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  Enganados com os juros

Jornal Diário Popular , domingo 17 de janeiro de 1999


Aí, o presidente do Banco Central disse ao presidente da República: “Precisamos dar lucros ainda maiores aos nossos amigos banqueiros. O pacote está pronto. Vamos anunciá-lo...”

Presidente da República coçou o queixo, e argumentou: “Isso pode provocar revolta. Os bancos estão tendo os maiores lucros do mundo aqui em nosso país, esfolando as empresas e os consumidores... temos de achar um jeito de enganar o Congresso, o povo, os empresários...”

Raposa com diploma internacional na arte de defender os interesses dos banqueiros, o presidente do Banco Central retrucou, matreiro: “Já pensamos em tudo. Vamo dizer que as medidas têm o objetivo de beneficiar o consumidor e as empresas, vão reduzir os juros. O contrário da verdade. Mas, com a ajuda da grande imprensa, vai ser fácil enganá-los...”

Ninguém pode garantir que um diálogo como esse tenha acontecido no Brasil. Mas ele se aplica perfeitamente ao tal “pacote” anunciado pelo governo. Todas as medidas anunciadas garantem lucros maiores para o bancos – à custa, inclusive, do Tesouro (atenção, Congresso Nacional). A única decisão capaz de “beneficiar” o consumidor é a redução na cobrança do IOF, que o cliente paga nas operações de crédito. Quem está oferecendo a “vantagem”? Os bancos? Não, o Tesouro. Mas essa vantagem é tão ridícula que mostra bem o tamanho do cinismo do governo: o IOF era se 6% ao ano (detalhe que foi cuidadosamente escondido nos dias anteriores ao “pacote”), isto é, 0,5% ao mês, uma parcela infinitamente ridícula dos juros de 11% ao mês que é cobra no cheque especial.

O que os bancos ganham com o pacote? Há coisas incríveis, ou indecentes, mesmo: no caso de falências, por exemplo, a lei prevê até hoje que o dinheiro arrecadado na liquidação e leilões de bens das empresas “quebradas” será destinada primeiro ao pagamento de salários atrasados, isto é, dos direitos dos trabalhadores, depois ao pagamento de dívidas para com os governos (impostos, INSS, etc). O “pacote” de FHC/Fraga quer mudar nisso: se a empresa quedraba tiver dívida com os bancos, os bens que foram dados como garantia desses empréstimos serão automaticamente entregues aos bancos. Isto é, os trabalhistas, o governo, os demais credores ficarão apenas com o que “sobrar” depois que os bancos receberem o dinheiro emprestado... O “pacote” privilegia os bancos, às custas até do Tesouro e da Previdência... Outra decisão que aumenta os lucros dos bancos: a autorização para eles usarem uma parte do dinheiro que eram obrigados a entregar (depósito compulsório) no Banco Central, e que poderá ser emprestado a juros altos. Ah, sim, e por falar em juros altos, o que os bancos vão fazer para reduzi-los? Nada. O governo FHC/Fraga usa argumentos falsos, no “pacote”, para ajudá-los a manter os juros nas nuvens – o que desmascara os verdadeiros objetivos das medidas. Esses argumentos falsos serão vistos amanhã nesta coluna.



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