Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 13 de junho de 1996
A política de "privatização" imposta pelo governo FHC aos governadores estaduais continua a mostrar estranhas contradições e gerar estranhos negócios.
Nem São Paulo, com seu austero governador Mário Covas, conseguem fugir às aberrações, pagas pelos contribuintes (nós):
Metrô - em viagem à Inglaterra, missão do governo covista tentou atrair sócios para dividir gastos com a construção de nova linha do metrô.
Ninguém se opõe à modernização do serviço de transportes em São Paulo. Por isso mesmo, a prioridade dada a essa obra é absolutamente incompreensível, para dizer o mínimo.
Trata-se de um trecho ridículo, de apenas quatro quilômetros, isto é, que em nada resolverá os problemas de congestionamentos (de até 204 km de extensão) na cidade, porque ligará "nada" a "coisa nenhuma".
Sua inutilidade é proporcional a seu custo: de fantásticos US$ 800 milhões a US$ 1 bilhão, ou US$ 250 milhões por km.
Seria interessante que o governo paulista apresentasse, à sociedade (contribuintes) as razões técnicas para dar prioridade a essa obra, que talvez só as empreiteiras conheçam.
Estudos técnicos mostram que, com US$ 250 milhões de dólares, custo de um quilômetro do malfadado trecho, seria possível integrar e modernizar todo o sistema de transportes coletivos na região metropolitana, incluindo-se aí metrô, trens de subúrbios, corredores de ônibus etc.
Outra prioridade: o anel viário, que evitaria que dezenas de milhares de veículos vindos do interior entrassem na capital.
Apoio - estranhamente, a equipe FHC/BNDES ofereceu (ou impôs?) empréstimos para tocar o trecho de US$ 1 bilhão. Justamente ela, que vem obrigando governadores _inclusive de São Paulo_ a demitirem pessoal e venderem estatais, em nome da "falta de dinheiro" e "austeridade"?
Contradição - a missão paulista à Inglaterra procurou sócios também para a construção de um faraônico "centro internacional" de convenções, congressos e hotelaria, ao custo de US$ 200 milhões, nas imediações do aeroporto internacional da capital paulista.
Privatização? Não. Contradição total.
A construção do centro foi pedida pela federação das indústrias e outras entidades empresariais de São Paulo.
O terreno vai ser comprado e doado pelo governo paulista, que ainda coordenará o empreendimento. Afinal, os empresários defendem menos intervenção estatal, e empurram esse tipo de negócio para o governo? Tudo como sempre.
Ironicamente, São Paulo já tem um "centro empresarial" (Anhembi) com uma história exemplar: foi lançado com a ajuda do governo, seus construtores "quebraram" em meio à obra, o conjunto semi-acabado foi "encampado" pelo governo municipal e agora, após anos, acaba de ser... "reprivatizado".
Em cada vaivém, pagam os contribuintes (nós).
O governo paulista quer vender a Ceagesp, empresa responsável por vasta rede de armazéns e silos (atenção, jornalistas brasilienses) em todo o Estado.
Dentro dela, o maior interesse dos compradores é pelo célebre Ceasa, da capital paulista, que pretendem demolir, para utilizar os terrenos, situados em área nobre, na construção de imóveis de luxo.
Como a Ceagesp deve R$ 180 milhões ao Banespa, os compradores deveriam quitar a dívida. Prazo: três anos. Mesmo assim, houve pressão contra a exigência. O governo paulista cedeu: os compradores poderão negociar "depois" com o Banespa. Que fica com o rombo.
Quando empresas e empresários vendem terrenos para a construção de imóveis de luxo, os compradores, empresas e empresários, "pagam quando quiserem"?
A Celese, estatal catarinense de energia elétrica, lucrou R$ 30 milhões no primeiro trimestre do ano. O melhor resultado de sua história. Motivos: tarifas menos achatadas, e reorganização.
A Cemig, estatal mineira de energia elétrica, lucrou R$ 73 milhões no primeiro trimestre. Motivo: tarifas menos achatadas.
A Eletropaulo, estatal paulista de energia elétrica, apresentou lucro pela primeira vez desde 1990, no primeiro trimestre deste ano. Motivos: os mesmos.