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  O azar de ser brasileiro

Jornal Diário Popular , segunda-feira 27 de março de 2000


Há poucos dias, as famílias de agricultores de apenas dois Estados norte-americanos receberam meio bilhão de dólares do governo Clinton, como ‘‘ajuda de custo’’ para elas se manterem nestes próximos meses, porque suas colheitas foram parcialmente destruídas por uma seca. Veja bem: elas já tinham recebido dinheiro do seguro para compensar a perda da produção, mas agora têm direito (sistema criado no ano passado) também a esse auxílio para sua própria subsistência. E, ainda por cima, se as safras forem muito grandes, e os preços ameaçarem cair, o governo dos EUA compra a produção, como o fazem todos os países da Europa.

Longe dos EUA, na Rússia, o governo anuncia uma colheita de 70 milhões de toneladas de cereais, com um avanço de mais de 50%, ou 25 milhões de toneladas, acima dos resultados de dois anos atrás, quando sua agricultura também foi atingida por violentíssima estiagem. Explicação para a recuperação fulminante: o governo russo deu apoio maciço a seus agricultores, sobretudo com mais crédito para o plantio, apesar de toda a crise que sua economia enfrentou em 1998, com a moratória e violenta desvalorização da moeda nacional, o rublo.

Por que esse apoio foi possível? Porque o governo russo recusou, até há poucas semanas, um acordo com o FMI e os países ricos, cheio de condições vergonhosas aos países que os aceitam, como é o caso do Brasil, ou melhor, do governo FHC: taxas de juros nas nuvens (para agradar aos banqueiros e atrair dólares especulativos), cortes nos gastos do governo mesmo em áreas como saúde e educação, ‘‘aperto’’ no crédito para manter a recessão (com a desculpa de combater a inflação), liberdade para importações, destruindo a produção e os empregos locais, e assim por diante.

Assim, nos EUA, na Europa, na Rússia, os agricultores têm renda garantida, proteção contra desastres climáticos, defesa contra a queda de preços — porque seus governos sabem a contribuição que o setor dá para o crescimento da economia como um todo, ao criar empregos, renda, consumo, e até dólares, com as exportações, ou indiretamente, com a redução das importações.

No Brasil, comportando-se como capacho do FMI e países ricos, o governo FHC está massacrando os agricultores — da mesma forma que vem massacrando a indústria, o comércio, os trabalhadores. Neste momento, no interior do País, os preços do feijão despencaram tanto, que o produtor só consegue vendê-lo a míseros R$ 15 a saca de 60 quilos, ou R$ 0,25 o quilo, contra um custo de produção estimado em R$ 24, isto é, a venda lhe dá um prejuízo de R$ 9 por saca. O governo anunciou que compraria as colheitas — mas, como sempre, retém o dinheiro. Para a soja e o milho, o quadro é igualmente dramático, por causas opostas: o produtor vai colher muito menos, porque a seca estragou as plantações, e nem se fala em dar-lhe apoio.

Decididamente, com o governo FHC virou azar ser brasileiro.



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