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  A classe média, alvo do arbítrio

Revista Visão , quarta-feira 5 de junho de 1991


Todo mundo sabe que as distorções salariais no Brasil são imensas: a diferença entre os menores e os maiores salários ganhos no país chegam a cem vezes, enquanto nos países capitalistas ricos essa diferença mal chega a dez vezes. Todo mundo que já viajou ao Exterior, ou conversou com alguém que o tenha feito, sabe também que o padrão de vida da classe média brasileira é muitas vezes mais “folgado” do que nos países ricos. Ninguém desconhece, ainda, que a política de cobrança de impostos no Brasil é tremendamente injusta, taxando igualmente produtos de consumo popular e produtos de luxo – o que significa que, no fundo, o povão que ganha tostões tem proporcionalmente uma parcela muito maior de sua renda (?) confiscada para os cofres do governo. Todo mundo sabe de tudo isso – mas, em teste. Porque, na prática, há anos cultiva-se o mito de que a classe média brasileira vem sendo massacrada, esmagada, “está desaparecendo”.

Há um verdadeiro “marketing” dos meios de comunicação em cima das chamadas “dores da classe média” e que certamente tem contribuído para impedir que a sociedade e a própria classe média desenvolvam uma visão uma visão correta da extensão dos problemas da concentração da renda no Brasil. Agora, porém, ameaça surgir um motivo real para que a clsse média se indigne – e recorra à Justiça em defesa dos seus direitos. A questão é muito simples e tem a ver com duas decisões do governo: a abertura das bolsas de valores ao capital estrangeiro e a manutenção do bloqueio dos cruzados confiscados no primeiro choque do governo Collor. A primeira dessas decisões atende, é inegável, a outra exigência do FMI, governos ricos (EUA à frente) e credores internacionais. Ela vai permitir que bancos, empresas, investidores estrangeiros comprem ações de empresas brasileiras, inclusive estatais, nas bolsas brasileiras.

Essa abertura, por si só, já significaria uma tendência de alta acentuada para o preço das ações, porque haverá um volume muito maior de dinheiro (dólares) aplicado no mercado, provocando uma espécie de leilão dos papéis. Há mais, porém: vai-se estimular também a venda de ações de empresas brasileiras em bolsas do Exterior – o que ampliará as possibilidades de valorização dos papéis. Em resumo: não há a menor dúvida de que o mercado de ações vai entrar em ritmo firme de alta, como ocorreu no começo da década de 70 (quando os aplicadores e especuladores internacionais passaram a aplicar milhões e milhões de dólares nas bolsas de países em desenvolvimento, como o Brasil, provocando uma fase de boom, de euforia, de alta desenfreada – seguida de violenta queda, por motivos que não cabe analisar, por enquanto). Um thriller do que está para acontecer já foi visto neste mês de maio, em que as bolsas do Rio e de São Paulo acusaram altas superiores a 50% em trinta dias. Atenção a um parêntese: quem comprou no começo do mês e lucrou 40%, 50% pode até vender as ações nestes próximos dias, provocando um recuo nos índices das bolsas.

Essa retração a curto prazo, no entanto, não deve esconder a realidade: com a política de abertura do mercado de ações ao investidor estrangeiro, haverá forçosamente um boom nas bolsas brasileiras, nos próximos meses. Surgirá certamente quem diga – geralmente, porta-vozes do mercado – que é arriscado fazer essa previsão. Não se deve leva-los a sério: essa é sempre a tática a tática dos grandes aplicadores e dos “donos” do mercado financeiro. Eles aconselham “cautela ao investidor comum, aos milhões de brasileiros, no momento em que os preços ainda estão proporcionalmente baixos, porque eles e seus “amigos” estão aproveitando para comprar as ações enquanto elas estão baratas. Com isso, milhões de brasileiros somente despertam para a compra de ações quando as cotações já subiram 100%, 200%, 500%, 1.000%, e as chances de lucros são muito menores nesse momento; os “conselheiros” ,já beneficiados por lucros fantásticos, começam a vender as ações aos investidores que despertam tarde para a “corrida” das bolsas. Atrasada. Retomando-se o raciocínio, é matemático que as bolsas vão entrar em alta, em conseqüência das decisões do governo.

Este mesmo governo não pode, por isso mesmo, manter pura e simplesmente o bloqueio dos cruzados – pertencentes, de forma maciça, a famílias de classe média. O pecúlio, o patrimônio de centenas de milhares de famílias, foi “congelado” em nome do combate à inflação, o que por si só já foi altamente arbitrário (embora, do ponto de vista de política econômica, possa até ter sido explicável). No momento em que surge a possibilidade de esse patrimônio vir a ser ampliado com a rentabilidade que o mercado de ações vai oferecer, o governo não pode limitar-se a nega a liberação dos cruzados – pois isso equivalerá a “proibir” que os donos dos cruzados tenham um ganho certo com um pecúlio que lhes pertence. E, em contrapartida, isso significará deixar o caminho absolutamente livre para os “donos do mercado” realizarem lucros fantásticos, trilionários. Um negócio da China.

O ministro da Economia tem o dever moral de permitir a aplicação dos cruzados na compra de ações. Ou o país terá assistido a uma repetição de distorções que beneficiaram os “sócios do milagre”. Desta vez, a classe média certamente não ficará silenciosa. Porque seus direitos mais óbvios, dentro de uma economia de mercado, estarão sendo atingidos.



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