Jornal Folha de S.Paulo , domingo 15 de novembro de 1981
"O Brasil é o campeão mundial da especulação financeira: não existe outro pais onde os bancos operem com margem tão elevada de lucros, nem os grupos que participam do "jogo de ganhar juros" (no chamado "open") possam ganhar fortunas em pouco tempo, como aqui." Classificando a política monetária do governo de "pura demência", a economista Maria da Conceição Tavares - que, através de análises, previu que a Bolsa de Valores "viria abaixo", nos anos 71/72 – adverte duramente contra os riscos que a "agiotagem oficializada" pode trazer para o País:
— Com o atual custo dos empréstimos, a recessão que atingiu a economia brasileira este ano vai ressurgir com toda a força, e agravar-se violentamente em 1982, prolongando-se por prazo indefinido. Mesmo que houvesse pequena reação nas vendas nos próximos meses, a crise seria inevitável, numa etapa seguinte, porque as empresas não estão realizando novos investimentos, diante do alto custo do dinheiro.
Presidente do Instituto de Economistas do Rio de Janeiro, e principal crítica das distorções do "milagre brasileiro" dos anos 70, Maria da Conceição Tavares recorre aos números oficiais para justificar sua discordância "estupefata" contra o atual nível das taxas de juros no País, defendidas pelo ministro do Planejamento, Delfim Neto, e assessores:
— As autoridades governamentais dizem freqüentemente que os juros estão altos "em todo o mundo", o que pode convencer a muitos de que o Brasil está apenas acompanhando uma tendência internacional. No entanto, há "alturas" e "alturas". Pelos dados (v. tabela) fornecidos pela publicação "World Financial Mar-kets", do grupo Morgan, pode-se ver que o sistema financeiro brasileiro vem cobrando "margens" de 40 a 50%, num comportamento que não tem paralelo no mundo. Em agosto último, os bancos dos EUA pagavam 17,50% ao ano, como juros sobre os depósitos, e cobravam 20,50%, como juros: uma diferença de apenas 3,0%.
Como os dados mostram, há casos, mesmo, de taxas de juros menores, nos empréstimos, do que o nível pago sobre os depósitos – o que pode parecer um paradoxo, já que, neste caso, os bancos estariam operando com prejuízos. Há duas explicações principais para isso. Em primeiro lugar, as taxas citadas para os empréstimos correspondem à "prime rate", isto é, os juros cobrados dos clientes "preferenciais", isto é, aqueles que realizam uma série de operações com os bancos, proporcionando-lhes lucratividade nessas áreas. Em outros casos – essa a segunda explicação para a aparente contradição –, a cobrança de taxas nos empréstimos, abaixo do custo de captação, pode ser também um fenômeno transitório, ocorrido no mês, por fatores conjunturais;
— O fato, porém, diz Maria da Conceição Tavares, é que a "margem" é sempre aceitável, sem o exagero brasileiro. Nem mesmo na Argentina, onde a política econômica enfrentou violentas crises este ano, as empresas foram tão espoliadas. No mês de junho, por exemplo, os bancos pagaram 150% na captação, e cobraram 181% ao ano nos empréstimos, com 30 pontos percentuais de diferença, o que significa 20% de margem sobre os 150% pagos sobre os depósitos (porque os 30% correspondem a 20% de 150%). Essa alta, porém, durou apenas um mês: já em julho, os bancos pagavam 130% na captação e cobravam 140% sobre os empréstimos, com a margem de apenas 10% (ou, na verdade, menos de 8% sobre os 130%), chegando finalmente a apenas 123% nos empréstimos, contra 123,78% na captação, em agosto.
— Aqui, diz Maria da Conceição, a margem dos bancos é gigantescamente – e permanentemente – mais elevada. Para um custo médio de 7,2% na captação (juros pagos sobre os depósitos), em agosto, os bancos cobravam 120,2%, isto é, nada menos de 50 pontos percentuais de margem. Esses 50%, sobre os 72% pagos pelos depósitos, correspondem a nada mais nada menos do que 70% de "lucro", para os bancos, sobre o custo da captação.
Como se vê, diz a presidente do IERJ, não há comparação possível: no Brasil as margens elevadíssimas não duram apenas um ou dois, meses, por fatores conjunturais, mas vêm sendo mantidas meses a fio desde o ano passado. Não há como deixar de concluir que o custo do dinheiro, no Brasil, vem provocando inflação – e poderá aprofundar a recessão.
Para Maria da Conceição Tavares, a distorção tende a agravar-se, se o governo não mudar rapidamente de orientação. Conforme já foi apontado por este jornal, a queda da inflação, a um ritmo mais rápido do que o governo previa, aumenta "indiretamente” as taxas de juros reais, isto é, depois de descontada a inflação: com a inflação a 110% e o custo do dinheiro a 150%, os juros reais serão de 40 pontos percentuais. Com a inflação na casa dos 90%, o custo real passa a 60 pontos percentuais, e assim por diante:
— A opinião pública, e principalmente a classe empresarial, não se deve iludir com notícias sobre "reduções" nos juros, nos próximos dias. O que interessa é que ocorram reduções "reais", naquelas taxas reais, isto é, os juros nominais devem cair mais do que a inflação. O exemplo do mundo todo mostra que isso é possível.
Mas os juros internos não têm que ser mais elevados que os externos, para forçar a contratação de empréstimos no mercado internacional?
— Foi uma demência ligar as duas coisas, no caso do Brasil. Os EUA e a Inglaterra podem adotar essa política – de ligação entre as duas taxas de juros – porque são centros financeiros internacionais, isto é, podem ditar as taxas que lhes convêm, tanto no mercado interno como no externo. Não é o caso do Brasil. Até o Mário Henrique (Simonsen) já disse que é necessário separar os dois mercados, urgentemente, para que os juros internos caiam. Há propostas concretas quanto à forma para fazer essa separação, sem prejudicar a contratação de empréstimos externos. Não se entende que o impasse persiste.