[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto Eta cabe&ccedl;as velhas, reacionárias, destas chamadas elites e formadores de opinião do Brasil
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  A opção parcial

Jornal Opinião , segunda-feira 27 de maio de 1974


Em apenas quatro meses, uma inflação de 16,1%, dos quais 5,1% em abril. No mesmo período, uma alta de custo de vida na casa dos 15%, com avanço de 25% no custo da alimentação. Ante esses dados, torna-se impossível acreditar na viabilidade das previsões, feitas pela Secretaria do Planejamento, de uma taxa inflacionária entre 18% e 20% para 1974. Mas não há lugar, tampouco, para uma atitude cética quanto à possibilidade do país conseguir reduzir substancialmente o ritmo da inflação, alcançando uma taxa inflacionária de 15% ao ano, no período de 12 meses iniciando agora em maio, com a média mensal, portanto, de 1,2% ao mês (entenda-se que, para atingir essa média, seria tolerável uma inflação de 3% em maio com taxas progressivamente declinantes nos 11 meses seguintes do período anual considerado, a encerrar-se, portanto, em maio de 1975). O resultado, evidentemente, dependerá do rigor que o governo adotar na utilização de controles sobre duas áreas: preços e crédito. Dentro da visão oficial, dificilmente os salários receberiam um tratamento diferente — ao menos no momento.

Os maus resultados dos quatro primeiros meses do ano podem ser parcialmente explicados pelo reconhecimento oficial de preços que já vinham sendo cobrados desde 1973. E não superada a "inflação reprimida", a alta de preços ocorreria, doravante, a níveis mais toleráveis? Não necessariamente: os altos preços realmente cobrados do consumidor eram apenas um fenômeno que os índices não queriam reconhecer (e a carne é o melhor exemplo: o preço oficial era de Cr$ 6,60, quando, na prática, o produto estava sendo vendido acima de Cr$ 12,00). Mas a alta, já agora reconhecida, tenderia a crescer, se não fossem combatidas suas duas causas básicas. A primeira corresponde ao excesso de dinheiro dentro da economia (expansão excessiva dos meios de pagamento em 1973) e utilizado para a estocagem e a especulação. A segunda, quase de caráter psicológico, é o "clima inflacionário" ou a "expectativa inflacionária", no linguajar dos técnicos, que leva as empresas a sucessivos aumentos de preços, na base do "tudo está subindo". A ofensiva governamental nessas duas áreas pode trazer um menor ritmo inflacionário nos próximos meses.

Em princípios de abril, um consumidor que entrasse em um supermercado do Rio pela manhã, presenciaria um espetáculo assustador. Grupos de rapazinhos, empregados dos supermercados, trabalhavam, febrilmente, numa operação "em escala" e nos moldes de uma "linha de produção", característica das grandes empresas. Um grupo ia à frente, arrancando as etiquetas de preços de todas as mercadorias expostas nas prateleiras e balcões; outro grupo, alguns metros atrás, portando maquininhas de etiquetagem, colocava novos preços em todas as mercadorias. Esse clima inflacionário, em que há remarcação de estoques até de mercadorias de prateleiras, somente pode ser rompido com medidas drásticas — ou de efeitos psicológicos.

Como no episódio Halles, foi inesperada a ação do governo contra os supermercados. Em absoluto sigilo, os técnicos do Ministério da Fazenda fizeram pesquisas de preços, estudaram os balanços dos supermercados, verificaram a margem de lucros do setor, e constataram os abusos das remarcações. Chamados para um encontro, os proprietários dos supermercados foram simplesmente notificados de que deveriam obedecer a uma lista de preços máximos para 60 produtos básicos.

As reações à "intervenção branca" nos supermercados permitem avaliar as resistências que o governo vem enfrentando na tentativa de resolver problemas originários da política adotada até 1973. Na imprensa, jornais de grande circulação limitaram-se, em sua primeira página, a noticiar a medida discretissimamente, não faltando editoriais contra o "controlismo estatal". Da parte dos próprios supermercados, surgiram protestos ou ameaças: o "tabelamento" de preços poderia fazer com que as mercadorias "desaparecessem" (como aconteceu com a carne) ou mesmo com que alguns supermercados fossem à falência. No entanto, pode-se dizer que o tabelamento foi complacente para com os abusos dos últimos meses.

REAÇÃO EM CADEIA
Quando o preço de determinada matéria-prima sobe, é inútil pretender que as indústrias que a utilizam conservem seus preços inalterados: os lucros dessas empresas desapareceriam, sobrevindo o risco de falência. Esse aumento de custo, real, tem de ser aceito. Mas, em um clima inflacionário, os aumentos de preços não decorrem de aumentos de custo, e sim, tão-somente, da "expectativa altista", ou, mais claramente, entra-se no reino da especulação. Já na área industrial, o novo governo, após reajustar preços artificialmente contidos em 1973, avisara às empresas que não aceitaria novos aumentos: elas deveriam, também, "brigar" para evitar que os fornecedores de matérias-primas não aumentassem seus preços injustificadamente. Em outras palavras, o governo, para romper o clima altista, tenta levar cada empresa a fiscalizar os custos de seus fornecedores, recusando-se a aceitar reajustes especulativos.

Na verdade, uma política mais drástica poderia ter exigido que as empresas solicitassem reduções de preços a seus fornecedores. Como? É simples. Em 1973, houve louca disparada de preços de matérias-primas no mercado internacional. As empresas reajustaram os preços – para cima. Depois, sobreveio a queda das cotações. Ninguém reajustou seus preços para baixo, prosseguindo, ao contrário, no ritmo de alta.

No caso da alimentação, há exemplos claros. Os ovos custavam em torno de Cr$ 2,00 a dúzia, em começos de 1973; subiram para Cr$ 3,00 e Cr$ 3,50: durante o ano, em virtude da alta dos preços das rações para aves (por causa das exportações de farelo de soja, torta de amendoim e similares), e em função da maior procura, como alimento substitutivo, da desaparecida carne. Desde final de 1973, a dúzia do produto subiu para Cr$ 4,00, e, com a aproximação da Semana Santa, para Cr$ 5,00, onde permaneceu até a semana passada. No entanto, o abastecimento de carne ("especial") voltou à normalidade. E os preços das rações deveriam, também, recuar ante a nova safra — e ante os baixos preços que suas matérias-primas, como a soja, estão alcançando. Ao reduzir o preço da dúzia de ovos para Cr$ 3,70, o governo levará os supermercados a pagarem menos ao atacadista, que procurará pagar menos ao produtor, que tentará também obter uma redução nos preços das rações.

A LAMENTÁVEL REGRA
Mas, em matéria de redução de preços, os ovos foram uma das poucas exceções. No caso do feijão, por exemplo, foi mantido o nível de Cr$ 4,50 para o produto "de luxo". No entanto, o feijão é comprado a Cr$ 100,00 a saca do produtor, revendido no atacado a Cr$ 200,00, e vendido ao consumidor a Cr$ 270,00 (60 quilos vezes Cr$ 4,50). Entre o consumidor e o lavrador, uma faixa de intermediação que realiza lucros de 170% — dos quais 100% só ao nível do atacadista.Também os preços estabelecidos para o queijo prato — em outro exemplo — ao nível de Cr$ 16,00 e Cr$ 18,00 para as marcas Dana e Itambé, parecem ultrafavoráveis, pois, naquela semana, o mesmo produto, marca CCPL, era vendido a Cr$ 14,50 o quilo, isto é 20% a 30% mais barato, demonstrando no mínimo ganhos excessivos para os outros laticínios.

Por que a timidez da tabela oficial? Sabe-se das reações do mercado financeiro ante o episódio Halles e do descontentamento de círculos empresariais sobretudo de São Paulo em relação a novas diretrizes da política econômica. Provavelmente, com base nessa experiência, o governo preferiu não abrir novas frentes de luta: em lugar de tentar uma redução de preços, contentou-se em evitar que eles prossigam em sua escalada altista. Esvaziar a "expectativa inflacionária" foi sua opção.

A RELATIVIDADE DOS ÍNDICES
Sabe-se como é relativa a eficácia dos índices, para retratar a inflação – mas tem-se que aceitar que eles são a medida disponível, e é em torno de uma inflação de l6,2%, medida por eles, que se raciocina. Neste começo de ano, a relatividade dos índices foi um "inimigo" do governo — e poderá, a partir de maio, ser um aliado na luta para manter a taxa inflacionária em torno de 15% ao ano (maio a maio, repita-se). Como? A inflação, no país, é medida pelo índice geral de preços, calculado a partir do índice do custo de vida (peso 6), índice de preços no atacado (peso 3) e índice de preços da construção (peso 1). Dentro do custo de vida, a alimentação pesa 50%, e, dentro da alimentação, a carne pesa 13%, aproximadamente (ainda que a Fundação Getúlio Vargas tenha, em abril, realizado uma alteração na sistemática de cálculo, ela não invalida o raciocínio). Simplificadamente, pode-se dizer que em cada Cr$ 100,00 gastos por uma família, Cr$ 50,00 seriam destinados à alimentação, e, desses Cr$ 50,00 nada menos de Cr$ 13,00 seriam consumidos pela carne. Em abril, houve a liberação dos preços desse produto, com intensos reflexos sobre o índice; em maio, ao menos no Rio, nota-se uma queda nos preços da carne, como resultado da retração do consumidor e da própria situação do mercado mundial, com as importações suspensas pelo Mercado Comum Europeu. A queda, que pode prosseguir — inclusive devido ao barateamento das rações derivadas de soja utilizadas pela pecuária — vai, agora, refletir-se intensamente sobre o índice — em sentido inverso, contribuindo para "compensar" (no cálculo do índice) aumentos de outros alimentos. Igualmente, a prevista normalização do abastecimento de óleos (também com preços reajustados em abril) poderá levar a reduções de preços em seus sucedâneos (banha, toucinho), que haviam chegado às nuvens.

Pode-se assim prever que a alimentação, que pressionou o índice de custo de vida em 25% nos primeiros quatro meses, pode agora contribuir para sua contenção — se for detida a "expectativa altista".



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil