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  Em nome do deus-petróleo

Revista da Fenae , abril de 2000


Foram R$ 125 bilhões, só em juros, enfrentados pelo governo federal em 1999 - segundo o Banco Central. Não foi possível pagá-los, óbvio, e o jeito foi emiti mais e mais bilhões em títulos ("papagaios") federais, fazendo a dívida interna continuar explodindo. Nenhum motivo, portanto, para reduzir a desconfiança dos banqueiros internacionais, de olho nas contas do governo, com medo de um "calote". No front externo, igualmente, nenhuma mudança: o saldo de US$ 5 bilhões na balança comercial (exportações menos importações) continua a ser apenas mais um dos chutes otimistas que o governo desfere permanentemente. As exportações não avançam, as importações de peças e componentes, realizadas pelas multinacionais que agora dominam o país, voltam a crescer (quase 30% em fevereiro). E, no dia-a-dia da economia, a recessão persiste: até o consumo da cervejinha caiu 10%, idem para a gasolina, a venda de comida recuou mais 4% nos supermercados em janeiro, tudo explicado pela perda de poder aquisitivo do brasileiro, que o próprio IBGE é obrigado a admitir, ao anunciar um recuo de 5,5% para os rendimentos dos trabalhadores em 1999. Apesar de todas essas nuvens negras, o governo FHC segue em frente, intrépido, com a preciosa ajuda dos países ricos. Um apoio que ainda por cima ganhou um poderoso reforço com a nova disparada dos preços de petróleo, acima dos 30 dólares o barril, no mercado mundial. Totalmente dependentes de combustíveis para gerar energia em usinas termelétricas e manter suas economias em funcionamento, mais do que nunca as nações ricas fazem o possível e o impossível para dominarem, através de suas multinacionais, as reservas de petróleo dos países pobres. Uma missão que o governo FHC vem cumprindo, com o esquartejamento da Petrobras e os novos leilões, previstos para este semestre, de outras áreas petrolíferas fabulosas do litoral brasileiro, descobertas pela estatal. Em nome do deus-petróleo, os países ricos orientam seus banqueiros a injetarem seus dólares no país.

A expectativa de uma reviravolta na política econômica do governo, voltada claramente para os interesses dos países ricos, continua a frustrar-se com a permanente colaboração dos meios de comunicação. Sempre sintonizados com o discurso do governo, eles esconderam ou simplesmente não noticiaram, entre tantos exemplos, o acordo realizado em fevereiro entre a Rússia e um bloco de banqueiros internacionais. Após um ano e meio de negociações, desde a suspensão do pagamento de suas dívidas externas em agosto de 1998, a Rússia conseguiu as seguintes concessões dos credores de US$ 32 bilhões: mais sete anos sem pagar nem um dólar das prestações e, depois, 10 anos para quitá-las. Mais alguma vantagem? Sim. "Perdão" de um terço daquele valor, coisa de US$ 11 bilhões, a título de revisão das taxas de juros excessivamente altas impostas à Rússia, à época dos empréstimos. Um acordo que é uma demonstração cabal de que existe a possibilidade de fugir às políticas recessivas e de entrega do patrimônio nacional. Coisa que o governo FHC não tem. Sua aliança com os países ricos sofrem uma única ameaça, também ela procedente do exterior. A tantas-vezes adiada crise da economia dos EUA dá sinais de estar saindo das sombras, com o desabamento das Bolsas de Nova York e a Nasdaq, onde são negociadas as ações das empresas de alta tecnologia (telecomunicações, Internet, informática, biotecnologia). O terremoto nos mercados financeiros voltará a deixar bancos internacionais em maus lençóis, afetando seu apoio ao Brasil. Resta ver se o culto ao deus-petróleo não predominará sobre todas as coisas.



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