Jornal Folha de S.Paulo , domingo 8 de novembro de 1981
Nas conversas de bastidores, em Brasília, insiste-se já há algumas semanas na existência de uma "luta surda" entre o Ministério do Planejamento, de um lado, e o Ministério da Fazenda e o Banco Central, de outro, quanto aos rumos da economia, em 1982. Segundo essas versões, a equipe do Planejamento defenderia, a esta altura, certo afrouxamento na política de contenção do crescimento, inclusive por motivos políticos, a saber, a busca de apoio do empresariado paulista para as aspirações políticas do ministro Delfim Neto.
De sua parte, o presidente do Banco Central, Carlos Langoni, já firmou sua posição publicamente, ao declarar, em recente entrevista, que não é hora de afrouxar a política, pelo fato puro e simples de que a economia já mostra indícios de recuperação. Adotar qualquer medida para ativá-la, no seu entender, traria o risco de reforçar excessivamente uma tendência já esboçada, provocando nova recaída inflacionária – e novo agravamento do problema da dívida externa, no seu entender. Lógico que a posição de Langoni é menos simpática do que a colocação do ministro do Planejamento: ainda predomina no Brasil a fantasia de que só o "crescimento acelerado" é vantajoso, apesar de o País estar pagando, neste momento, exatamente o preço da política do "vamos crescer a todo vapor" lançada por Delfim Neto em 79. A lição não foi bem assimilada, até o momento.
Antipática ou não, o fato é que a resistência ao "afrouxamento", colocada por Langoni, é plenamente justificável, inclusive pela recente experiência brasileira. O comportamento da economia nacional em 1980, quando analisado a partir de dados, confirma a observação, já citada em outras oportunidades, de que muitas vezes a política econômica sofre alterações, "hoje", para resolver problemas de "ontem" (isto é, já superados), agravando os problemas de "amanhã". A mesma análise mostra ainda que, por incrível que pareça, as interpretações que não se baseiam em dados, mas apenas em opiniões que não são nada mais do que "impressões", podem criar "mitos", aceitos como verdades quando não têm nada a ver com o que está ocorrendo.
Veja-se primeiro qual foi a mitologia criada em tomo da economia brasileira, em 1980. Quando a correção monetária foi tabelada em janeiro do ano passado, começaram as "interpretações" segundo as quais, com a medida, haveria desestímulo à poupança, e o povo compraria bens de consumo em larga escala. Falou-se insistentemente nas vendas recordes de eletrodomésticos, na falta de matérias-primas etc., por força de uma demanda superaquecida: o consumidor, sem interesse em investir, estaria também "antecipando" suas compras, "antes que os preços subissem".
O superaquecimento da economia teria feito a inflação e as importações dispararem, exigindo que, a partir de setembro/outubro, o ministro Delfim Neto iniciasse a política de contenção da demanda, adotando como primeira medida a liberação das taxas de juros, isto é, a elevação brutal dos juros, sobretudo no crediário.
Essa versão não corresponde à realidade. Para prová-lo, tome-se como exemplo exatamente o setor tido como "superaquecido" em 80, de eletroeletrônico-doméstlcos, a partir do gráfico de vendas realizadas – atente-se ao detalhe – pelas indústrias ao comércio. O que ele mostra? Um gigantesco salto nas vendas, no começo do ano – e uma queda violenta já a partir de maio, isto é, ainda no primeiro semestre, com levíssimas reações em agosto ("Dia dos Pais") e outubro (encomendas para o Natal). Os dados mostram, assim, que o comércio comprou maciçamente no começo do ano – provavelmente entusiasmado com a grande demanda de janeiro/fevereiro, motivada sobretudo pela nova política salarial, em vigor desde novembro de 79 (mês em que dezenas de categorias profissionais tiveram um primeiro reajuste semestral, de 22%, e em que o próprio salário mínimo teve igual tratamento). Por que, a partir de maio, o comércio reduziu brutalmente suas encomendas? Evidentemente, as vendas ao consumidor não tiveram o desempenho esperado, começando a crescer a montanha de estoques nos depósitos das lojas. Por que a indústria não reduziu rapidamente sua produção, se suas vendas ao comércio mostravam tendência a despencar? Vivia-se um ambiente de inflação em alta, vivia-se a mitologia da demanda superaquecida, e vivia-se, principalmente, uma oportunidade única para formar estoques especulativos, já que, com o tabelamento da correção monetária, o custo de empréstimos (para manter os estoques) era baixíssimo (principalmente em relação à inflação galopante). Nesse quadro, e esperando grandes vendas no final do ano, a indústria começou ela própria a formar seus estoques, a partir do momento em que o comércio reduziu suas encomendas. Mas quando o ministro Delfim Neto liberou os juros para contar a demanda, ela já estava desaquecendo-se ou desaquecida – ao nível do consumidor.
Como primeira conclusão a tirar dessa experiência, figura inevitavelmente a constatação de que o presidente do Banco Central está certo: assim como os freios foram aplicados em hora inoportuna, ou melhor, em dose inoportuna (pois a economia não podia deixar de ser "reciclada"), há o risco, neste momento, de pisar no acelerador exatamente quando ela já está ganhando velocidade – mesmo que sob formas novas, isto é, com avanço para setores que não foram, ao longo dos anos, os "carros chefes" da economia. Para quem ainda duvida dessa recuperação, deve-se chamar a atenção para outra conclusão deixada pelo exemplo dos eletrodomésticos (mas que se repetiu, em menor ou maior escala, em toda a economia): a indústria do setor nunca divulgou números exatos sobre os estoques que formou durante 1980. No entanto, se as encomendas do comércio caíram desde maio, e a produção não acompanhou a tendência, é lógico que eles foram ultravolumosos. Que Importância tem isso? Enorme: fica evidente que a grande queda na produção industrial, no primeiro trimestre deste ano, se deveu à desova de estoques gigantescos. Em outras palavras, a economia somente poderia entrar em recuperação após o seu esgotamento, e isso demandaria meses, uma hipótese confirmada pelo fato de que, já a partir de agosto/setembro, alguns setores começaram a ampliar a produção — e a contratar mais trabalhadores. Agora, não é a hora para "reativar". A posição de Langoni é correta.
Adendo: por que as análises prevendo que o consumidor iria "correr às compras" falharam? Como ocorre com freqüência no Brasil, elas foram unilaterais e "automaticistas", isto é, na base do "isto provoca aquilo", sem levar em conta outros fatores. No começo do ano, com dinheiro na mão, o brasileiro "poderia" antecipar compras para defender-se da inflação.
Como a Inflação disparou, no entanto, o comportamento do consumidor modificou-se, a partir de dois fatores principais: primeiro, porque a alta de preços de itens essenciais (alimentos, transportes) devorou seu orçamento, "roubando" as sobras que seriam destinadas às compras antecipadas; segundo, porque a Inflação galopante originou incertezas quanto ao futuro, levando o consumidor a conter os gastos. Essa realidade escapou às análises "automaticistas", apesar de a experiência de outros países permitir que ela fosse prevista. Em 1973/1974, o consumidor norte-americano, ante a inflação e o choque do petróleo, primeiro antecipou compras. Depois, retraiu-se, contribuindo para a recessão de 74.
Adendo final: manter a economia sob controle não tem nada a ver com criação de empregos. O Brasil precisa de uma política de emprego. Racional.