[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  Entre o crediário e a CPI do dólar

Jornal Diário da Manhã , domingo 23 de outubro de 1994


Pra começar, vale a pena transcrever uma notícia pequenininha, pequenininha, que saiu escondidinha, escondidinha, na penúltima sexta-feira, dia 14 de outubro, no jornal O Estado de S.Paulo. Título: “Comércio vendeu menos que o esperado”. Texto: “O Dia da Criança não teve o impacto de vendas esperado pelo comércio. De acordo com dados do Serviço de Proteção ao Crédito (de São Paulo), que mede o movimento de vendas a prazo, houve crescimento de apenas 4,7% no número de consultas, em relação à média de setembro diária. No Telecheque, a alta foi de 2,7%, na comparação com o mesmo período de setembro. No acumulado do mês, houve aumento de 21% no SPC e queda de 21% no Telecheque (que mede as vendas à vista), em relação a igual período de 1993”.

O leitor deve até esfregar os olhos, perplexo, diante desses dados. Vai pensar que está louco. Não está não. O que está acontecendo é que a sociedade brasileira está sendo vítima de um festival de falso otimismo em torno do falso Paraíso do Plano Real. Você liga a TV, e pronto: cenas e mais cenas de pretensas “corridas às compras”. Entrevistas entusiasmadas de líderes empresariais falando de vendas fantásticas. Depoimentos de fabricantes que falam de encomendas, feitas pelo comércio, em explosão de 20%, 40%, 100%.

É isso aí. Desde o lançamento do real, TV e jornais inverteram completamente seu comportamento. Tudo está lindo, maravilhoso, róseo no Brasil. Nunca faltam – o leitor pode observar isso, facilmente, na TV – matérias e comentários dizendo que o povão, o pobre, agora está comprando toneladas de iogurtes, salsichas e, quem sabe, champignon? Um jornal de São Paulo, em puro deboche, chegou a publicar manchetes falando de “exércitos de consumidores de baixa renda” (pobres) que invadiram as lojas e os supermercados desde o real.

Antes da candidatura Fernando Henrique Cardoso, a imprensa brasileira era negra como a asa da graúna. As notícias positivas eram escondidas. As notícias negativas iam para a primeira página, ou a manchete. A falta de critério (ou a insistência no critério terrorista) era tamanha, que se a inflação de uma semana perdesse força, a notícia era escondida nas páginas de Economia. Se o preço de um único produto, como o coitado jiló por exemplo, subisse 500% virava manchete – embora o preço do jiló não tenha nenhuma influência na taxa de inflação. Agora, é o contrário. No Paraíso do Real, a mistificação é total. Informação positiva, mancheteia-se. Informação negativa, esconde-se. É como se a imprensa tivesse incorporado o espírito de ex-ministro Ricupero (e vai ver que incorporou mesmo, há muitos e muitos meses).

Pode-se entender que a criação do Paraíso do Real servia muito bem à candidatura Fernando Henrique Cardoso. Agora, porém, a manipulação da informação está abrindo caminho a conseqüências dramáticas para a economia e a sociedade brasileiras. As últimas medidas adotadas pelo governo, para conter o consumo, mostram que a equipe FHC está ressuscitando as políticas de combate à inflação que não deram certo no Brasil, além de empobrecerem milhões de brasileiros – e enriquecerem os privilegiados de sempre, que ganham com as brutais taxas de juros pagas na aplicação de seu dinheiro.

É melancólico. A equipe FHC – conforme anotado nesta coluna na semana passada – parecia disposta a adotar uma nova política de combate à inflação, aproveitando uma série de fatores que mostra a possibilidade de as empresas até reduzirem seus preços. Com as novas medidas, no entanto, volta-se ao passado – e às possibilidades de fracassos. As medidas adotadas a pretexto de conter o consumo vão elevar ainda mais os juros, abrindo caminho para a alta de preços – e trazendo, como no passado, o risco de mais inflação. A propósito: a inflação em São Paulo, segundo a Fipe, subiu para 2% na segunda quadrisemana de outubro. Esse índice, na verdade, apenas reflete as altas de preços ocorridas quatro semanas antes, já por volta de 15 de setembro, antes das eleições portanto – e quando estava no auge a criação de um clima de euforia, na TV e jornais, em torno do Paraíso do Real. Ponto.

A equipe FHC diz que o consumo estava explodindo, e que as pessoas estavam sacando dinheiro, da poupança e outras aplicações financeiras, para comprar mercadorias. É aí que a porca torce o rabo. A notícia pequenininha, publicada escondidinha, escondidinha, mostra que isso é conversa fiada dos construtores do Paraíso do Real. É só reler a noticinha. Ela diz que, às vésperas do tão badalado Dia da Criança, as consultas cresceram apenas 4,7% na comparação com setembro. E mais: na comparação com 1993, isto é, com o ano passado, houve queda de 21% nas consultas para vendas à vista, e alta de 21% nas consultas do crediário. Um avanço e um recuo. Nada de explosão de consumo.

Outros dados utilizados pela equipe FHC, e alardeados pela banda dos jornalistas-anjos do Paraíso do Real são igualmente enganosos: Fuga da poupança – nos dez primeiros dias de outubro, os saques na poupança e fundos teriam crescido e chegado a 700 milhões de reais. Assustador, diz a equipe FHC. Mas as mesmas notícias, nos jornais, que falam em “fuga para o consumo”, trazem outros dados que revelam o escarcéu mentiroso. Em agosto, essas aplicações tinham acusado um saldo positivo de 620 milhões de reais. Em setembro, elas dispararam para quatro vezes mais: 2,6 bilhões de reais. Não seria normal que, em outubro, o excesso de dinheiro aplicado começasse a ser sacado? Por que o terremoto?

Encomendas à indústria – fala-se em aumento de até 40% nas compras do comércio, na comparação com 1993. Ora, todos os anos, o comércio se prepara para o Natal a partir de julho/agosto – tanto que a indústria atinge seu pico de produção e de nível de emprego em outubro. Neste ano, houve a “paradeira” na economia pós-Real, em julho e agosto. As grandes encomendas de agora decorrem de um atraso nos pedidos do comércio – e, claro, do enganoso clima de euforia sobre o Paraíso do Real, que leva o comerciante a estocar. Prova disso: a indústria de confecções acusou 30% de aumento nas encomendas, em setembro/outubro. Mesmo assim, porém, prevê vender 3,1 bilhões de peças este ano. Ou apenas 2,5% a mais do que no ano passado.

Salários – o ministro Ciro Gomes, em nome da equipe FHC, disse que também a massa de salários está crescendo, e isso significa mais dinheiro para gastar. Ora, ela cresceu realmente em setembro na indústria paulista. Mas o ministro se esqueceu de dizer que, mesmo com o Plano Real, o total de salários pagos pelas indústrias de todo o País, em agosto, havia caído 2,4%. E mais: junho e julho também haviam acusado recuo para os salários, tudo somando 4,3% de queda para a massa salarial no Brasil em três meses. Se a equipe FHC acha que está sobrando dinheiro nas mãos do trabalhador, é sinal de que está vendo demais a TV Globo. Um perigo.

As mudanças no crediário vão cortar o consumo do pobre. A elevação das taxas de juros vai punir milhões de empresas que dependem do crédito. E beneficiar grupos privilegiados que especulam no mercado financeiro. Nada de novo. Como também não é nova a pressão que os juros altos vão provocar sobre os preços e a inflação.

O grotesco dessas decisões é que os bancos estavam forçando empréstimos ao consumidor porque estavam com excesso de dinheiro em caixa. E estavam com excesso de dinheiro em caixa porque o governo vinha emitindo loucamente para comprar dólares especulativos que vêm entrando no País – para serem aplicados no mercado financeiro, atraídos pelos juros escandalosos. (Uma farra de bilhões e bilhões de dólares, apontada há meses nesta coluna sobre esse escândalo, leia artigo do ex-ministro Delfim Netto na página 2 desta edição do Diário da Manhã).

O “pacote” desta semana adota medidas para reduzir a entrada de dólares. Perguntinha ingênua: por que elas não foram tomadas antes das eleições? Será que não vale uma CPI para descobrir por que a equipe FHC demorou tanto a preocupar-se com a invasão de dólares que tem trazido prejuízos ao próprio combate à inflação?



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil