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  Brasil enfrenta a pior situação

Jornal Folha de S.Paulo , sábado 27 de agosto de 1983


A dívida externa brasileira não apenas passou a ser a maior do mundo, no final de 1982, como bateu recordes de crescimento: quase 38%, enquanto os outros "países problemas" conseguiram reduzir o seu ritmo de expansão já no segundo semestre do ano passado, graças a "políticas de austeridade" adotadas desde princípios do ano, ou, mesmo, no final de 1981. Para enfrentar os efeitos da "austeridade", esses países adotaram políticas de auxílio-desemprego ou de criação de empregos. Estabeleceram políticas de combate à inflação, inclusive com o suporte de "pactos sociais" entre empresas e operários. No Brasil, até hoje, não há política alguma para nada: nem para resolver a crise cambial, nem para criar empregos, nem para combater a inflação.

O país caminha às cegas, aos tropeções, enquanto a crise se agrava. Os ministros? Ficam à espera da recuperação da economia mundial, ou insinuam a possibilidade de não pagar aos banqueiros ("moratória") ou de formar um “cartel dos devedores", com todos os países endividados rompendo com os credores e forçando-os a renegociar a dívida a longo prazo.

São expectativas perigosas para o país - exatamente porque o Brasil, a esta altura, é o único país, entre os grandes endividados, a não dispor de uma política econômica que o leve a reduzir os problemas da crise. Isso é extremamente arriscado. Em 1982 e mesmo agora, em 1983, os banqueiros e governos dos países desenvolvidos tiveram que socorrer os ’endividados", em bloco, refinanciá-los (mesmo que em condições escorchantes), porque a "quebra", em série, desses países, provocaria uma crise internacional de proporções incalculáveis. Mas à medida em que os meses vão correndo, e esses países - porque seus ministros adotaram programas de emergência - melhoram sua situação, o quadro muda de figura.

O Brasil pode ficar sozinho, no palco, como único devedor relapso, único a não aceitar a "austeridade" - abraçada, na última semana, até pela França, em situação, é evidente, inimaginavelmente melhor que a brasileira. Assim, de uma hora para outra, o país poderá ser punido por sua leviandade: o fluxo de dólares poderá crescer, os governos amigos poderão endurecer. O país poderá ser forçado a um aperto de cintos violentíssimo, mergulhando em terrível crise. Ou fazendo opções políticas de custo também imprevisível. Outros países têm controle bem maior

No começo de 1982, o governo brasileiro afirmava que a dívida era de US$ 66,1 bilhões, acreditando-se que já houvesse uma dívida de curto prazo, "escondida", de US$ 13 bilhões, com a dívida total somando, portanto, US$ 74,5 bilhões. Desse total, porém, deveriam ser descontados US$ 7 bilhões em reservas, resultando numa dívida final de US$ 67,5 bilhões. No final de 1982, o governo anunciou que a dívida externa chegou a quase US$ 81,5 bilhões, e o país havia torrado todas as suas reservas, sacando ainda, mais US$ 1,5 bilhão contra o futuro ("reservas negativas"), isto é, devia, na prática, US$ 83 bilhões. Logo, em um ano, a dívida passou de US$ 67,5 bilhões para US$ 83 bilhões - um salto de US$ 15,5 bilhões, ou quase 30%. Em um ano.

O comportamento dos outros países foi totalmente diverso - e suas condições de continuar reduzindo o ritmo da dívida são imensamente melhores que as do Brasil (daí todos eles não se interessarem no tal "cartel de devedores": não querem ser "confundidos" com o falido Brasil).

Argentina - Não importou, em 1982, nem 3% do petróleo que consome (contra os 65/ 70% do Brasil). Transformou-se nos anos recentes em grande exportadora de cereais, com vendas maciças à União Soviética e China, através de contratos de longo prazo (cadê a política agrícola e de exportações do Brasil?). Nos três primeiros trimestres de 1982, segundos dados do FMI, acumulou um saldo positivo de US$ 2,1 bilhões, com exportações de US$ 6,1 bilhões e importações de US$ 4 bilhões. Tem uma dívida de US$ 37 bilhões. Com os juros internacionais a 10% ao ano, gastará US$ 3,7 bilhões em juros: se conseguir um superávit de US$ 2,5 bilhões (próximo do resultado do ano passado), a parcela da sua dívida resultante dos juros crescerá apenas US$ 1,2 bilhão. Nos dois primeiros meses do ano, suas exportações agrícolas cresceram 85%.

Chile - Com uma dívida de US$ 17 bilhões, pagará US$ 1,7 bilhão em juros este ano. No primeiro e segundo trimestre de 1982, teve um déficit de US$ 130 milhões e US$ 40 milhões na balança comercial, mas reverteu a tendência a partir do terceiro trimestre, com superávit de US$ 100 milhões, acentuando-se a melhora nos três últimos meses do ano, com superávits mensais de US$ 50 milhões. Nos dois primeiros meses de 1983 registrou um superávit de US$ 340 milhões, ou US$ 170 milhões por mês - resultado que poderá melhorar substancialmente ante a disparada do cobre, seu principal produto de exportação, no mercado internacional. O saldo da balança comercial em 1983 pode pagar todo o custo dos juros (US$ 1,7 bilhão), contendo o crescimento da dívida.

México - Déficit de US$ 200 milhões no primeiro trimestre de 1982, seguido de grandes superávits, de US$ 1 e US$ 2,3 bilhões no segundo e terceiro trimestres, e de US$ 1 bilhão apenas no mês de outubro, com um superávit acumulado, portanto, de US$ 4,1 bilhões nos 10 primeiros meses de 1982. A queda nos preços de petróleo reduzirá sua receita de exportação em apenas US$ 1,3 bilhão. Este ano, o saldo da balança comercial mais a receita do turismo (US$ 2 bilhões) poderão pagar toda a carga de juros (US$ 8,3 bilhões sobre a dívida de US$ 83 bilhões).

Nigéria - Tem uma dívida de apenas US$ 12 bilhões, resultante do descontrole nas importações em 1980. Cortou violentamente as importações já em 1982: US$ 5,3 bilhões no primeiro trimestre, US$ 3,5 e US$ 2,5 bilhões nos trimestres seguintes. Com isso, o déficit de US$ 1,1 bilhão no primeiro trimestre deu lugar a superávits de US$ 0,7 e US$ 1,4 bilhão nos trimestres seguintes, com um saldo, até setembro, de US$ 2,1 bilhões - suficiente para pagar os juros da dívida e até reduzi-la.

Venezuela - Dívida calculada entre US$ 30 e US$ 35 bilhões, pagando juros de US$ 3,5 bilhões este ano. Obteve um saldo de US$ 3,9 bilhões nos três primeiros trimestres de 82 e de quase US$ 6 bilhões no ano todo. Com a queda do preço do petróleo, perderá cerca de US$ 1,7 bilhão em 1983 - o que ainda deixaria um saldo na casa dos US$ 4,3 bilhões, se o volume de importações fosse o mesmo de 1982 . Mesmo assim, adotou um programa de emergência, proibindo, nas últimas semanas, a importação de milhares de produtos supérfluos entre outras medidas de "austeridade".

O Brasil é uma "ilha". De inércia. Poderá pagar caro por isso.



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