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  É hora de aproveitar a democracia

Revista Nova , abril de 1983


A escalada de assaltos e crimes violentos está trazendo angústia crescente não só aos moderados dos grandes centros, mas, também, aos de que pequenas cidades do interior – temendo-se, ainda, que a situação piore rapidamente, por força da crise de economia. O sentimento de comiseração para com as vítimas da violência é acompanhado pela sensação de insegurança e temos, de cada um, de que drama semelhante atinja a si próprio ou à sua família.

Por mais que a criminalidade esteja ligada a problemas sociais, decorrentes também de erros dos governantes, pode-se questionar a verdadeira paralisia da sociedade brasileira diante da questão. Hoje, estamos todos vivendo de forma bovina, de braços cruzados, esperando apenas termos a sorte de não virmos a figurar nas estatísticas das vítimas da violência – uma hipótese cada vez mais remota de concretizar-se.

O que se pode fazer? Concentrando-se a atenção apenas na criminalidade resultante dos problemas sociais, há muito o que fazer, a curto e longo prazos, e ao nível pessoal e das instituições. O que é preciso é pôr mãos à obra. A longo prazo, a solução dos problemas sociais exige políticas governamentais corretas e utilização correta de dinheiro da Nação. Aqui, a participação de cada um será indireta, à distância – mas nem por isso menos importante. Mal saída de um longo período de fechamento político, a sociedade brasileira parece não ter entendido, ainda, que os novos tempos permitem – e exigem – um comportamento novo. Antes, na escuridão ditatorial, protestos e críticos eram feitos no âmbito familiar, no círculo de amigos, mero “desabafo” de quem se sentia impotente. Hoje, críticas e protestos já chegam aos jornais, à imprensa – mas é tudo. Ainda não há uma consciência generalizada de que o que a democracia oferece é exatamente a oportunidade de os diversos segmentos sociais se organizarem, para defenderem os seus interesses. Em outras palavras, as decisões dentro de sociedades democráticas são tomadas em função de um verdadeiro “jogo de forças” organizadas.

Isto significa que, para obter políticas econômicas mais justas, ou mesmo para impedir favoritismos que em outros países seriam escândalos, é preciso uma nova forma de participação dentro da sociedade. Os caminhos para essa participação são muitos, cada qual pode escolher o seu caminho. Na área de trabalho, por exemplo, há transformações em marcha, ainda pouco analisadas: mesmo no ano passado, sem o “aperto de cintos”, provocado no momento pela dívida externa, o nível de emprego industrial caiu em São Paulo. Claramente: a produção industrial aumentou, e o desemprego não se reduziu, ao contrário.

Por trás desse quadro, há a tendência de as empresas utilizarem menos mão-de-obra, através de caminhos diversos. Em lugar de observar seu mercado de trabalho estreitando-se continuamente (caminho seguro para mais problemas sociais e mais violência, no futuro), é óbvio que cabe aos assalariados fortalecer seus sindicatos, agigantando o seu número de associados, dando-lhes força para que também influenciem a determinação dos rumos econômico-sociais do país.

Além de questões amplas como essa, há casos mais específicos onde a forma de se fazer ouvir são outras: manifestações de rua, pacíficas, contra doações de terrenos públicos e particulares, por exemplo; “torrentes” de telegramas e cartas a deputados e vereadores contra determinadas medidas (hábito largamente difundido nos países desenvolvidos); boicotes organizados contra maus serviços ou preços altos, e assim por diante. O importante é que haja mobilização, participação, para que não pareça – como hoje – que a reivindicação ou o protesto partem de um punhadinho de “gatos pingados”. Se Você estiver em desacordo com alguma coisa, engrosse o volume de protesto, pois é assim que as democracias funcionam.

Lógico que o ideal seria que essa participação intensa, exigida pelos novos tempos, fosse feita de forma organizada, com as pessoas formando ou se filiando a associações de moradores, clubes de defesa do ambiente, entidades culturais, assistenciais etc.

Até hoje, porém, dão raras as pessoas – principalmente nos grandes centros – que se disponham a essa participação organizada e permanente, sob a eterna alegação de “falta de tempo”. Para quem acredita nessa justificativa, resta ao menos a alternativa de, nos momentos necessários, “engrossar” as fileiras dos reivindicantes. A omissão permanente é que é uma atitude suicida, contra os próprios interesses e contra o futuro.

Essa participação política – no seu sentido amplo – é a contribuição que cada um de nós pode dar para a solução dos problemas da sociedade, a longo prazo, com reflexos sobre a criminalidade e a violência. A curto prazo, também, há muito a fazer, ao nível individual ou coletivo. O funcionamento de creches, escolinhas, “maternais”, entidades assistenciais, de formação profissional, etc., poderia espraiar-se rapidamente – através de trabalho voluntário, que reduziria os encargos do governo. Muita gente é contra esse tipo de solução, considerando-a, no fundo, uma contribuição para que o governo mantenha os erros de política econômica, privilégios e distorções já que a redução dos problemas sociais reduziria também – nessa análise – as pressões para resolvê-los. A argumentação se esquece que o que se propõe, hoje, é a atuação em dois níveis: participação ao nível de organizações, para reivindicar mudanças; e participação específica, casuística, para resolver problemas sociais que aí estão, cada vez mais ameaçadores.

Os problemas da violência e da criminalidade não são do “futuro”. São de ontem. Até por instinto de sobrevivência, é preciso que todos coloquemos mão à obra.



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