Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 8 de agosto de 1996
O consumidor vai ao supermercado. Encontra salame, de marca líder, a R$ 8,60 o quilo, menos da metade do custo normal, na faixa de R$ 18,00 a R$ 22,00 o quilo. Ou paga até R$ 0,82 por um litro de leite longa vida, que já chegou a custar R$ 1,20/R$ 1,40 em junho _e agora está mais barato do que o leite B em saquinho de plástico tradicional.
Fora da área de alimentação, outras surpresas: detergente a R$ 0,25, com desconto de 40% sobre o preço normal. Ou um pacote de sabão em pó, de um quilo, a R$ 1,50. Saindo do supermercado, e andando pelas ruas, o consumidor encontra a mesma avalanche de "preços promocionais", com violentos cortes nos custos de roupas, agasalhos, sapatos.
Qual a explicação para esse festival de redução nos preços? Supermercados - Estão com estoques para três semanas de vendas. Em meados de maio, eram suficientes para duas semanas. Há um ano, para sete a dez dias. Em resumo: encalhe.
Indústria - Até maio, a indústria de alimentos (e outros fornecedores) concedia desconto tradicional, de 20%, às redes de supermercados, como "prêmio" às compras em gigantescas quantidades. Em maio, o desconto subiu para 30%. Agora, já há fabricantes de alimentos oferecendo descontos de até 50%. Venda com prejuízo, para fazer caixa.
Em síntese: o consumidor brasileiro não deve festejar o festival de preços mais baixos que tomou conta do país. Eles retratam a situação cada vez mais trágica, dia-a-dia, do comércio e da indústria.
Em maio, desmentindo previsões otimistas sobre ’’recuperação dos negócios’’, esta coluna (’’A quebradeira dos deuses do Olimpo’’) advertiu que a economia iria continuar rolando ladeira abaixo, com os problemas agravando-se progressivamente. Hoje, o país está claramente no limiar da grande ’’quebradeira’’: sem mercado, as empresas cortam preços e vendem com prejuízo. Essa tática está chegando ao seu ponto de esgotamento, após a queda de vendas em julho e, agora, no Dia dos Pais.
As vendas do comércio para o Dia dos Pais caíram de 20% a 25% na comparação com o ano passado na Grande São Paulo. Eram falsas, típicas de Polianas, as manchetes falando em aumento de 25% no faturamento do setor.
Em julho as vendas de roupas caíram 35%, segundo a Federação do Comércio, apesar do frio, que provocou compras forçosas. Ah, sim: a fábrica de chocolates da Nestlé deu férias coletivas. Com frio e tudo.
As vendas da indústria repetiram em junho o recuo de 7% observado em maio. Em São Paulo, a capacidade instalada caiu novamente, para 75%.
Pela quarta semana consecutiva a indústria paulista voltou a demitir. Setores mais atingidos na quarta semana de julho: alimentos congelados e meias e malharias (apesar do frio). E a inadimplência do consumidor? Continua a dar saltos: 197 mil novos negativos em São Paulo.
Nas últimas semanas, houve quedas no custo da cesta básica e nas taxas de inflação. Não há motivo para festejá-las. Não são prova do ’’acerto’’ do Real. São, na verdade, o termômetro da recessão brasileira.
As empresas não vendem, cortam preços, quebram e desempregam. A recessão não é provocada apenas pelas taxas de juros. E sim, principalmente, pela política de achatar salários, aposentadorias, vencimentos do funcionalismo. Tudo, agravado pela política de estímulo às importações e conseqüente desemprego. Hora de Brasília acordar.