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  Somos vagabundos horríveis

Jornal Diário Popular , terça-feira 2 de maio de 2000


Os trabalhadores e suas famílias continuam a ser vítimas de um deboche sem limites, inclusive xingamentos, por parte do governo FHC. Ontem, Dia do Trabalho, o ex-ministro do Trabalho e atual subministro da Fazenda, Edward Amadeo, ganhou manchetes em jornais, afirmando que o desemprego está indo embora, porque ‘‘a criação de empregos na economia brasileira está em níveis que não se viam desde outubro de 1996’’. De onde o elegante economista tirou essa novidade? É que, diz erradamente a entrevista, ‘‘em março, segundo dados divulgados pelo IBGE, foram criados 620.616 postos de trabalho, na comparação com março do ano passado’’. Está errado uma, duas, três vezes. Por quê? Porque não houve aquela criação de 600 mil empregos em um mês, como se dá a entender. O que houve é muito diferente: em março deste ano estavam trabalhando 620.616 pessoas a mais do que em igual mês do ano passado. Isto é, a diferença de 600 mil se refere a um ano — de março a março — e não a um mês. Você pode dizer: ‘‘ah, mas de qualquer forma melhorou...’’. Está tudo errado. O próprio doutor Amadeo confirma que dessas 600 mil ‘‘novas vagas’’, somente 92.000 foram contratações com carteira assinada, ‘‘vagas’’ de verdade oferecidas por empresas. Os outros 510 mil não são ‘‘postos de trabalho’’ coisa alguma, são brasileiros e brasileiras desempregados e subempregados, fazendo ‘‘bicos’’, vendendo drops na rua — e que são colocados nas estatísticas do IBGE como empregados (ocupados) porque sua pesquisa deixa de considerar como ‘‘desempregado’’ qualquer pessoa que tenha ganho cinco, dez, quinze reais na semana em que a pesquisa é realizada, com qualquer tipo de bico... O doutor Amadeo sabe de tudo isso, mas debochadamente fala em ‘‘recorde de empregos’’.

E há ainda mais erros no seu balanço. Primeiro: mais uma vez, a comparação com março de 1999 (para vendas, emprego, faturamento, etc.) é uma malandragem, porque — como é sabido — no ano passado a economia ‘‘parou’’ no primeiro trimestre, após a queda do real. E você não embarque na desculpa de que, ‘‘de qualquer forma, melhorou’’. As próprias estatísticas distribuídas pelo doutor Amadeo mostram que o número de pessoas ‘‘empregadas’’ (‘‘naquela base’’ do IBGE...), ou ocupadas (inclusive com ‘‘bicos’’, naquela base do IBGE...) chegou a 16,8 milhões em março, com o tal avanço de 600 mil sobre 1999. Agora, veja bem: esses 16,8 milhões representam um avanço de apenas 200 mil pessoas ‘‘ocupadas’’, na comparação com as 16,6 milhões de outubro de 1997. Em dois anos e meio, apenas 200 mil pessoas ‘‘ocupadas’’ a mais, em um País que precisa de 1,5 milhão a 2 milhões de empregos por ano... Indo mais longe: os 16,8 milhões de ‘‘ocupados’’ representam apenas 1 milhão de avanço na comparação com março de 1995. Pasme-se: em cinco anos, só 1 milhão de empregados e subempregados a mais.

Depois de mentir debochadamente, o doutor Amadeo conclui que, para a economia crescer, ela precisa, entre outras coisas, do aumento da produtividade das empresas, e para isso o País ainda tem ‘‘como desafio a melhora na qualidade do trabalhador’’. Você entendeu o xingamento? A culpa pelo desemprego é, em última análise, dos trabalhadores, diz o governo FHC.



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