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  A oposição não oferece alternativas?

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 12 de fevereiro de 1998


Em um “furo” jornalístico, esta Folha divulgou no último domingo que, na surdina, o governo Fernando Henrique Cardoso estaria realizando estudos para mudanças no rumo da política econômica de terra-arrasada nos últimos anos.

Exatamente como os críticos sempre defenderam, o governo estaria finalmente procurando traçar uma política industrial, para recuperar um setor que foi destroçado (empresas e empregos) com o escancaramento do mercado.

Até aí, tudo bem. Mas a reportagem da Folha mostra também que, na surdina, o governo FHC está analisando quais grupos empresariais deveriam ganhar imensas vantagens do governo, isto é, dos contribuintes, (classe média, empresários, povão) a pretexto de se “fortalecerem”, ganharem escala e enfrentarem a tal da globalização (ironicamente, a mesma política adotada pela ditadura, nos idos da época do milagre).

Em bom português, está de volta a política de “quem é amigo do rei”? A política de doação de dinheiro público a poucos empresários, aumentando-se a concentração da renda, a concentração da propriedade – e, do outro lado, a miséria e a violência.

Na verdade, o governo FHC está apenas estudando a ampliação de uma política de favorecimento a certos grupos empresariais que já vêm sendo escandalosamente executada por meio do BNDES, principalmente. Para esses grupos, e sobretudo nos setores “privatizados”, têm sido concedidos empréstimos de centenas de milhões de dólares/reais, com a primeira prestação vencendo daqui a dois ou três anos, prazos de pagamento de dez anos, renovação de empréstimos anteriores – tudo a juros escandalosamente baixos (a diferença é, em última análise, bancada pelos milhões de agricultores, empresários, trabalhadores).

Mais uma vez, a política de favorecimento aos “amigos do rei” é defendida com argumentos aparentemente lógicos. Alega-se – como na época da ditadura – que não há alternativa, isto é, há necessidade de fortalecer “grupos nacionais” em nome do interesse nacional. Ou, em outras palavras, uma espécie de “distorção inevitável”. É mentira.

Os outros caminhos

Hoje, o governo FHC e os governadores estaduais, por imposição de Brasília, estão fazendo doações bilionárias a empresários privilegiados. Meia dúzia de “amigos do rei”, à custa do restante da sociedade, estão acumulando patrimônios bilionários. Qual seria a alternativa? Ora, basta olhar o que acontece no resto do mundo desenvolvido. Ou, melhor ainda, até mesmo olhar para experiências anteriores, no Brasil.

Como? O BNDES, o governo, os governos estaduais deveriam selecionar as empresas em condições de crescer, competir, e dar-lhes financiamento, apoio, desde que elas vendessem ações ao público, a milhões de acionistas. Com isso, as vantagens não enriqueceriam os “amigos do rei” apenas: haveria participação, com melhora na distribuição da renda, de milhões de brasileiros. É assim no exterior. E já foi assim, no Brasil, à época do ex-ministro Roberto Campos que, ao que se saiba, não é nenhum “esquerdinha bocó”.

Quando Brasília diz que não há alternativas, que a “oposição não oferece alternativas”, sabe que está mentindo. Ou, pior: finge não saber que há alternativas – para favorecer os “amigos do rei”.

Poliana – 1

Em entrevistas, o presidente FHC insiste em dizer que a economia está bem, que os “catastrofistas” estavam errados, que as vendas de Natal caíram apenas 6%. Um desconhecimento trágico, que agrava as perspectivas econômicas. No caso, culpa também dos meios de comunicação, que “esconderam” a queda real das vendas, de 12% e não 6%.

Poliana – 2

Outros dados que o presidente FHC provavelmente desconhece, já que a imprensa os escondeu cuidadosamente: em dezembro, o número de cheques sem fundo mais do que dobrou, para estonteantes 2,2 milhões, contra 1 milhão no mesmo mês de 1996.

Retrato fiel da inadimplência e empobrecimento do consumidor – retratados, também, no mar de carnês em atraso, que superam a casa dos 360 mil (apenas) no mês de janeiro em São Paulo (no total, já chegam aos 4 milhões em São Paulo). Como a equipe FHC e o presidente podem pensar em melhora na situação econômica diante desses dados?



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