Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 27 de fevereiro de 1996
Primeiro lance: o governo "planta" na imprensa notícia sobre "fraudes de milhões", com saques indevidos, nas contas do FGTS.
Segundo lance: semanas depois, o governo anuncia que tem planos para mudar o Fundo de Garantia _e impedir, óbvio, que os trabalhadores saquem o dinheiro de suas contas, a não ser quando se aposentarem.
Primeiro lance: o governo divulga insistentemente que os Estados estão "falidos" e são os principais responsáveis pelo chamado "rombo do setor público".
Segundo lance: o governo federal exige que os governadores entreguem suas estatais de energia, ferrovias etc. à equipe FHC _para que ela realize a privatização a toque de caixa.
Não é preciso alongar a lista. Os exemplos mostram que a equipe FHC tem imensa capacidade nessa área, de manipular informações para abrir caminho a propostas discutíveis.
Estatísticas surgidas aos borbotões no final da semana deveriam abrir os olhos dos formadores de opinião para a falsidade dessas teses: . FGTS _ existem cerca de 80 milhões de contas, atuais ou inativas, no Brasil. As "fraudes" que ganharam manchetes se referiam a uns 700 (setecentos, mesmo) trabalhadores que simularam sua demissão para sacar o dinheiro...
. Estados e municípios _ sua dívida líquida cresceu de R$ 26 bilhões para R$ 33 bilhões de reais, enquanto a dívida líquida do governo federal e do Banco Central dobrou de R$ 33 bilhões para R$ 66,5 bilhões em 1995. Motivo, agora reconhecido: os juros astronômicos.
. Desemprego _ ao longo do ano, o governo citou estatísticas do IBGE para negar que a indústria estivesse demitindo maciçamente. O otimismo interessava ao governo, para negar a recessão.
Agora, o IBGE diz que somente em dezembro o nível de emprego na indústria caiu 10%, na comparação com 1994.
Difícil acreditar nesse volume de demissões "da noite para o dia". Mas agora a realidade interessa ao governo, para reforçar a articulação contra os "encargos sociais".
Os empréstimos do BC aos bancos saltaram de R$ 20,5 bilhões para R$ 34,6 bilhões em 1995. De setembro para dezembro, a disparada: de R$ 26,4 bilhões para R$ 34,6 bilhões. Ou mais 8,2%.
O governo deve "injetar" de R$ 7,5 bilhões a R$ 12 bilhões no Nacional, segundo esta Folha.
Tanto ou mais do que se liberou para a Saúde durante um ano inteiro. E de 10 a 15 vezes o que o governo destinou a milhões de agricultores em 1995.
Continua discutível a venda da parte "boa" ao Unibanco, cabendo ao governo (contribuintes) ficar com a parte "podre".
O ministro Stephanes determinou que haja prioridade no julgamento de processos de cobrança dos grandes devedores. Pena que ele já tenha anunciado essa mesma providência em junho do ano passado.
O fornecimento de refeições aos detentos do presídio do Carandiru, terceirizado pelo governo Covas, não custará R$ 22 por preso/dia, como foi noticiado _e esta coluna criticou. O preço é de R$ 6,50 por dia (duas refeições, mais café da manhã) e não por refeição.
Pelos dados do Banco Central, o governo reduziu sua dívida externa líquida em R$ 7 bilhões em 1995 (de R$ 44,3 bilhões para R$ 37,4 bilhões).
Trocou dívida externa, a juros de 60% ao ano, por dívida interna, a juros de 32% reais (média de 95), isto é, descontada a inflação?
Noticiou-se, embora escondidinho, a evolução da dívida do governo federal no mês de janeiro. Houve novo salto, de R$ 108,5 bilhões para R$ 117 bilhões.
Dos R$ 8,5 bilhões, somente R$ 2,8 bilhões podem ser atribuídos ao rombo do Tesouro.
Grande estardalhaço em torno da jazida de ouro descoberta pela Vale do Rio Doce, que o governo FHC quer privatizar. Na verdade, a Vale já é a segunda maior produtora de ouro do mundo.
O Congresso programou um seminário, com diretores da Vale, para obter maiores informações sobre a proposta de privatização. O seminário foi cancelado três vezes. Os diretores da Vale mandaram mensagem, em cima da hora, comunicando a "impossibilidade" de comparecer.