Revista Isto É , quarta-feira 28 de junho de 1978
Há exatamente um ano, afirmava-se aqui, nesta coluna, que as análises econômicas e políticas feitas no país deveriam levar em conta um dado novo: o fim da ameaça que a dívida externa representara até então para o Brasil, a curto e médio prazos. Razão da afirmação: sobravam dólares no mercado financeiro internacional, e as autoridades monetárias procuravam tirar partido dessa situação. Em junho de 1977, na verdade, o Banco Central impunha novas exigências para contratação de empréstimos no exterior. A primeira prestação somente poderia vencer dentro de 30 meses. E a dívida toda teria que ter, no mínimo, mais dois anos e meio para ser paga, isto é, o prazo mínimo para vencimento era de cinco anos. O governo brasileiro não estava blefando: ele sabia que os banqueiros internacionais estavam com os cofres cada vez mais cheios, e tinha chegado a hora de os clientes imporem condições.
O silêncio. Qual o significado dessa situação nova? Que o Brasil poderia "reescalonar" silenciosamente sua dívida, isto é, tomar empréstimos de prazo mais longo para saldar aqueles de curto prazo, sendo preciso lembrar que, até então, a maioria desses empréstimos começava a vencer em seis meses, isto é, a primeira prestação tinha que ser paga nesse prazo. Por que a mudança? Uma das principais razões era — e é — o gigantesco déficit que começou a ocorrer na balança comercial dos EUA, de quase 30 bilhões de dólares, em 1977. Quem lê jornais e revistas no Brasil é testemunha de que todas essas reviravoltas jamais foram levadas em conta nas análises sobre a situação econômica brasileira. Ao contrário: a "ameaça da dívida externa" continuou a ser um dos chavões prediletos da imprensa e dos seminários, simpósios, congressos intelectuais. Mostrar o quadro novo — como se fez nesta coluna — significava receber uma chuva de pedras, palavrões e insultos. Agora, o Conselho Monetário Nacional congela os empréstimos externo no país, tal a enxurrada de dólares que está surgindo, com as reservas cambiais já passando dos 8,5 bilhões de dólares.
A falência. Também há um ano atrás mostrava-se aqui que todos os pilares do "modelo exportador" estavam ruindo. Os projetos megalómanos de exportar papel e celulose iam por água abaixo, devido à superprodução e superinvestimentos em todo o mundo: e, no começo deste ano, das oito ou nove gigantescas fábricas previstas para o Brasil, cinco ou seis eram canceladas. A Europa se via a braços com um excedente de 400 mil toneladas de carne, precisando, mesmo, adotar um plano oficial de redução dos rebanhos em todos os países-membros do Mercado Comum. Na área de mineração, o fenômeno era o mesmo, com superinvestimento e superoferta, afundando os gigantescos projetos brasileiros na área de minério de ferro e alumínio. Na própria área agrícola, safras mundiais sem precedentes resultavam em estoques de grãos também recordes, congelando os sonhos de transformar o país no "celeiro do mundo". Tudo isso foi mostrado alguma vez, de forma global, à opinião pública brasileira? Houve uma profusão de análises mostrando que o "modelo exportador" estava condenado — atenção —pela própria realidade econômica? Houve uma exceção, na imprensa diária, com manchetes e manchetes sobre o impasse, o que não cabe citar aqui. No mais, silêncio total ou, pior ainda, tolas reportagens e entrevistas "mostrando" que dentro de três meses, este ou aquele projeto megalômano seria reativado.
A omissão. Não se alegue que "a censura" não permitia essas análises. É mentira. Tanto é mentira, que dia sim e outro também surgiam críticas à dívida externa, apesar de essas críticas já estarem, a essa altura, totalmente desvinculadas da realidade. E nem aí a "censura" tentou impedi-las. Afirma-se ser injusto cobrar da intelectualidade brasileira (englobando-se nela a imprensa) erros e omissões, porque ela não disporia de espaço em jornais e revistas para expor seu ponto de vista. A afirmação é surpreendente: as páginas da imprensa brasileira (são feitas e) estão abertas exatamente para a intelectualidade brasileira, o que é plenamente compreensível, dentro da situação que o país vive. Ao que se saiba, os articulistas e colunistas convidados não são, nunca, pertencentes às hostes do líder José Bonifácio. A cobertura é ampla, igualmente, para simpósios, congressos, debates promovidos por conhecidas entidades intelectuais, reservando-se, em contrapartida, 30, 40 ou 50 linhas para pronunciamentos das áreas oficiais e afins. É compreensível que seja assim. Mas o fato é que é assim. Por isso mesmo, porque a intelectualidade brasileira tem tido a caixa de ressonância de que precisava, é que se deve cobrá-la. Se ela pretende ser vanguarda, se ela pretende influir no processo político, não tem o direito de ser preguiçosamente desinformada. Como explicar que economistas, professores universitários de renome escrevam — até hoje — que o Brasil está correndo atrás de banqueiros internacionais? (E esse é apenas um exemplo: há dezenas de outras análises-chavões equivocadas, como a "crise" na construção civil, a "falência" do Plano Habitacional, o "surto de desemprego", a "ameaça de recessão" etc.)
Elementar. Perceba-se bem: a crítica que se faz aqui a essas análises equivocadas tem um objetivo amplo. Cobra-se da intelectualidade brasileira um conhecimento da realidade, porque só assim poderá ajudar a transformá-la. E é doloroso ver quantas mudanças poderiam ter sido colocadas em marcha nos últimos anos, se o grau de desinformação da intelectualidade não fosse tão grande. Na já citada "falência do modelo exportador" está o exemplo maior dessa verdade: se a sociedade brasileira tivesse tido conhecimento amplo da situação dos projetos megalômanos, o debate teria seguido outros rumos. Por oposição, estaria comprovada a necessidade de repensar o modelo, de ampliar o mercado interno, de redistribuir a renda, de desconcentrar. E à desconcentração, à "abertura" no terreno da economia, corresponderiam — é tácito — a desconcentração, a abertura no campo político. A sociedade brasileira mal sabe da necessidade de mudanças no terreno econômico (por força da própria realidade da economia), porque a intelectualidade, por desinformação, não lhe mostrou essa verdade. Marcos Sá Correia, em magistral artigo no Jornal do Brasil ("A Ditadura Acabou", 11/6/78), mostra os possíveis agentes do processo de abertura política no país. Seria uma tarefa interessante trabalhar em sentido inverso, isto é, verificar os agentes que retardaram essa abertura. Até por desinformação, imperdoável para quem se pretende de vanguarda Por isso é preciso cobrá-la. Sempre.