Jornal Folha de S.Paulo , domingo 9 de maio de 1982
"Vejo com otimismo os problemas da economia brasileira, porque a situação internacional começa a evoluir favoravelmente, com a queda dos preços do petróleo e das taxas de juros internacionais, tomando mais fácil administrar o problema da dívida externa brasileira. Sou muito mais otimista, porém, por um motivo de caráter político: o País vai ter eleições em novembro e, depois de novembro, o Brasil será um novo Brasil". Para Abraham Szajman, presidente em exercício da Federação do Comércio de São Paulo, a redemocratização "prometida pelo presidente Figueiredo estará consolidada, com um legislativo renovado, criando-se condições para que, progressivamente, a sociedade seja cada vez mais ouvida na definição de rumos para o Brasil. O Legislativo será o grande fórum dos problemas nacionais, enfraquecendo-se o poder ditatorial dos tecnocratas, que tantos males causou ao País". A crença de Szajman nesse "novo Brasil" é, às vezes, perturbada por uma preocupação: "Não sei se os tecnocratas de Brasília querem levar o País para um regime fechado de direita ou esquerda. Mas o que sei é que suas decisões na área econômica certamente não são favoráveis ao processo de abertura. Temo sinceramente que a classe média, sacrificada pela política econômica, também manifeste seu descontentamento, nas eleições de novembro, criando situações que possam colocar a redemocratizaçãoem risco". Ainda há tempo, diz ele, de rever diretrizes de política econômica que, no seu entender, já deixaram de ter sentido, e só são mantidas por inércia e insensibilidade da tecnoburocracia de Brasília.
"Otimista porque vamos ter eleição"
Folha de São Paulo — Líderes empresariais ouvidos pela "Folha" têm insistido na necessidade de o Brasil ter uma política econômica de longo prazo.
Abraham Szajman — Qualquer análise dos problemas econômicos brasileiros tem que levar em conta a elevação dos preços do petróleo, primeiro em 73 e depois em 79, e suas conseqüências para a economia internacional — e do Brasil. O governo Figueiredo, com o "choque do petróleo" de 79, foi obrigado a "ganhar tempo", diante do problema da dívida externa. Somos otimistas, há indícios de melhora na situação internacional e o governo está começando a encontrar a embocadura...
Folha — Mas o governo, mesmo depois de 1979, adotou uma política de "aquecimento" da economia, em 1980, que agravou a um ponto insustentável a situação da dívida externa brasileira...
Szajman - Foi a tecnoestrutura de Brasília. Os tecnocratas, todo-poderosos desde a ascensão da tecnoestrutura a partir de 1964. Entra governo, sai governo, e os tecnocratas, os mesmos tecnocratas, estão sempre no poder, ditando as regras...
Folha —Por que o sr. diz que o governo agora está encontrando a embocadura. Pode explicar sua afirmação?
Szajman — Para mim. se me permite a liberdade de expressão, o fato econômico mais importante é, na verdade, de caráter político. Sou otimista, acima de tudo, porque o País vai ter eleições em novembro. As eleições de novembro, além da renovação do Legislativo, significam a consolidação de processo de abertura prometida pelo presidente Figueiredo. Porque teremos, então, a "abertura econômica". O Legislativo vai ser o fórum de debates para os problemas nacionais. A sociedade será ouvida. Os tecnocratas perderão o monopólio das decisões...
Folha — O imenso descontentamento da classe média — que talvez em muitos casos nem possa ser atribuído a iniciativas de governo — não pode engrossar o chamado "voto de protesto"? Em caso positivo, quais seriam as conseqüências, no seu entender?
Szajman — Não sei se os tecnocratas querem levar o País a um regime de direita ou de esquerda. Só sei que suas decisões e sua atuação não favorecem a abertura. Não foi o descontentamento da classe média que levou Hitler ao poder ? Algumas medidas que atingiram a classe média foram tomadas de afogadilho, num momento dramático de crise, no final de 1980. Hoje, elas não se justificam, não são mais necessárias, são mantidas por insensibilidade e inércia dos tecnocratas...
"Orientação do IR já deveria ter mudado"
Folha — o sr. se refere aos aumentos no Imposto de Renda para reduzir o poder de compra da classe média como forma de desaquecer as vendas, a produção industrial e as importações, certo?
Szajman - Pricipalmente. Mas há também a majoração no INPS, a política salarial. Em relação ao Imposto de Renda, está claro que a orientação já poderia ter sido mudada: os tecnocratas decidiram há duas semanas tomar medidas (redução do IOF) para baixar as taxas de juros no crediário, para reativar a demanda, afrouxando um pouco a "política de cintos apertados". Pergunto: se já não há o desejo de conter a demanda, não seria mais correto reduzir o Imposto de Renda, para restabelecer em parte o poder aquisitivo da classe média? Devolver o dinheiro das famílias de classe média, para que elas comprem o que desejam, sem ter que recorrer ao crediário? Mas os tecnocracías decidem como querem...
Folha — O governo extinguiu os limites que existiam para a expansão do crédito das financeiras, afirmando que a competição entre elas fará as taxas de juros caírem. Há diligentes do mercado fincanceiro, no entanto, afirmando que, com necessidade de maior volume de dinheiro para financiar o consumidor, as financeiras terão que vender letras de câmbio (para captar o dinheiro) oferecendo taxas de juros mais altas, e isso poderia impedir que os juros caíssem. O sr. não acha que isso é um dos eternos "chavões" do sistema financeiro, no País, pra cobrar juros altíssimos? O senhor não acha que mesmo o limite na. expansão do crédito, apresentado durante meses como motivo para elevar os juros (porque o dinheiro estaria "racionado") era outro chavão, outra balela, aceitos pelos ministros da área econômica? Afinal, mesmo com os limites, as financeiras tomavam dinheiro emprestado (captavam) a 111% ao ano, e emprestavam e emprestam a até 300% ao ano...
Szajman — Lógico que concordo. Tudo isso é mentira, é argumento mentiroso para cobrar juros estratosféricos. Sempre disse isso. Os trabalhos da assessoria técnica da Fede-. ração mostram isso. Mentiras, mentiras...
Folha — ... que os tecnocratas aceitam...
Szajman – É...
"O Legislativo será ouvido, procurado"
Folha — Os empresários criticam distorções da economia, criticam decisões do governo, mas multas vezes essas decisões são tomadas a seu pedido, quando seu setor enfrenta problemas. O empresário nacional também não precisaria adotar uma atitude nova, conscientizando-se que os privilégios que seu setor eventualmente receba vão resolver problemas, num primeiro momento, mas depois agravarão os problemas da economia e, com toda a economia indo mal, seu setor acabará sendo novamente atingido?
Szajman - A "abertura econômica" vai corrigir isso. Com ela, os empresários deverão participar da vida de suas entidades de classe, fortalecer suas entidades de classe — porque serão elas que se tornarão o canal de comunicação com o governo. Acabará a distorção, dos últimos anos, em que grandes empresários, com acesso aos tecnocratas. têm um canal de comunicação próprio com o poder. Acabarão as decisões tomadas para favorecer poucos. Acabará o poder dos tecnocratas, as distorções de suas decisões. O Legislativo, repito, será ouvido. Ele será procurado pelas entidades de classe, para exercer o direito — legítimo, dentro de um regime democrático — de pressionar em defesa de medidas que considerem corretas. Serão propostas, porém, partidas do consenso de um segmento da coletividade, obtido dentro das entidades. Não, pedidos de quem tem acesso aos tecnocratas. veja só: hoje, o comércio não tem um representante seu no Conselho Monetário Nacional. Sei que há um empresário do comércio, lá. Mas não é um representante designado pelas entidades de classe. E um empresário, convidado pelo governo, sem consulta ao setor.
"A fórmula salarial achata classe média"
Folha — O sr. propõe mudanças na política salarial, para restaurar o poder aquisitivo da classe média, eliminando-se o sistema atual, de redução dos reajustes para as faixas mais altas (só 50% do INPC acima de 15 salários mínimos, e livre negociação acima de 20 mínimos). No entanto, quando o governo adotou essa fórmula, ele estava pensando em aumentar os ganhos do trabalhador que recebe até três salários mínimos sem onerar as empresas, isto é, elas passaram a pagar mais às faixas mais baixas e poderiam pagar menos às faixas mais altas. Para restaurar o poder aquisitivo da classe média. Os sr. propõe a extinção do aumento de 10% do INPC para quem ganha até três salários mínimos?
Szajman - Quero lembrar, antes de mais nada, que defendo, e a Federação do Comércio defende, reajustes trimestrais para todos os trabalhadores. Nossa posição, portanto, não é contra a melhoria do padrão de vida do povo brastlalro. Mas a fórmula atual está achatando o poder de compra da classe média. Achamos que não tem sentido dar 10% do INPC para aumentar a participação do assalariado no Produto Nacional. Esse aumento já está sendo buscado, através do índice de produtividade. Minha proposta é simples: reajustes com base no INPC para todas as faixas, isto é, sem o achatamento atual. Em compensação, haveria a concessão do índice de produtividade somente às faixas de ganhos mais baixos, e não aos salários mais altos. As empresas não seriam oneradas e haveria redistribuição da renda, da mesma forma — sem achatar o poder de compra da classe média.