Jornal Folha de S.Paulo , sábado 26 de dezembro de 1981
O governo lança um pacote não apenas para "reativar" a economia; mas sim para provocar (até perigosamente) o seu "aquecimento", em 1982 — e a decisão não provoca as manifestações eufóricas que certamente surgiriam em outros tempos. Nem mesmo a classe empresarial, beneficiária direta da "guinada" após as dificuldades de 1981, demonstrou entusiasmo ante as novas perspectivas.
A reação, sob muitos aspectos, pode ser encarada como um sintoma de maior amadurecimento do País diante de seus problemas econômicos — amadurecimento que, infelizmente, não parece ter atingido a tecno-estrutura de Brasília. Em 1979, quando o ministro Delfim Neto decidiu reaquecer a economia logo após a queda de Simonsen, a decisão foi saudada com intenso foguetório. Até aquela época, a opinião pública, economistas e mesmo líderes empresariais pareciam acreditar, ainda, que Papai Noel existe, e que basta pedir a ele, como presente, uma "política de crescimento", sem receber a conta depois — ninguém, na época, temeu que a inflação galopasse e a dívida externa fugisse ao controle. As duas coisas aconteceram, e veio a necessidade de impor freios à economia, em 81.
Hoje, o País parece descrer de Papai Noel. A frustração diante do "pacote da reativação", manifestada por importantes líderes empresariais e acompanhando as conhecidas posições do professor Bulhões, foi Justificada por argumentos bem concretos — e maduros. O presente da "reativação", de resto pedida pelos empresários, deveria ter vindo acompanhado de medidas destinadas a combater distorções que marcam a economia brasileira bá multo tempo. Mais especificamente, os líderes empresariais endossaram a posição do presidente do Banco Central: Carlos Langoni, que desejava reduzir os subsídios no crédito à agricultura (e às exportações), isto é, a diferença entre os juros (35% a 45% ao ano) cobrados nessas áreas e a inflação (80% previstos para 1982), que são cobertos pelo Tesouro. Na melhor das hipóteses, segundo os cálculos do Banco Central, esses subsídios exigirão de 550 a 600 bilhões de cruzeiros em 1982, verdadeiras doações a uma parcela dos tomadores de empréstimos, que exigirão que o Tesouro desvie uma parte dos recursos arrecadados com impostos para pagá-las. E, se isso não for suficiente, será preciso recorrer novamente a emissões de papel moeda, como ocorreu em 1981. Nos dois casos, criam-se focos inflacionários, bem como distorções em cadeia dentro da economia (já analisados longamente, em artigo anterior).
Não ha a menor dúvida de que a tec-no estrutura de Brasília desperdiçou, melancolicamente, uma excelente oportunidade para iniciar o processo de correção dessas distorções "estruturais", permanentes, que vêm viciando o capitalismo brasileiro — segundo os próprios empresários. O declínio da inflação havia criado condições para reduzir os subsídios tanto sob o aspecto econômico como até mesmo sob o prisma político: o próprio presidente da Sociedade Rural Brasil, Renato Ti-coulay, admitiu publicamente, num debate recente, que os subsídios à agricultura poderiam ser reduzidos sem traumas — desde que houvesse preços satisfatórios para o produtor (e os preços mínimos, este ano, vêm sendo corrigidos mensalmente, de acordo com o INPC. Vale dizer, já há essa política de melhores preços). A tec-no estrutura não apenas manteve os subsídios — como ainda prolongou até 1985 (o presidente da República assinou decreto com esse fim) os chamados incentivos fiscais, o "perdão" de impostos a certos tipos de investimentos e que são, junto com os subsídios, os responsáveis pelos "rombos" do Tesouro, e pela falta de recursos para atender aos problemas fundamentais do pais, inclusive na área social.
Além das distorções "estruturais" causadas pelos subsídios (e incentivos) uma conseqüência prática, de curto prazo, preocupava e preocupa os líderes empresariais. Teme-se que, com a manutenção dos subsídios, as taxas de juros cobradas às empresas não caiam em termos reais, isto é, seu declínio apenas acompanhe a inflação (uma taxa de juros de 120% ao ano corresponde a juros "reais" de 40% ao ano, se a inflação for de 80%).
O risco existiria, na visão dos líderes empresariais, porque os subsídios podem superar as cifras previstas pela tecno-estrutura e, nesse caso, o governo, evitando emitir papel moeda em larga escala (para não realimentar a inflação) teria que obter os recursos necessários recorrendo, para tanto, à venda de Letras do Tesouro ou Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional. Para isso, o governo teria que oferecer "taxas de juros" atraentes, aos apli-cadores — puxando todas as taxas de Juros novamente para cima, como ocorreu em 1981. As preocupações das lideranças empresariais com a possível manutenção das taxas reais de juros a níveis insuportáveis são compreensíveis. Uma análise mais profunda das perspectivas criadas pelo orçamento monetário de 1982, no entanto, mostram que há possibilidade de evitar que a ameaça se concretize. Isto não significa, repita-se mais uma vez, que a tecno-estrutura de Brasília não tenha causado graves prejuízos ao país com sua atitude imobilista diante de distorções a esta altura condenadas por todos.