Jornal Folha de S.Paulo , domingo 8 de agosto de 1982
As altas taxas de Inflação e a situação da dívida externa estão criando um clima emocional e abrindo caminho para a adoção de políticas radicais que levariam o País, desnecessariamente, a uma recessão e crises sociais. Ao jazer essa advertência, o empresário Abílio Diniz, diretor-superintendente do Grupo Pão de Açúcar, contesta os diagnósticos que vem ganhando forca nas últimas semanas, segundo os quais as princiPaís causas da Inflação brasileira seriam o déficit do governo e os gastos excessivos das empresas estatais:
"Essas análises, inevitavelmente, levam à conclusão de que é preciso conter os investimentos do governo e suas empresas, o que significa reduzir o ritmo de expansão de toda a economia, chegando-se mesmo a uma recessão." No entanto, diz Abílio Diniz, o déficit do governo brasileiro representa hoje apenas 5,7% do PIB (número considerado elevado, pelos críticos), enquanto no Japão ele sobe a 8%, na Bélgica a 11%. na Itália a 14%. E esses países, como se sabe, estão longe de padecer de um processo Inflacionário agudo: no Japão, a Inflação anual está abaixo dos 5%. e naqueles dois países europeus ela mal chega aos 15%.
Não há, portanto, conclui o empresário, a relação direta entre déficit público e Inflação, como tanto se apregoa ultimamente, com o objetivo de recomendar políticas recessivas ao País.
REFORMA TRIBUTARIA
Para Abílio Diniz, o problema não é o déficit em si, e sim a forma de financiá-lo: "O governo brasileiro vem recorrendo ao endividamento Interno, que já superou a casa dos Cr$ 5 trilhões, em Julho ultimo, para cobrir esse rombo. Origina-se, dessa política, a conhecida necessidade de colocação de títulos federais no mercado financeiro, com pressfio sobre os Juros, num primeiro momento, e novas necessidades de recursos, para rolar a dívida, nas etapas seguintes".
Mais uma vez, diz Abílio Diniz, fica clara a necessidade de mudanças globais na política econômica, em lugar de medidas "intempestivas", de caráter recessivo e alto custo social:
"Se houvesse um planejamento de longo prazo, com clara definição de projetos com retorno assegurado ou que contribuíssem para reduzir os problemas cambiais do País, os déficits seriam até aceitáveis — como está provado pela experiência mundial. Mas — voltando ao aspecto do financiamento dos déficits — eles não poderiam continuar sendo cobertos pelo endívidamento Interno ( e externo, via estatais), tornando-se urgente uma reforma tributária que desse, ao Tesouro, recursos para cobrir suas necessidades.
Dentro dessa diretriz, o dlretor-superintendente do Grupo Pâo de Açúcar admite que o atual déficit brasileiro contém distorções a combater, também quanto à sua origem:
"Não concordo com o dr. Bulhões, quando afirma que é preciso extinguir rapidamente os subsídios existentes dentro da economia brasileira. Mas o fato é que eles, hoje, representam no mínimo 60% da arrecadação da União — ou mais, segundo alguns analistas. Além de representar uma carga insuportável em qualquer País, aponta o empresário, essa massa de subsídios acaba tendo efetivamente efeitos Inflacionàrios, pois não vem trazendo um aumento proporcional, às suas dimensões na produção. Não há dúvida que os critérios para sua concessão precisam ser revistos, reduzindo-se gradativamente as vantagens desnecessárias ou estimuladoras da ineficiência."
ESTATAIS SOB CONTROLE
Abílio Diniz não contesta a importância das empresas estatais como instrumento de política econômica, com papel fundamental em algumas áreas:
"Discordo também do emocionalismo presente nas criticas às estatais. Minha proposta é que o País debata intensamente a questão, para que a sociedade defina claramente os limites de atuação das estatais, num primeiro momento. Uma vez estabelecidos esses limites seria Indispensável que as empresas dispusessem de orçamentos consolidados, aprovados pelo Congresso, que teria ainda poderes para fiscalizar sua correta execução, evitando os desvios atuais, ou aprovando-os, quando os Julgasse inevitáveis. Além da fiscalização do Congresso, a sociedade deveria ter uma participação ainda mais direta no controle das estatais, através de um Conselho Administrativo integrado por representantes de todas as categorias sociais: empresários, trabalhadores, profissionais liberais, etc."