[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  Há confusão diante da recuperação econômica

Jornal Folha de S.Paulo , sábado 19 de setembro de 1981


Para analisar a situação da economia brasileira neste exato momento, sem aumentar a confusão que está tomando conta da cabeça de todos ante as informações contraditórias que surgem no dia a dia, é bom começar por um dado concreto, que não pode ser contestado. Segundo Adalberto Machado, diretor da Philco, as indústrias do setor conseguiram um aumento de 30% nas vendas de televisores a cores em agosto último, com a colocação de 97 mil unidades no mercado, contra 71 mil em julho. Um resultado, diz ele, equivalente aos melhores níveis de vendas de 1980.

Atente-se bem ao detalhe: isso ocorreu em agosto, isto é, no mês passado, quando mais “negras” eram as análises sobre a situação da produção industrial, desemprego e a tão falada “recessão”. Ora, sabendo-se que as entidades de classe do comércio e da indústria fazem pesquisas permanentes, semanais, sobre a evolução dos negócios, como explicar a contradição entre esses dados e que só agora vêm a público, e as declarações e análises pessimistas surgidas à época em que os próprios fatos (aumento nas vendas é na produção, no caso) ocorriam?

Em lugar de levantar hipóteses à guisa de resposta, vale a pena chamar a atenção para a situação incômoda em que lideranças empresariais vêm sendo publicamente colocadas, nos últimos dias, por afirmarem que a situação da economia apresentou melhoras. Tais declarações provocam descrença ou, na melhor das hipóteses, dão origem às eternas “interpretações” de cunho político, atribuindo-se a seus autores o desejo de agradar Brasília, ou, simplesmente, a tentativa de quebrar o “clima de pessimismo” que, é sabido, contagia o consumidor e pode, por isso, provocar retração ainda maior nos negócios.

CHUVA E SOL
As reações de incredulidade à fala mais “otimista” ou, na verdade, “menos pessimista” – podem ser explicadas, em grande parte, à repentina reviravolta nas análises partidas das próprias lideranças empresariais. Até quinze dias atrás, a tônica de todos os pronunciamentos era uma só: “Estamos em recessão”. Agora, quando surgem dados mostrando que já em julho as vendas do comércio da Grande São Paulo cresceram em termos reais quase 6%, ou as vendas de televisores deram um salto de 30% em agosto, fica difícil, à opinião pública, assimilar que na verdade já estava surgindo o sol, há dois meses, enquanto todo mundo dizia que continuava a chover a cântaros.

Para aumentar a desinformação, existem ainda os índices estatísticos que poucos entendem e sobre os quais muitos falam. É o caso, por exemplo, dos índices anuais destinados a mostrar quanto (em percentagem) a produção industrial ou as vendas, ou o nível de emprego cresceram em determinado período. Anteontem, em Brasília, quando o presidente da Fiesp falava em recuperação, ouvintes inconformados só não o chamaram de mentiroso, mas, triunfantes, retrucaram que na véspera o IBGE divulgara seu índice sobre o comportamento da produção industrial em doze meses, mostrando que ele continuava a cair até julho, e forçando o líder empresarial a retrucar que os dados mais recentes é que mostram a nova tendência positiva.

INTERPRETAÇÃO CORRETA
Na verdade, a confusão e a incredulidade vão permanecer, se não houver, daqui para a frente, uma interpretação correta dos índices do IBGE ou mesmo das entidades de classe, a propósito do comportamento da economia. Por muito tempo, tais índices podem dar a impressão de que os negócios continuam em queda, quando na verdade já se caminha para a reativação (ou vice-versa).

Onde nasce a confusão? Pode-se recorrer à aritmética elementar, para entendê-la. Num exemplo muito simples, suponha-se que nos primeiros seis meses de 1980 a indústria produziu 100 unidades por mês de qualquer tipo de produto, e que em 1981 a produção caiu a 90 unidades. No semestre, a indústria terá produzido 600 unidades (seis meses vezes 100) em 80, e 540 unidades (seis meses vezes 90), em 81. Nos primeiros seis meses de 1981 terá havido uma queda, portanto, de 60 unidades (600 menos 540), ou 10% sobre as 600 unidades de 1980.

Suponha-se agora que a economia tenha entrado em recuperação, e, em julho, a indústria produza 95, e não 90 unidades, isto é, 5 unidades ou cerca de 6% a mais que no primeiro semestre de 1981. O índice de sete meses vai mostrar uma produção acumulada de 635 unidades, isto é, 540 do primeiro semestre, mais 95 em julho. Mas o total acumulado de 80 seria de 700 unidades, isto é, 600 do primeiro semestre, mais 100 em julho. A diferença entre os sete meses de 80 e 81 será de 65 unidades (isto é, 700 menos 635), o que corresponde a uma queda de 9,3% em relação aos sete primeiros meses de 1980.

Isto é: o mesmo cálculo, feito para os meses seguintes, vai mostrar que mesmo que a produção cresça sempre em cinco unidades sobre as 90 unidades produzidas no primeiro semestre, a produção somada de todos os meses continuará abaixo do nível de 1980: a diferença irá decrescendo, mas persistirá ao longo do tempo.

Tudo isso é óbvio, é simples aritmética, mas o fato é que a cada mês, quando se divulgam os resultados de produção ou vendas, repete-se erradamente que a “economia continua a cair”, dando a impressão de que a crise continua a se aprofundar. Quando o que ocorre é que o índice foi acumulando uma queda, na fase de “tempestade”, que não desaparece da noite para o dia, mesmo que a produção cresça.

Líderes empresariais que continuam a dizer que “o ano vai fechar com uma queda na economia” estão dando uma contribuição negativa ao entendimento dos rumos da sociedade.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil