Jornal Diário Popular , sexta-feira 16 de junho de 2000
De repente, o noticiário da imprensa começa a prever insistentemente a possibilidade de racionamento de energia e mesmo de blecautes, ou ‘‘apagões’’, nos próximos meses. Os motivos apontados são dois: a falta de chuvas, que provocou grande rebaixamento no nível de água das represas, e o atraso na construção de novas usinas hidrelétricas no País.
Quem conhece o Brasil, sabe que muitas vezes, no passado, a ameaça de racionamento era pura invencionice: grandes empreiteiras, em cumplicidade com governos e grande imprensa, espalhavam a mentira para justificar a liberação de verbas gigantescas para a construção de usinas desnecessárias — e em contratos cheios de irregularidades, com a desculpa da ‘‘pressa’’.
Quem conhece o Brasil de hoje, pode apostar que o povo vai mesmo enfrentar ‘‘apagões’’, não porque eles sejam inevitáveis, mas porque eles interessam ao governo FHC e a grandes grupos multinacionais, sobretudo dos EUA, e brasileiros.
Como assim? Com os ‘‘apagões’’, a grande imprensa vai recomeçar aquela ladainha de que a falta de energia se deve à falta de investimento do governo e, que essa falta se deve à falta de recursos do Estado e, portanto — lá vem a malandragem — há necessidade de aumentar a ‘‘privatização do setor’’. Ou, em bom português, os ‘‘apagões’’ podem até ser planejados, propositais, exatamente como arma para manipular a opinião pública, convencendo-a de que é preciso vender as grandes estatais, ou as fatias que restaram das estatais no setor, como é o caso da Cesp-Tietê, em São Paulo.
O mais grave é que toda essa manobra gira em torno daquela mentira, de que houve falta de investimentos por culpa do governo. A verdade é exatamente o contrário: grupos nacionais e estrangeiros que ‘‘ganharam’’ estatais geradoras de energia ‘‘raspam’’ os cofres, embolsam tudo, mandam dólares para suas matrizes — e deixam de executar os planos de expansão previstos.
Um exemplo dessa aberração? No caso da Cemig, o grupo norte-americano ao qual ela foi entregue chegou a retirar, para todos os acionistas, até 400%, ou quatro vezes o lucro do ano de 1998. Parece mentira: como é possível apropriar-se de lucros que não existiram? Não é mentira, não: os sócios avançaram até em reservas de lucros antigos, que deveriam ser investidos. A Light apresentou comportamento semelhante, distribuindo dividendos superiores aos lucros.
Você pode perguntar: mas por que toda essa manobra dos ‘‘apagões’’ seria necessária? Porque, a esta altura, já existe uma reação crescente contra as privatizações dos serviços públicos, com as tarifas exageradas, a baixa qualidade dos serviços, o desprezo para com o consumidor representado por decisões como o fechamento de postos de serviço etecétera. Essa reação não existe apenas entre a população: ela já chegou até o Congresso Nacional, onde os próprios partidos governistas estão pedindo a revisão da política de privatizações. Nesse quadro, nada melhor do que assustar a opinião pública com ‘‘apagões’’ para fazê-la aceitar as privatizações de empresas como a Cesp-Tietê, em São Paulo, planejada pelo governo Mário Covas, na base da mentira...