[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Opção para evitar desastres

quarta-feira 17 de julho de 1991


Nos EUA, a indústria automobilística vai ao Congresso e pede medidas de proteção contra a crescente invasão de seu mercado pelos automóveis japoneses – não apenas aqueles importados já montados, mas também aqueles “fabricados” por empresas japonesas no território norte-americano. Na Inglaterra, a herança de Thatcher continua terrível: há 18 meses as importações superam as exportações - e, em maio, o rombo da balança comercial atingiu nono nível recorde, com US$ 1,5 bilhão de saldo negativo só no mês. Na Coréia, o governo reconhece oficialmente que o modelo de abertura dos mercados foi marcado por distorções cujos efeitos danosos estão ficando cada vez mais claros. Filiais de multinacionais instaladas no país realizam importações crescentes de peças e componentes, fornecidos pelas matrizes – principalmente japonesas. EUA, Inglaterra, França, Coréia e outros “tigres asiáticos” – todos com problemas de importações crescentes, perda de dólares e de mercados, rombos na balança comercial, em função de uma política econômica endeusada nos últimos anos e que agora demonstra precisar de uma reavaliação. E é nessa política que, com certo atraso, o Brasil vai embarcando, a toque de caixa, no afã de agradar a credores e governos de países ricos. O que está acontecendo no mundo exige reflexão, se não do governo, no mínimo das entidades empresariais e sindicais, para não falar na sociedade como um todo. Será que a alternativa de modernização oferecida ao Brasil é mesmo uma alternativa? Ou uma armadilha, a médio prazo? Em lugar de aderir de olhos fechados à liberalização total da economia, não caberia ao governo e agentes econômicos procurar opções com base até na experiência recente do país? Ainda uma vez, é a política econômica de meados dos anos 70 que mostra caminhos mais viáveis para o Brasil. Naquela época, havia quem defendesse a integração total do Brasil ao eixo econômico centrado nos EUA, apontando-se a imensidão do mercado norte-americano como um trunfo inigualável. Mas o governo brasileiro seguiu em outra direção: procurou acordos com outros países em desenvolvimento para ampliar importações e exportações, chegando-se muitas vezes a um regime quase de troca (em sua maior parte, os contratos para obras gigantescas obtidos por empreiteiras brasileiras no Oriente Médio e na América Latina faziam parte, na verdade, de acordos entre os governos. O Brasil “exportava” serviços, execução de obras, que eram pagos em petróleo, por exemplo). Hoje, como naquela época, essa política de diversificação de mercados, de entendimento e cooperação intensos (não apenas no papel) mostrava-se racional, de bom senso. Hoje, como naquela época, o Brasil não dispões de armas, de tecnologia e produtividade para disputar mercados em que as empresas dos países desenvolvidos têm interesses. Mas hoje, como naquela época, a indústria brasileira tem todas as condições de atender a determinados mercados dos países em desenvolvimento, até porque suas economias estão em estágio equivalente. Indústrias da América Latina, da África e da própria Ásia podem não desejar máquinas altamente automatizadas (até porque têm excesso de mão-de-obra), e as indústrias dos países ricos não têm condições de produzir equipamentos menos sofisticados, porque sua linha de produção já foi, já está “modernizada”. Não podem concorrer com o Brasil. Foi essa a “vantagem” que levou o Brasil a conquistar mercados a partir de meados dos anos 70, com suas exportações crescendo velozmente, ano a ano. É paradoxal que essa hipótese de aproximação do Brasil com outros países em desenvolvimento, não seja sequer mencionada neste momento (o esquecimento, com toda probabilidade, é fruto do deslumbramento generalizado em relação às pretensas virtudes da “abertura” e da “modernização”). Hoje, mais do que no passado, a alternativa deveria estar em primeiro plano. Afinal, só se fala neste momento da existência de blocos econômicos, de “mercados comuns”: é a unificação européia, é a comunidade econômica asiática, é a “anexação” do Leste europeu – ou a formação do mercado comum entre México, Canadá e EUA (geograficamente encostados). Nesse quadro mundial, que chances existem de o Brasil “modernizar” sua indústria da noite par ao dia e roubar mercados do Japão, EUA, França, Alemanha, Inglaterra? Basta ver o que está acontecendo no mundo para ter uma resposta.



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