Jornal Correio da Manhã , segunda-feira 15 de fevereiro de 1971
Investidor a longo prazo, ou ingênuo a longo prazo? Há muito investidor da Petrobrás rindo à toa nos últimos dias, porque suas ações chegaram a Cr$ 5,20 na última semana, ou 30% a mais dos Cr$ 4,00 em que se mantinham há alguns meses.
Triunfante, ele interpela provocativamente os amigos que, meses atrás, o aconselhavam a vender o papel, então no fundo do poço, na casa dos 2,00 cruzeiros.
Do alto de sua superioridade, proclama que não é um “investidor emocional”, não “vende na baixa”, ao contrário, faz tudo quanto é recomendado pelos manuais de investimentos.
O sabichão comprou as ações da Petrobrás a mais de 4,00 há quase dois anos: mais exatamente, na corrida de 1969. Veio a queda, que ele acreditou atingir igualmente todo o mercado (o que não era verdade): Petrobrás foi atingida por uma das maiores perdas, e assim se manteve até meados do ano. “Não venda com prejuízo, espere um pouco que a ação ainda vai subir”, segredaram-lhe meses a fio – ou gritaram-lhe à toda, através de porta-vozes oficiosos ou semi-oficiais. “O que está havendo” – era a versão predileta – “é uma venda maciça de ações que pertenciam aos Estados, e isto está alimentando a baixa”, repetiam. Ninguém disse, nunca, a esse investidor, que na verdade, Petrobrás apresentara um mau balanço em 1969. Não havia, por isso, base para fazer as ações voltarem às cotações pelas quais ele as havia comprado.
Sem esse dado, as lições do manual foram religiosamente respeitadas: a saída foi procurar reduzir os seus custos médios, isto é, se o investidor possuía 1.000 Petrobrás compradas a Cr$ 4,00 com investimento de Cr$ 4.000,00, deveria comprar, por exemplo, outras 1.000 a Cr$ 2,00, pois então as 2.000 ações estariam custando Cr$ 6.000,00, e seu custo médio iria a Cr$ 3,00, com maiores possibilidade de recuperar o prejuízo.
Parou, perdeu
O raciocínio é esdrúxulo – ou importado. Em países com mercado já consolidado, a estabilidade das cotações é maior e as altas prendem-se principalmente – mas não exclusivamente – a fatos concretos, como o sucesso de uma empresa ou fases de grande expansão na economia. No Brasil, nos últimos dois anos, as oportunidades de lucro existiram dia a dia, semana a semana, mês a mês. Quem ficou parado, perdeu. O raciocínio do custo médio não podia prevalecer nessas condições. Por que comprar Petrobrás a Cr$ 2,00 se tão a ação não poderia recuperar terreno e deixar de lado outras ações promissoras – a curto, médio e longo prazo? O investidor durão poderia ter vencido seu preconceito com um estratagema: reduzir o custo médio de Petrobrás através da compra de outra ação qualquer, a que daria o nome de Petrobrás.
Suponha que ele deixasse sua implacabilidade de lado e, por exemplo, rebatizasse Hindi, uma ação muito negociada em São Paulo, mas pouco conhecida mesmo do público paulistano, comprando-a em janeiro. Não mais que um milhão de cruzeiros velhos. O que aconteceria? Em dezembro de 1970, seu um milhão já teria se transformado em 10,4 milhões – pois a lucratividade da ação, em um ano, foi de 939 por cento. E em janeiro de 1971, os 10,4 milhões virariam 18,0 milhões, pois houve novo salto de 76,6 na lucratividade da ação em relação aos níveis de dezembro. Hindi é um caso extremo, lógico, pois foi a ação mais lucrativa em São Paulo, durante o ano passado. Mas compras e vendas de outras ações, se realizadas na época certa, dariam resultado equivalente.
Não se assuste
A gangorra da Bolsa é a fonte dos maiores lucros para quem se dispõe a entrar no mercado de ações. Paradoxalmente, é ela mesmo que assusta o investidor menos ligado a mercado, talvez por falta de informação – ou porque há muitos repetidores de lições de manuais por aí. Que servem para os outros. Não para eles.
A gangorra esteve um bocado violenta neste começo de ano. E mesmo nas últimas duas semanas. Foi comum ocorrerem grandes altas seguidas de quedas igualmente intensas para um mesmo papel, como, por exemplo, White Martins. Durante longos meses empacada nos 5,00, a ação foi vendida a 5,33 (cotação média) na primeira semana fevereiro, a 6,41 na seguinte, chegando aos 7,30 na segunda-feira, dia 8, e voltando aos 6,30 na última sexta-feira. Só de olhar para gangorras como essa, o investidor enjoa – principalmente porque seu estômago não anda lá essas coisas após os altos vôos e pique da alucinada corrida às ações das siderúrgicas.
Não há, contudo, tanto risco de cair da gangorra. É tudo uma questão de acompanhar os movimentos dos parceiros e antecipar-se a possíveis tentativas de derrubada. Sempre há chance na Bolsa – para quem conviver com o enjôo.