[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  Racionamento vs. recessão

Jornal Diário da Manhã ,


Em 1974 e 1979, após os dois “choques do petróleo” provocados pelo aumento de preços adotado pela Opep, surgiram estudos para implantar o racionamento de derivados de petróleo, para o Brasil economizar dólares. Naquelas ocasiões, a dívida externa ainda não fugira completamente ao controle e, se a medida tivesse sido adotada, a crise econômica que o País enfrenta nos dias de hoje seria certamente menos dramática ainda que o petróleo não seja o único vilão da história, já que o endividamento brasileiro resultou de todo um modelo econômico equivocado.

“Racionamento de petróleo”, no entanto, sempre foi uma expressão maldita, com sua simples menção provocando reações violentas – de boa fé ou não. As propostas para adotá-lo foram, assim, arquivadas em 1974 e 1979.

Agora elas voltam à cena, provocando lutas dentro do próprio governo. A Secretaria de Planejamento, do ministro Delfim Netto, afirma publicamente que é contra a medida, secundada por outros porta-vozes oficiais, para os quais ela traria um “desgaste insuportável” para a imagem do governo. Mesmo que, sem nenhuma ironia, se considere que já não há mais nada a desgastar, a gravidade do momento atual não permite que os rumos da economia sejam definidos com base apenas nos pontos de vista de determinados Ministérios, eventualmente com maior poder de influenciar em dado momento.

Mais precisamente, caberia ao governo apresentar o problema à própria opinião pública, para uma decisão final com base em suas reações. Pura e secamente, o Brasil tem diante de si duas possibilidades: não racionar o petróleo, e continuar “encalacrado”, sem dólares, nas mãos dos credores internacionais por mais dois, três ou quatro anos, com tudo que isso significa: subordinação a uma política recessiva, desemprego, pressões para o avanço da desnacionalização. Na outra hipótese, o Brasil aceita o racioamento, para reduzir a dependência mais rapidamente – e, junto dela, a recessão, o desemprego e as pressões.

Não há tempo a perder, para uma tomada de posição. Aparentemente, a opinião pública ainda não se deu conta de que a recessão que está sendo implantada no País começou. Para 1984, o FMI está exigindo que a inflação caia para a faixa de apenas 50 a 60% – o que só será possível com violentíssima recessão. E, segundo a Seplan confessou esta semana, o FMI está exigindo também que o déficit público, o rombo nas finanças do governo, seja reduzido a zero, totalmente eliminado, em 1984 – o que significaria violenta contenção nos gastos oficiais e na concessão de crédito, reforçando também a recessão.

O dilema está colocado: racionar para apressar o fim da dependência em relação aos credores? Ou não racionar e continuar por muito tempo em suas mãos? E a alternativa da “moratória”? Ela continua a ser um “salto no escuro”. Ninguém sabe suas conseqüências. Lá fora. E aqui dentro.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil