[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  CNI pede “revisão total” na economia

Jornal Folha de S.Paulo , sexta-feira 5 de março de 1982


A política de contenção da economia foi adotada em caráter de emergência, no último trimestre de 1980, diante do agravamento dos problemas da dívida externa – que dificultavam a obtenção de novos empréstimos junto aos banqueiros internacionais – e da “disparada” da inflação. Agora, porém, já se passaram praticamente dezoito meses desde sua implantação intempestiva, com menores pressões naquelas suas áreas: “É tempo de o governo fazer uma reavaliação profunda de sua estratégia”, diz Albano Franco, presidente da Confederação Nacional da Indústria, “para verificar se não existem, passados os momentos críticos, meios para reduzir os efeitos danosos que ela vem trazendo à economia e ao povo”. Para o dirigente, o País está com suas atenções concentradas, neste momento, sobre o nível das taxas de juros, consideradas um obstáculo à recuperação, por inibirem os investimentos e o consumo. “Existe realmente este problema, isto é, poderia haver alguma melhora na situação se o custo do dinheiro fosse menor”, diz Albano Franco, para ressalvar, em seguida: “No entanto, não acreditamos que o País possa se contentar com mudanças apenas nessa área. Acreditamos na necessidade de uma revisão global nos métodos de ação escolhidos para enfrentar os problemas da economia, sob pena de provocarmos a deterioração do parque industrial e agravarmos o problema social. A redefinição é urgente, pois as empresas foram enfraquecidas pelos maus resultados de 1981.”

Problemas em cadeia

Nessa colocação de Albano Franco, estão presentes as mesmas restrições que também outras entidades empresariais, como a Federação das Indústrias de São Paulo, fazem à política econômica atual: ao adotar medidas genéricas para a “contenção” do consumo, o governo atinge igualmente a todos os setores, provocando problemas em cadeia dentro da economia, e que, multiplicando-se, geram o quadro negativo atual. Haveria a necessidade, a esta altura, de uma política seletiva, que atingisse especificamente os setores dependentes de importações (por causa do problema da dívida externa), e permitisse o funcionamento normal dos demais, mantendo assim alguns setores como “motores da economia”, para evitar um quadro de crise e desemprego crescente. O presidente da CNI pondera que, dentro dessa revisão da estratégia, poderia haver agora, melhor avaliação dos sacrifícios que são realmente inevitáveis para a sociedade brasileira. E, mais ainda, “melhor distribuição desses sacrifícios, entre os diversos segmentos da sociedade” – preocupação que não pode ser levada em conta, quando as medidas de emergência foram adotadas. Albano Franco acredita que essas revisões somente engrandeceriam o governo, e o beneficiariam em termos de participação coletiva na ação contra os problemas críticos da economia. “Há neste momento, diz ele, a sensação generalizada de que os sacrifícios que vêm sendo impostos às empresas e à população são desproporcionais aos resultados obtidos pela estratégia: a queda no ritmo da inflação não foi satisfatória”. Nessa mesma linha de raciocínio, também a melhora na situação do endividamento externo pode ser atribuída em grande parte aos menores gastos com petróleo, seja devido à redução dos seus preços internacionais, seja em decorrência do aumento da produção interna (esta semana, a Petrobrás alcançou a produção diária de 270 mil barris, para uma importação de 670 mil barris/dia destinados ao consumo interno). A exemplo de outros líderes empresariais, Albano Franco também defende a tese de que essa “revisão política” deveria conter diretrizes que se encaixassem em uma estratégia de médio e longo prazo para o País, “hoje, sem qualquer objetivo definido, a não ser alcançar metas conjunturais em relação à inflação e à balança comercial”. Com essa revisão, acredita o presidente da CNI, seria possível garantir certa margem de crescimento econômico a partir da expansão do mercado interno, e sem comprometer o endividamento externo. Como instrumentos para ampliação do mercado, figurariam a política salarial, a reforma tributária e a tão almejada redução nas taxas de juros – que representam, em última análise, uma forma de confisco da renda dos consumidores e das empresas, que poderiam aplicá-la em consumo ou em investimentos, dinamizando a economia.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil