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  SEU ALUGUEL SUBIU 100% ? ESTÃO ROUBANDO V.

Revista Doçura , abril de 1981


O fim do tabelamento da correção monetária trouxe grandes confusões — e, por causa dela, prejuízos ao bolso dos brasileiros. Como?

Por exemplo: os inquilinos estão aceitando aumentos no aluguel das casas em que moram na base de até 100% ao ano, ou, na melhor das hipóte¬ses, em torno de 90% ao ano. Está absolutamente errado. Os aumentos dos aluguéis, nos contratos que estão vencendo este ano, não podem passar dos 55, 60%, nestes pri¬meiros meses de 1981.

CONFUSÃO — Como nas¬ceu a confusão? Todo mundo sabe que a correção monetá¬ria foi tabelada em 50, 55%, em 1980. No fim do ano, o governo anunciou que o tabela¬mento ia terminar, e que em 1981 — isto é, daqui para a frente —, a correção acompanharia o INPC — Índice Nacional de Preços ao Consumidor —, que é a alta do custo de vida calculada pelo IBGE.

Foi só surgir este aviso e começou-se a dizer que, como a inflação em 1980 tinha sido de mais de 110%, os aluguéis também iriam subir mais de 100%. Não era nada disso: o fim do tabelamento significava apenas que, a partir de fevereiro, a correção de cada mês seria igual ao aumento do custo de vida. Quer dizer: se o aumento do custo de vida fosse de 10%, a correção estaria próxima disso, naquele mês.

SENHORIOS ABUSANDO — Mas, da mesma forma, se o aumento do custo de vida fosse de 3%, a correção naquele mês cairia para esses 3%.

Em resumo: a correção monetária de 50, 55%, calculada para um ano inteiro, passaria a crescer mais rápido se o custo de vida aumentasse mais velozmente, ou poderia até diminuir, no caso contrário. Mas a confusão foi armada e, por falta de informações do inquilino, começaram os aumentos abusivos de preços. Há proprietários de imóveis que, ao vencer o contrato, pedem 100% de aumento, para fazerem um contrato novo. Há outros que pedem 87%, alegando ter sido esse o aumento do INPC em 1980, enquanto alguns pedem reajustes com base no INPC do mês, na casa dos 90%.

Quem é inquilino e tem um contrato que vence nestes próximos meses, deveria conversar urgentemente com um amigo ou conhecido que seja advogado ou tenha conhecimento maior da Lei do Inquilinato, para evitar tentativas de abuso por parte dos senhorios. Os aluguéis só podem ser reajustados, num contrato novo, com base na correção monetária das ORTN — Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional.

OUTRA CONFUSÃO — Outra confusão criada pelo fim da correção monetária foi a violenta elevação dos juros nos cartões de crédito e nas compras feitas pelo crediário (crédito ao consumidor). As taxas estão em tor¬no de 10% ao mês, o que é uma violenta sangria para o orçamento do consumidor. Muitos, acreditando numa inflação de 150 a 200% este ano, acham que ainda estão fazendo vantagem, porque aqueles 10% corresponderiam a 120% ao ano. É o que se pensa, erradamente.

Na verdade, os juros de 10% ao mês, conforme as condições do crediário, significam até 200% ao ano. Nesta fase de custo elevado do dinheiro, e diante da possibilidade de queda de inflação, lucra o consumidor que reduz suas compras a crédito apenas ao essencial.

As colheitas aumentaram, o consumo de petróleo diminuiu.ACREDITE, A INFLAÇÃO ESTÁ CAINDO!

Quando a inflação chegou a mais de 110% ao ano, no final de 1980, começaram a surgir previsões de que ela, este ano, iria a 150% ou mesmo a 200%, apavorando os chefes de família e donas-de-casa. Pior ainda, essas previsões, na base do chute, acabaram — como sempre acabam — ajudando os especuladores e criando mais inflação, pois todo mundo começou a aceitar aumentos de preços sem nenhuma justificativa, com base apenas na desculpa de que "a inflação vai chegar aos 200%".

DOÇURA ACERTOU — Para quem acreditou nessas previsões, foi certamente uma surpresa verificar que, em dezembro e janeiro, a inflação não disparou. Ao contrário: ficou em 5,9% em dezembro e 6,6% em janeiro. Isto é, na mesma faixa (ou um pouco abaixo) atingida no segundo semestre de 1980.

Estavam certos, portanto, os avisos feitos aqui, na coluna de Economia de DOÇURA, de que aqueles cálculos pessimistas estavam errados.

Mesmo que os resultados da inflação, em fevereiro, tenham sido piores que nos meses anteriores, ainda assim não significa que as perspectivas da luta contra a inflação não sejam muito melhores, este ano, do que em 1980.

Outras surpresas — de inflação mais baixa, e não mais alta — podem surgir, nos próximos meses. Por quê?

ALIMENTOS E PETRÓLEO — Sem querer complicar, é bom lembrar que dois motivos para a grande infla¬ção do ano passado foram os aumentos dos preços dos alimentos e os reajustes dos preços da gasolina e outros deri¬vados do petróleo. Para 1981, são exatamente essas duas áreas que fazem prever uma inflação menor.

Alimentos — o clima ajudou as colheitas deste ano, pelo menos por enquanto. Houve, assim, queda de preços para produtos importantes como o feijão, o milho (cujo gasto encarece a produção de ovos, frangos e mesmo carne de porco e de vaca, já que o cereal é usado na alimentação das criações), a batata e a carne. E estabilidade para outros.

A grande produção — é preciso entender isso — significa que, mesmo depois que passar a época das colheitas, haverá estoques de alimentos, evitando a alta de preços (como aconteceu em 80) no segundo semestre. A inflação pode cair.

Petróleo — já se disse aqui: é incrível que ninguém preste atenção ao fato do consumo mundial de petróleo vir caindo, bastante, nos últimos dois anos.

Isso impede que os países vendedores de petróleo au¬mentem muito seus preços, como vinham fazendo até 79. Em fevereiro último, o custo do petróleo no "mercado livre" (ou "mercado negro") de Roterdã caiu abaixo de 40 dólares. Isto é, abaixo do preço do mercado oficial. Por quê? Petróleo sobrando.

Por enquanto, quem falar em inflação de 150% está ape¬nas ajudando a especulação. E quem acreditar nela pode ter grandes prejuízos.



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