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  Minta, minta, minta. O povo engole.

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 14 de maio de 1998


A batalha judicial contra a privatização da Vale do Rio Doce, há um ano, se baseava em dois pontos inter-relacionados: segundo os críticos, as riquezas minerais de Carajás eram muitas vezes superiores às anunciadas pelo governo e, consequentemente, o preço fixado para a venda da estatal era ridiculamente baixo. Verdadeira doação de um patrimônio coletivo (classe média e povão, empresários e trabalhadores) a um grupo empresarial privilegiado. Isso foi há um ano.

No dia 6 deste mês, o “comprador” da Vale, o empresário Benjamin Steinbruch, concedeu entrevista à Folha (página 7 do caderno Dinheiro). Está lá,com todas as letras, na boca do sr. Steinbruch: “Hoje, nós conhecemos apenas 20% do potencial de Carajás”. Bom reler. E concluir: então, a Vale foi vendida por apenas 20% do seu valor, como diziam os críticos. O que vai acontecer? Nada? Do Congresso de Inocêncios e Aécios é que não se pode esperar nada.

Previdência e maquiavelismo

Há mais ou menos um mês, o Ministério da Fazenda divulgou, com estardalhaço, que o Tesouro havia sofrido novo “rombo”, em março, por culpa sobretudo da Previdência, que teria sofrido um déficit de R$ 815 milhões no mês. Manchetes, manchetes. E toda a equipe FHC repisou, semanas a fio, que o “rombo” da Previdência, este ano, deveria chegar a fantásticos R$ 10 bilhões.

Agora, há poucos dias, o Ministério do dr. Malan “revisou” o déficit da Previdência em março. Só R$ 315 milhões, meio bilhão de reais a menos do que a cifra anunciada anteriormente.

Onde essa informação surgiu? Em manchetes? Não. Perdidinha, perdidinha no meio de textos de entrevistas. Quase ninguém ficou sabendo. Na cabeça do povo – e dos congressistas –, o “rombo” inventado de R$ 10 bilhões permanece.

Moral das histórias da Vale e da Previdência: não é por acaso que o governo Fernando Henrique Cardoso cita Maquiavel com tanta freqüência.

Desde o começo, ele se especializou em manipular as informações, enganar a opinião pública. Divulga mentiras cabeludas, consegue iludir milhões de brasileiros e o Congresso. Depois se desmente, mas de forma sorrateira – e não há cobrança, nem revisão de projetos, leis e operações de “privatização” aprovados à custa de dados falsos, mentiras.

Cordão de adeptos

A falta de pudor do governo FHC contagiou economistas, de-formadores de opinião e pretensos líderes empresariais (os empresários brasileiros ainda não se deram conta de que suas entidades de classe adotaram um tal grau de adesismo e falso otimismo, que eles viraram uma nova categoria de “sem”, ao lado dos sem-teto e dos sem-terra: os “sem-líderes” que os defendam e digam que a economia está indo para o caos). Exemplos:

Balança comercial - Em fevereiro, o governo proclamou um “rombo” de apenas US$ 85 milhões na balança comercial (exportações menos importações). Manchetes, manchetes, blablablá rosa. Nos jornais de 3 de abril, a confissão de um ex-ministro, Francisco Dornelles: em fevereiro, “paramos as importações para medir cotas”, isto é, o governo suspendeu temporariamente a autorização de importações de alguns setores. Forjou estatísticas otimistas. Manchetes? Não. “Escondidinho”.

De tudo - A Anfavea, a entidade da indústria automobilística, disse há duas semanas que o setor “estava reagindo”, e as vendas melhorando, em abril. Na semana passada, a verdade: queda de 25% nas vendas tanto da indústria quanto do comércio. A Associação Comercial de São Paulo diz que a “inadimplência do consumidor” já está “estabilizando”, comentaristas dizem que “o pior já passou”.

A verdade? O número de carnês em atraso no mês de abril (só no mês) chegou a estonteantes 420 mil, contra 435 mil em março. Essa “melhora”, de ridículos 15 mil carnês a menos, esconde que esses 420 mil representam seis vezes (500%) a média histórica de 70 mil carnês em atraso.

Em janeiro, fevereiro e março, dizia-se que a queda nas vendas era um problema apenas dos lojistas tradicionais, e que nos shoppings as vendas vinham crescendo 10%, 15%, 20%. Na verdade, no trimestre, elas recuaram 6% nos shoppings. E 15% para o comércio em geral (na Grande São Paulo).

O governo FHC sonha com a “recuperação” da economia, embalado pela cantilena de pretensas lideranças empresariais e de-formadores de opinião.



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