem falar, obviamente, dos efeitos dos preços em alta sobre todos os orçamentos das empresas ou do próprio Governo, levando ao cancelamento de projetos e investimentos, detonando um processo de reações em cadeia, negativas para a economia.
Mais que o próprio declínio da inflação, no entanto, o relativo "ordenamento’’ conseguido pela economia nacional decorreu de medidas simples (que deviam ter surgido antes), e que estão trazendo desafogo geral a esta altura. No momento em que as autoridades monetárias abandonaram ou foram levadas a abandonar posições teóricas, que nada tinham a ver com a realidade, e passaram a atacar problemas reais, quase que “administrativos”, mas que vinham assumindo gravidade crescente, começou-se a caminhar para uma solução.
Fundamentalmente, essa mudança de atitude ocorreu em relação ao mercado financeiro cujas distorções foram insistentemente ignoradas nos últimos anos, tumultuando toda a política econômica e a economia do País.
AS TORNEIRAS – Em plena paz, algumas áreas oficiais parecem acreditar no acerto da máxima bélica, de que o que importa é a versão, e não os fatos. Por isso mesmo, relutam em admitir que cometeram erros — às vezes, meses a fio, por teimosia —, preferindo corrigi-los de forma dissimulada, sem nunca admitir, às claras, que eles tenham ocorrido. O que importa para o País, no entanto, é o fim das distorções — merecedor de elogios mesmo por quem, ou principalmente por quem as criticou e cujo objetivo único era, exatamente, cooperar na solução de problemas.
Toda a política econômica, este ano, foi terrivelmente tumultuada pelos paradoxos na política de crédito, contra os quais este Jornal foi uma das primeiras (e únicas) vozes a se levantarem. Enquanto se aplicava a política monetarista para as empresas, restringindo o crédito e "soltando" os juros, alimentou-se a incrível especulação no mercado financeiro, no "open", na compra e revenda de títulos de renda fixa, que inutilizou todos os esforços para conter a expansão dos meios de pagamento (e do crédito não-bancário) no País. Os dados mais recentes do Banco Central mostram que era possível conter essa especulação, e que, hoje, efetivamente, vão-se fechando todas as torneiras que provocavam vazamentos na política monetária. O bom observador deve ter notado o cerco, por etapas, a esses vazamentos: primeiro, concluiu-se que, efetivamente as reflorestadoras recebiam dinheiro do Governo (através do IBDF) e, em lugar de aplicá-lo em seus projetos, iam para o "open". Uma portaria limitou a distorção. Depois, foi a vez dos desvios no crédito rural, no crédito para a comercialização do café, nos recursos do Governo para a compra de fertilizantes ou calcário, nos financiamentos para os pecuaristas (retenção de cria) — áreas em que "brigadas" do Banco Central e da Secretaria da Receita Federal vêm realizando investigações, nas últimas semanas. Mais recentemente, foi a vez das empresas que declaravam a intenção de exportar, e recebiam recursos a 12% ao ano, aplicando-os contudo no "open" (no meio tempo, falou-se também em grandes indústrias, clientes do BNDE, e que obtinham recursos através de “notas frias” de compras de máquinas, para aplicá-los no "open").
COM ORDEM – Sempre se frisou — neste jornal — que a especulação no "open" não era um fenômeno isolado, e que as críticas a ela não partiam de uma posição moralista, contra ganhos excessivos do (e no) mercado financeiro. Na verdade, era preciso que a classe empresarial e a opinião pública em geral tomassem conhecimento do papel fundamental que o mercado financeiro desempenha na economia — e os desastres, na política econômica, que suas estripulias vinham provocando.
Por isso mesmo, o "ordenamento" do mercado, que vai realmente sendo obtido, é por isso mesmo o dado mais alentador, na área da política econômica, nos últimos meses. Com ele, pode-se prever que a política de crédito implantada pelas autoridades monetárias deixará de caracterizar-se por medidas bruscas, com sucessivos períodos de folga e grandes apertos. Na medida em que, na verdade, freqüentemente perdia o controle sobre o mercado financeiro, o Ministério da Fazenda enfrentava situações que acabavam exigindo remédios violentos, freadas bruscas, medidas radicais – que paradoxalmente prejudicavam o comércio, a indústria e a agricultura, e muitas vezes enriqueciam ainda mais o mercado financeiro, pelas oportunidades de aplicações a taxas elevadíssimas que criavam.
O fim do "jogo de ganhar juros" no mercado financeiro — a distorção que mais males causou à economia do País nos últimos quatro anos — cria a oportunidade de uma "dosagem" permanente na política de crédito, para estes últimos meses do ano e para o começo do próximo. O dado altera, fundamentalmente, as expectativas em relação às dificuldades para as empresas, até agora previstas para o primeiro trimestre do próximo ano. E ele não resultou da "política monetarista" — mas, antes, das críticas que poucas vozes ousaram formular no transcorrer deste ano, e que finalmente prevaleceram sobre os dogmas da teoria.
O bom senso finalmente prevaleceu, em relação ao mercado financeiro. Ele pode vir a vencer também em relação ao problema fundamental do País que, longe de estar sendo solucionado, continua a ...nas relações ... se verá a seguir.