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  Freios na economia não sairão de cena tão cedo

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 20 de setembro de 1981


As informações de que a economia entrou em fase de recuperação podem criar uma expectativa – errada – de que “a crise” já passou e agora o País pode voltar a altas taxas de crescimento, com muito dinheiro na mão de todo mundo, e negócios florescentes em todas as áreas. Nessa visão equivocada, agora a população poderia pensar em desapertar o cinto, e a classe média, que se julga sacrificada pela política dos últimos meses, voltaria aos melhores tempos de consumismo.

Na verdade, nada disso pode acontecer, pelo fato puro e simples de que o governo foi forçado a colocar freios na economia, no começo deste ano, para enfrentar o problema do crescimento acelerado da dívida externa, que estava levando os banqueiros internacionais a recusarem novos empréstimos ao Brasil, desde o último trimestre do ano passado.

Como às vezes ocorre em economia, o remédio adotado por Brasília provocou um efeito superior ao desejado, isto é, a intenção do governo era reduzir o ritmo de produção em alguns setores industriais, sem provocar uma crise generalizada e desemprego maciço. Mas, por uma série de fatores, eles acabaram ocorrendo, com as raríssimas exceções de praxe, no primeiro semestre de 1981.

A recuperação agora anunciada, entenda-se bem, significa apenas que a queda excessiva (acima do nível pretendido) na produção industrial já foi superada – mas a economia não deve voltar aos níveis de expansão do ano passado. Ela só reagirá até o ponto considerado possível pelos técnicos do governo, isto é, até o ponto em que a situação da dívida externa não se agrave acima dos limites toleráveis.

O brasileiro, em outras palavras, terá que apertar o cinto durante mais três ou quatro anos, como têm dito os ministros da área econômica – e, isto, se tudo ocorrer bem. Para que o prazo não cresça ainda mais, será preciso que o Brasil consiga saldos positivos na balança comercial, isto é, que o valor das exportações supere o das importações, usando-se esses saldos para evitar que a dívida externa continue a crescer a um ritmo tão rápido quanto nos últimos anos, levando o País a uma crise sem saída.

A possibilidade de obter saldos apreciáveis é frequentemente negada em análises econômicas, com base no argumento de que a situação mundial torna muito difícil o crescimento das exportações brasileiras, ao nível que seria necessário atingir, para fugir à crise. Na verdade, um levantamento sobre o comportamento das vendas ao exterior no Brasil mostra que não há razão para esse pessimismo.

Mas, enquanto a crise cambial não for abrandada, não será possível soltar os freios da economia. Nem reduzir o falado “sacrifício da classe média”.

OS NÚMEROS
Um dos mitos correntes do debate econômico brasileiro é afirmar que o Brasil não tem condições de exportar produtos industrializados por causa das barreiras que os países desenvolvidos estariam levantando dentro da chamada “escalada do protecionismo”.

Na verdade, o que ocorre é que se dá muito destaque a qualquer notícia sobre medidas protecionistas, por mínimas que elas sejam: é o que ocorre, por exemplo, quando os EUA impõem sobretaxas a um, dois ou três produtos brasileiros, para evitar que eles concorram com a indústria norte-americana, dentro do seu mercado. A partir dessas pequenas “barreiras”, cria-se a ilusão de que o mercado mundial está fechado, quando bastaria examinar os dados sobre o total das exportações de produtos industrializados brasileiros para verificar que isso não é verdade. Segundo os dados da Cacex (v. gráfico), de 2,8 bilhões de dólares em 1976, as vendas brasileiras de produtos manufaturados subiram para 9 bilhões de dólares, em 1980, isto é, mais que triplicaram, com um saldo anual sempre superior a 32% - enquanto se repetia que “o mercado mundial está ruim”.

A nova tendência pode ser explicada, em parte, pelo próprio grau de industrialização do País. Mas para que ela se consolidasse contribuiu, inegavelmente, a política de procura de mercados novos lançada pelo governo Geisel: hoje, o Brasil já está colocando a metade de suas exportações junto a países em desenvolvimento, fugindo à imensa dependência que mantinha em relação aos países desenvolvidos, mais interessados na compra de produtos primários, matérias-primas, do que em manufaturados.

O REFORÇO
Em 1981, a expansão da exportação de manufaturados – que já vem desde 1976, isto é, trata-se de uma tendência clara, e não um fenômeno passageiro – mantém a mesma taxa de 30%, até o mês de julho. O governo espera resultados ainda melhores, daqui para a frente, como resultado dos acordos que assinou com diversos setores industrias, concedendo vantagens para a exportação de estoques “encalhados” diante da queda nas vendas do mercado interno, no primeiro semestre do ano (não cabe discutir aqui o custo social desse esforço exportador. Esse, no entanto, é um tema a ser debatido por toda a sociedade).

Uma análise do comportamento dos cem produtos industrializados que lideram as exportações do setor até julho (v. quadros) mostra que pelo menos 40 deles cresceram mais de 25%, este ano, em relação ao ano passado. Desses, pelo menos 25 vêm aumentando o ritmo de expansão de suas vendas externas, tanto que os resultados de julho superam os índices obtidos até março (em relação a março do ano passado).

OS EXCEDENTES
Definida claramente a possibilidade de o Brasil diversificar também a pauta de produtos exportados, a partir da diversificação dos mercados, os planejadores de Brasília esperam que, já em 1982, a balança comercial apresente um saldo positivo na casa dos 2 bilhões de dólares, com as exportações chegando aos 30 bilhões de dólares, ou um avanço de 25% sobre os 24 bilhões previstos para este ano. Para isso, as importações deveriam crescer apenas 20%, chegando aos 28 bilhões de dólares.

Tanto no caso das exportações como das importações, os resultados somente serão alcançados se o consumo interno continuar contido, isto é, se a população continuar com os cintos apertados – principalmente a classe média.

Por quê? A política traçada pelo governo desde o final do ano passado, para enfrentar o problema da dívida externa, visou a “segurar” as importações, de forma indireta. Como não se pode proibir uma empresa de importar matérias-primas, peças e componentes, o governo procurou reduzir o poder aquisitivo, sobretudos da classe média, através de medidas muito conhecidas, como o aumento indireto do Importo de Renda cobrado na fonte, a liberação das taxas de juros (que encareceu as compras no crediário) e as mudanças na política salarial, para limitar os ganhos mais altos. Com isso, reduzido o poder de consumo da classe média, caiu a demanda por bens de consumo duráveis, cuja produção (e uso, no caso do automóvel, que consome petróleo importado) exige a importação de matérias-primas ou componentes.

Além de reduzir as importações, num primeiro momento, o governo esperava ainda, com essa estratégia, levar as empresas a se interessarem pelo mercado externo, pela exportação, já que o mercado interno não absorveria senão parte de sua produção. Essa segunda etapa da estratégia parece estar sendo atingida em escala crescente, como mostram os dados sobre vendas externas não apenas de automóveis, mas de metais, autopeças, máquinas, produtos químicos etc. (v. quadros)

E O FUTURO?
O saldo de 2 bilhões de dólares previsto para 82 é, na verdade, uma gota d´água diante da imensidão da dívida externa brasileira, que crescerá de 11 a 13 bilhões de dólares, somente em 81, e outro tanto em 82. O País precisará, portanto, de saldos muito maiores, nos anos seguintes, para colocar sua dívida novamente em limites controláveis. Para que isso ocorra, o governo acena com os bilhões de dólares que viriam das exportações dos grandes projetos de mineração, metalurgia e agricultura energética previstos para a Amazônia/Nordeste (isto é, Carajás – outra opção que a sociedade ainda deverá debater longamente).

Todos esses projetos, contudo, somente amadurecerão ou amadureceriam a longo prazo – e já no final de 1980 o Brasil, por causa do crescimento da dívida, não tinha dólares nem para pagar seus compromissos que iam vencendo, mês a mês. Além do mais, a própria concretização daqueles projetos dependeria e depende da confiança que banqueiros e investidores internacionais depositem na “saúde” da economia brasileira, e se seu estado se agravava rapidamente, até que o governo finalmente optou pelos freios.

Por tudo isso, eles vieram para ficar por muito tempo.



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