Jornal Folha de S.Paulo , segunda-feira 23 de novembro de 1992
Alta menor da cesta básica e dos preços do comércio varejista em São Paulo derruba a taxa esse mês
A brusca queda da inflação em novembro desmentiu a esmagadora maioria dos analistas. No entanto, como sempre acontece no Brasil, eles voltam á carga e tentam esvaziar a importância do resultado, com argumentos até irresponsáveis. Desses, o mais repulsivo é a afirmação de que a queda se deveu ao adiamento dos reajustes de combustíveis e outras tarifas públicas, pelo presidente Itamar Franco. Repulsivo, porque há dados que demonstram ser essa uma inverdade completa.
Que dados são esses? Como se sabe, o aumento das tarifas deveria ocorrer depois do dia 5 de novembro. No entanto, já na ultima semana de outubro, muito antes do pretenso “representado” de tarifas, a cesta básica acusava uma alta insignificante em São Paulo, segundo a Fipe/Procon: apenas 0,29% na semana, um resultado raríssimo ao longo de anos e anos. Mais importante ainda: não apenas a cesta básica, com os preços de alimentos em desaceleração, mostrou esta tendência surpreendente. Na primeira semana de novembro, também os preços de todo o setor varejista da Grande São Paulo emplacaram insignificante 0,04%, segundo o índice da Federação do Comercio, que engloba desde lojas de autopeças e farmácias a lojas de eletrodomésticos e vendedoras de vestuário.
Então, está claro: a alta de 0,29% para a cesta básica, e de 0,64% para o comercio como um todo, mostra que a inflação não caiu por causa de tal “represamento” das tarifas. Isso é uma inverdade que precisa ser combatida no interesse da sociedade. Por quê? O fato é que, neste momento, surgem condições únicas para tentar cortar mais e mais pontos na taxa de inflação –capitalizando-se os resultados já obtidos-, e esses avanços são obviamente prejudicados pelas expectativas pessimistas alimentadas por argumentos me que não falam inverdades. Quais são os dados reais que, em contraponto, podem reforçar as perspectivas de queda persistente da inflação daqui para frente?
Ajuste fiscal – Antes de mais nada, o próprio governo precisa fugir da crença de que a inflação cairá rapidamente, se o Congresso aprovar o falado “ajuste fiscal”. Ele terá efeitos psicológicos, óbvio. Mas está cada vez mais claro que a mãe da inflação brasileira é a indexação, o hábito de empresas e pessoas acharem que “têm” que reajustar seus preços de acordo com a inflação passada, ou “estarão perdendo”. É preciso demonstrar a sociedade que cada qual pode, até, reajustar seus preços de acordo com a elevação de seus custos –mas não de acordo com a taxa de inflação do mês anterior, ou ela resistirá. Ao decidir que as tarifas das estatais não serão mais ajustadas nessa base automática, o governo ganhou autoridade moral para fazer idêntica solicitação à sociedade e, em particular, aos empresários.
Em queda – As próximas semanas tendem a acusar taxas de inflação ainda mais baixas, pois os seus cálculos levam em média quatro semanas para refletir quedas (ou altas) já ocorridas. Vale dizer que os índices de 0,29% para a cesta básica e de 0,64% para o comercio varejista de São Paulo só vão “entrar” plenamente nos índices no final de novembro e começo de dezembro. Atenção, o custo da cesta básica estava torno dos 15% até o começo desta última semana de novembro (23 dias...).
Salários – Aqui, o próprio governo pode ter uma surpresa. O índice de reajuste do salário mínimo se baseia, atualmente, no orçamento dos trabalhadores que ganham até dois salários mínimos, para os quais obviamente a cesta básica tem um peso fortíssimo. Como a cesta básica desacelerou o ritmo de alta, esse índice tende a despencar...
Dólar – Se deseja a desindexação, o governo não teria como fugir a mudança no ritmo de desvalorização do cruzeiro. Nada de “represamentos”. Mas ela não poderia continuar a ser diária Até por “pedagogia”.
Juros – Já caíram fortemente em novembro, não apenas em termos nominais. Chegou a hora de o governo estimular indústria e varejo a reduzirem os juros “embutidos” em seus preços, reduzindo-os.
Da China – I
As empresas não pagaram o Finsocial só porque o achavam ilegal. Há uma grande jogada em cena. As empresas não faziam depósitos na Justiça em dinheiro, e sim, em Títulos da Dívida Agrafia, emitidos pelo governo e que compravam por 30% e 40% do valor. Para uma dívida de Cr$ 1 bilhão, compravam títulos no valor de 300 e 400 milhões, e aplicavam a diferença.
Carestia inventada
Sobram feijão (500 mil toneladas) e milho (5 milhões de toneladas). Ainda assim, seus preços sobem. Motivo: política errada de comercialização, com uso da TR (Taxa Referencial) como indexador. Precisa ser mudada. Mesmo se absorve juros, o Tesouro lucrará.
Da China – 2
A empresa aérea Transbrasil não pagou uma prestação da dívida externa e o ministro da Fazenda. Gustavo Krause, bloqueou suas contas. Aí, ficou sabendo, o Tesouro Nacional paga aos banqueiros e parcela a dívida em cem prestações.
Da China – 3
O governo Fleury deu anistia de multas às empresas “inadimplentes”, que não recolheram o ICMS. O governo Itamar não quer fazer o mesmo com as devedoras de impostos federais. Bom motivo para a Fiesp preferir ministros indicados por São Paulo.
TR ousada
Choveram críticas quando o governo fixou a TR de novembro em 23,29%, abaixo da previsão de inflação dos especialistas. O governo estava certo. Teria acertado, se os ministros fossem “conhecidos” do mercado financeiro?