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  A inflação pode voltar?

Jornal Diário Popular , quinta-feira 30 de setembro de 1999


Os preços do feijão disparam, o boi no pasto está muito mais caro, as cotações do milho também sobem, ameaçando puxar o custo do frango, do porco e seus derivados. Motivo: a falta de chuvas ao longo de semanas e semanas, no interior de São Paulo e Estados do Sul, que reduziu as chamadas colheitas de inverno, ou "safrinhas" e destruiu pastos. Sem falar, é óbvio, na seca total em alguns Estados do Nordeste, com perda de lavouras. A carestia volta a rondar a mesa do brasileiro.

E, para piorar as coisas, os problemas da agricultura não são passageiros. Os institutos especializados já avisam que, neste verão, haverá forte estiagem no Sul e Centro Oeste do País, e a seca continuará em regiões nordestinas. Em 1997, os mesmos institutos haviam feito previsões igualmente pessimistas, procurando alertar o governo FHC para os prejuízos causados pelo El Niño, o fenômeno climático mais que famoso. O governo FHC não se mexeu. O que poderia ter feito? Lançado um programa de emergência para a agricultura, envolvendo também os governadores de Estado. Isto é, haveria forte mobilização para incentivar os agricultores a aumentarem a sua área de plantio, para compensar a parcela da produção que viesse a ser perdida com a seca.

Nada complicado, ou misterioso: bastaria simplesmente fornecer mais empréstimos para o plantio. Além disso, o governo ofereceria um seguro para indenizar produtores que perdessem suas colheitas por causa do clima.

O governo FHC não se mexeu (nem mesmo para socorrer a população do Nordeste, onde as frentes de trabalho somente foram criadas quando os saques começaram a pipocar, já em 1998). Resultado: a produção de feijão caiu de 2,8 milhões para 2 milhões de toneladas; a colheita de arroz despencou de 13 para 8,5 milhões de toneladas, os preços dispararam e o País foi forçado a importar alimentos, gastando dólares preciosos.

Sem colheitas, milhares de famílias de produtores ficaram na miséria, venderam suas terrinhas, viraram sem-terras, ou sem-tetos nas periferias das cidades. Em 1997, a alta dos preços dos alimentos não provocou aumento nas taxas de inflação, porque os preços nos demais setores da economia estavam estáveis, graças ao dólar "congelado" e até mesmo graças à recessão, à retração do consumidor.

Neste ano, porém, há uma inflação "escondida debaixo do tapete". A desvalorização do real, os aumentos de tarifas, a duplicação dos preços do petróleo, tudo somado representa um aumento violento, calculado em até 40% para alguns setores, nos custos que as empresas enfrentam para produzir — e têm sido obrigadas a engolir, por causa da queda no consumo.

A esta altura, uma disparada nos preços agrícolas poderia funcionar como o estopim que está faltando para as empresas reajustarem seus preços, e a inflação escondida aparecer nas taxas. O otimismo delirante do governo FHC continua a arrasar o País.



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