Jornal Folha de S.Paulo , sábado 2 de março de 1985
O presidente Reagan, dos EUA, anunciou ontem sua decisão de liberar totalmente as importações de automóveis do Japão, a partir deste ano. A iniciativa (não adianta torcer o nariz), sem nenhum exagero de interpretação, representa um marco na história recente da economia mundial – faltando apenas aguardar se as mudanças que ela provocará trarão mais prosperidade ou, ao contrário, violentas crises ao redor do mundo, afetando principalmente países como o Brasil. Qual a importância da decisão de Reagan?
Até hoje, os críticos de sua atuação consideravam que o governo dos EUA, ao pressionar países como o Brasil a abrirem seus mercados, reduzirem as barreiras de importação, abrirem mão de subsídios, agia de má-fé. Ou, mais claramente, acreditava-se que Reagan apenas pregava as velhas teses do “liberalismo econômico” como forma de ampliar os mercados para os produtos norte-americanos, ou mesmo para a atuação das multinacionais do seu país. Agora, as coisas mudaram de figura. Reagan não está apenas pregando, mas também aplicando, ao extremo, a cartilha liberal (não custa lembrar que, no começo dessa semana, Reagan apresentou seu projeto para a extinção gradual dos subsídios à agricultura norte-americana, apesar de enorme parcela dos produtores estarem hoje em precária situação financeira).
Reagan está demonstrando, na prática (e, repita-se, não adianta torcer o nariz, pois o fenômeno aí está, para ser analisado), que realmente acredita nas teses segundo as quais barreiras comerciais e todas as formas de intervenção do Estado apenas prejudicam a expansão econômica, a longo prazo. Somente esta crença poderia justificar a decisão de ontem, que provocará uma tempestade de críticas e protestos das indústrias e trabalhadores norte-americanos, que vêm pedindo uma política protecionista à Casa Branca, alegando que as importações vêm provocando a perda de milhões de empregos e fechamento de empresas, nos EUA. Em análise pública neste jornal por volta de novembro, sobre “As reais perspectivas da economia dos EUA”, afirmávamos então que a estratégia econômica de Reagan se dividia em duas etapas.
Na primeira, no seu primeiro mandato, Reagan supervalorizou o dólar, para baratear importações, e concedeu incentivos fiscais às empresas, ambas as decisões destinadas a facilitar a modernização da indústria norte-americana. Por quê? Porque ela estava obsoleta, com baixa produtividade, atrasada tecnologicamente, sem condições de competir com o Japão, ou mesmo a Alemanha e a França, no mercado mundial de diversos produtos.
Na segunda etapa, neste segundo mandato, com a indústria já “modernizada” ou concluindo a modernização, Reagan elevaria novamente os impostos para as empresas (o que a reforma tributária em discussão no Congresso realmente prevê) e patrocinaria a queda do dólar (tentativa em curso), para voltar a promover as exportações dos EUA. É nessa nova etapa da estratégia que se enquadra a liberação das importações de automóveis do Japão. Desde 1981, as indústrias japonesas haviam limitado suas exportações aos EUA a 1,85 milhões de veículos por ano, ou cerca de 18% do mercado norte-americano – uma limitação que nada teve de espontânea, destinando-se apenas a evitar que os EUA colocassem barreiras às suas vendas. Naquela época, Detroit enfrentava sua mais grave crise, a Chrysler ia à bancarrota com um “rombo” de US$ 3 bilhões, as fábricas japonesas, robotizadas, inundavam o mercado mundial com seus veículos.
Agora, a situação mudou, disse ontem o presidente Reagan: as fábricas norte-americanas já ganharam condições de competir com os produtos japoneses e, acrescenta-se, venderam 11,5 milhões de veículos em 1984, com 22,8% de aumento sobre 1983 – e lucros de US$ 10,5 bilhões para as três grandes: General Motors, Ford e Chrysler.
Reagan quer uma contrapartida, do Japão, para a liberação decidida ontem: que as indústrias norte-americanas dos setores de telecomunicações, eletrônica, produtos florestais e equipamentos farmacêuticos tenham acesso ao mercado do Japão, com eliminação das atuais barreiras protecionistas mantidas por Tóquio. O teor explosivo da decisão mostra, porém, que não se trata de mera “barganha”. Todo um processo de liberação do comércio foi detonado por Reagan. Para defendê-lo, o presidente dos EUA conta com um estudo da Comissão Federal de Comércio concluído na última semana (noticiado pela Folha em 23/02), que demonstra, através de cálculos exaustivos, que as restrições norte-americanas às importações de automóveis, têxteis, açúcar e aço trazem prejuízos de US$ 12,7 bilhões por ano – que poderiam ser utilizados na geração de empregos em outras áreas.