Jornal DCI , segunda-feira 20 de março de 1978
Pois é, está aí a nova Praça da Sé, em fotos coloridas nas capas de revistas. Quando ela foi projetada, houve uma onda de protestos contra o uso excessivo de concreto no seu planejamento. Dizem que o projeto foi alterado duas vezes, para ganhar um pouco mais de verde. E, vacinando-se contra críticas, houve até autoridades municipais, na época da inauguração, a pedirem "compreensão do povo para o número reduzido de árvores. Não se pode esquecer que a praça está no teto de uma estação do metrô, e não permitiria o plantio de árvores com raízes profundas". Mas, quem vai à praça da Sé, não tem nem tempo para ver se há pouca ou muita árvore. Simplesmente, porque não existe a praça da Sé. Os arquitetos — projetistas, urbanistas, paisagistas — que fizeram o seu, projeto pensavam que estavam, como gênios, predestinados a embasbacar o mundo. Não se lembraram de que aquele pedaço de papel ia determinar a construção de uma praça. Então, pegaram uns livros estrangeiros com "obras-primas" da arquitetura-paisagismo, e começaram a tracejar:
Primeiro arquiteto: Tem muito chão, gente. Vamos botar uma escadinha aqui?
Segundo arquiteto (depois de maturar: “não posso ficar pra trás”): — Pois eu vou fazer um caixãozão de cimento aqui...
Terceiro arquiteto (pasmo com a genialidade dos colegas): Pois eu opto por mais uma escadinha, mais um caixãozão e (toque de gênio) umas duas fontes luminosas...
Dias depois, os arquitetos-paisagistas tinham concluído sua obra. Algumas dezenas de caixõezões de concreto, de metro e meio a dois metros de altura, vários lances de escada, algumas dezenas de estátuas, fontes luminosas, e eis a genialidade provada: a imensa área estava cuidadosamente retalhada e entulhada de tudo que há de modernoso. E mais uma vez o mundo se curvava diante da arquitetura brasileira: o Brasil passou a dispor da única praça, no mundo, que só pode ser vista de avião — ou do alto dos edifícios. Quem entra na praça, descobre que ela não existe. Anda-se dois metros, e dá-se de cara com um paredão de cimento. Vira-se à direita, e dá-se de cara com uma escada. Vira-se à esquerda, e novo paredão. A praça, que deveria sugerir amplidão, horizontes, descontração, repouso, é toda feita de compartimentos, quartinhos, fechados em concreto. Não se avista, literalmente, dois palmos adiante do nariz (a não ser no "saguão" mantido defronte Catedral). A praça não existe.
Existem centenas de mini-praças de concreto. Loas à arquitetura brasileira — a melhor do mundo, evidentemente.
TRANSCENDENTAL
O Instituto dos Arquitetos de São Paulo promoveu uma sessão de debates para discutir a praça da Sé, seus vícios e virtudes do ponto de vista histórico, sociológico, psicológico, antropológico, econômico, e político, ótimo — mas como começo de conversa. Porque o que os arquitetos brasileiros precisam, realmente, é discutir tudo, mas tudo mesmo, o que vêm fazendo no Brasil nos últimos anos. Os diretórios acadêmicos das faculdades de arquitetura e urbanismo, idem. A arquitetura, o paisagismo em voga no Brasil, são de urna "macaquice" total, que nada têm a ver com o clima ou a situação econômica do País. A população brasileira foi "condenada" ao uso indiscriminado do concreto (aparente) em prédios, obras públicas, praças, não por uma exigência técnica, uma conveniência econômica, ou por uma questão estética: simplesmente, o concreto foi o material usado de forma revolucionária por um dos gênios (verdadeiros) da arquitetura mundial: a partir daí, veio a imitação indiscriminada, tola, e impingida à nação brasileira como "essencial". Os arquitetos e paisagistas brasileiros precisam fazer a autocrítica: admitir, de público, em debates, que embarcaram de corpo e alma em uma arquitetura caríssima, fazem projetos para "ganhar concurso", sem pensar em custos. A arquitetura brasileira parece altamente "criativa", quando é, no máximo, espetaculosa — e nem os grandes nomes da arquitetura brasileira fogem a esse vício: que o digam os infelizes governos ou empresários que lhes encomendaram projetos, lindos, lindíssimos nas maquetes, ou em fotos coloridas. Mas cujos custos sempre sobem a cinco, seis, dez vezes mais do que fora calculado pelo gênio — sem falar nos problemas surgidos na execução...
SEM CONSULTA
As principais cidades do País vêm ganhando "ruas de lazer", "centros de convivência" e quejandos. A iniciativa é ótima, tende realmente a humanizar as cidades, ou os seus centros. Tende. Mas é óbvio que a forma de execução está errada, há um empetecamento excessivo, que contraria os próprios objetivos de lazer e descontração visados pelos projetos. Por que é que uma "rua de lazer" tem que ter calçamento em "mosaico português", misturado com pedras de granito, pencas de "floreiras" de concreto, postinhos retorcidos com vários globos "luminárias", tudo criando imensa barafunda, ou uma nova forma de poluição visual?
As cidades brasileiras têm, hoje, um custo altíssimo. Os prédios públicos, os imóveis residenciais, da mesma forma. É o acrílico, o concreto, o alumínio, caríssimos, importados, usados à larga, sem qualquer funcionalidade, apenas porque está na moda o "empetecamento". Há o modismo da "reforma", recobrindo-se de azulejos, forros falsos, fórmica, lambris, os saguões de prédios antigos, as padarias, as farmácias, as repartições públicas. Tudo caro, caríssimo e forçosamente cobrado do consumidor, já que o investimento feito tem que ser pago. Mas não é apenas o problema do desperdício, do inacreditável desperdício, que está em cena. Tampouco, uma questão de saudosismo. É o problema do desfiguramento, da perda de fisionomia, da perda de identidade. As cidades brasileiras estão ficando "acáricas", têm cara de tudo e não têm cara de nada. Estão virando um imenso amontoado de todos os tipos de materiais de construção disponíveis, só faltando a louça sanitária, nas praças e ruas de lazer, para que a obra se complete.
PS — A desculpa de que não há árvores na praça da Sé porque ela está no teto de uma estação do Metrô não procede. Há árvores de raízes profundas (de "peão", como se diz no interior, ou "axiais", como dizem os técnicos), e há árvores de raízes superficiais. É uma questão de conhecer árvores, plantas, e usa-las adequadamente. O que, convenhamos, é pedir demais aos paisagistas (e administradores brasileiros): afinal, eles têm a coragem de "plantar" palmeiras imperiais em floreiras de 30 centímetros de altura. Idem, para com jacarandás-mimosos. Ou, ainda, plantar grupos de paineiras com distância de meio metro entre cada muda... São paisagistas que só entendem de uma coisa: concreto. E concursos.