Jornal Diário Popular , domingo 19 de setembro de 1999
Com a reforma tributária em debate no Congresso, as oposições resolveram apresentar proposta para "aumentar" o Imposto de Renda, que poderia chegar a 30% ou 35% dos ganhos do contribuinte, contra os 25% (na prática, 27,5%) de hoje. Prepare-se para ouvir uma enxurrada de ataques contra as oposições, com aquela ladainha toda de que os impostos no Brasil já são os mais altos no mundo, "trabalhadores e classe média vão ser sacrificados" e por aí vai. Cuidado com esses falsos defensores da sociedade, pois eles estão mentindo ou, pior ainda, estão invertendo a verdade.
Hoje, os ricos e milionários estão pagando pouquíssimo Imposto de Renda no Brasil, enquanto a classe média e os trabalhadores sofrem descontos violentos, de até 27,5%, cobrados diretamente na fonte, na hora de receber o pagamento. Na maioria dos países, inclusive da América Latina, o Imposto de Renda chega aos 40%, isto é, ele é bem mais baixo, ou não é cobrado para quem ganha menos, e vai subindo, com várias faixas (em %) para quem ganha mais. (E há países ricos em que os milionários pagam até 70%, 80% de Imposto de Renda).
No Brasil, também havia esse critério justo, de cobrar mais de quem ganha mais. Nos últimos anos, no governo FHC, houve uma mudança absurda, sem protesto dos falsos "defensores da sociedade": o governo fez uma verdadeira reforma tributária às avessas. Como assim? Ele cancelou, acabou com as faixas de cobrança do IR de 30%, 40%, 45% para os mais ricos, e deixou só duas faixas, de 15% e 25% (ampliada para 27,5% no "ajuste" combinado com o FMI). Isto é, os mais ricos e os milionários passaram a pagar a mesma percentagem que os trabalhadores e classe média. Pior ainda: acontece que o governo FHC deu uma série de vantagens para quem aplica dinheiro no mercado financeiro, na compra de títulos que rendem altos juros por ano, ou nas Bolsas de Valores e de Mercadorias etecetera. Que vantagens são essas? Imposto de Renda menor, ou mesmo perdão total do Imposto. Ora, todo mundo sabe que a maior parte da fortuna dos mais ricos e milionários vem, exatamente, dessas aplicações de dinheiro. E esses chamados investimentos, exatamente, acabam pagando um Imposto de Renda mais baixo, enquanto o dinheirinho vindo do trabalho da classe média e povão sofre o desconto direto na fonte.
É por isso que, proporcionalmente, a renda dos ricos e milionários paga um Imposto de Renda muito mais baixo do que a "renda" da classe média e povão, hoje. Quem diz isso? As oposições? Não. O próprio secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, que mostra toneladas de estatísticas para mostrar a situação absurda que o povo brasileiro está vivendo com o sistema de cobrança de impostos criado pelo governo FHC. A proposta das oposições, portanto, não "vai sacrificar ainda mais a classe média e os trabalhadores". Ao contrário. Ela é um ponto de partida para começar uma reforma verdadeira, com a qual haja mais justiça social.