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  Bolsas: pessimismo não ajuda ninguém

Jornal Correio da Manhã , segunda-feira 5 de abril de 1971


Um carro subindo uma ladeira a 100 quilômetros por hora. De repente, o motorista entra em pânico. Após o final da ladeira, o que virá? Um terreno plano, ou um declive violento? Seus freios estão fracos. Se houver um declive, serão suficientes para segurar o carro? Descontrolado, o motorista resolver dar marcha-a-ré. Com os freios fracos. Despenca morro abaixo.

A violência das altas no mercado de ações, nas últimas semanas, desenterrou velhos temores. Houve excessos, como sempre ocorre nas corridas. Alguns papéis menores ganharam destaque desproporcional a seu valor. Alguns grandes, também. Os últimos dias de pregão já mostraram uma tendência a reajustes, a correção de despropósitos.

Quando há euforia, o mercado considera toda e qualquer ação como excelente. Toda e qualquer cotação como justificável. Generaliza-se o entusiasmo, surgem as previsões de que o Brasil virá a ter a maior Bolsa do mundo. Contágio, frenesi.

Quando há uma pausa para respirar, o mercado, qual Madalena arrependida, decreta subitamente, que somente ações “maiores” são realmente bom investimento. Volta a papéis de prestígio. Considera que todos os papéis menores são, no seu linguajar, podres.

Não se pode passar de uma euforia, uma emoção extremada, para a tranqüilidade. Um extremo puxa outro. Não se foge da ladeira dando-se marcha-a-ré. Se existe mesmo ladeira à vista, é preciso confiar na perícia do motorista, para que a viagem prossiga tranqüila.

Generalizar, a esta altura, ver somente excessos nas últimas altas, não é uma linguagem que tranqüilize o investidor. E que não corresponde à realidade. As oportunidades de continuar dando atenção aos dados técnicos das empresas, investindo com segurança, mesmo quando busca lucros a curto prazo.

As oportunidades de ganhos poderão deixar de existir – para o mercado como um todo, se, em lugar de procurar, agora, evitar novas corridas emocionais, ficar de novo fascinado pela cantilena em torno de determinadas ações. Como as ações do setor siderúrgico, onde há empresas altamente rentáveis, com ações até baratas em relação à rentabilidade da empresa. Mas onde há ações já muito caras que por causa desse emocionalismo, podem subir nos próximos dias. E depois deixar o investidor em maus lençóis. Como acontece em todas as corridas. Como aconteceu na corrida destas semanas.

Prejuízos, dura lição
Algumas oscilações da última semana talvez sejam uma dura lição para muitos investidores. Dura, porque, ao menos provisoriamente, eles estão perdendo dinheiro. Compraram papéis podres, diria o mercado. Não: compraram já demasiado caro. Compraram quando os grandes operadores, os investidores experientes, já estavam vendendo. Compraram na base emocional, de olho em gordos lucros, na expectativa de que a alta continuasse indefinidamente.

De uma vez por todas o investidor deve ter aprendido que (entre outros dados) o índice PL, que mede se uma ação está cara ou barata existe para valer, mesmo. Ele pode ser desprezado pelo mercado, em determinados momentos, quando há agitação em torno de determinada ação. Mas, cedo ou tarde, o papel terá que voltar ao lugar real, ao preço real.

Longe de desencantar-se com perdas, a esta altura o investidor precisa e comportar-se de acordo com estes critérios: • ao perceber um processo de alta, não é preciso ficar do lado de fora; • não entrar muito tarde, porém, porque o recuo posterior será inevitável; • em qualquer situação, o ideal é não ser guloso; se a alta apenas se inicia, pode-se esperar ganhos maiores; mas se a alta já vem a galope, se as cotações já subiram 50, 60 por cento – e os índices PL estão demasiado altos – o jeito é contentar-se com ganhos de 10, 20 por cento. Porque o recuo será inevitável.

Essas normas valem para o investidor que está fascinado por ganhos a curto prazo, pelo lado especulativo da Bolsa.

Mas há investidores que têm como filosofia: “se ganhar a curto prazo, melhor; mas se ganhar a médio prazo, estarei satisfeito”. Para eles, o melhor é deixar de lado as grandes tacadas, e comprar as ações exclusivamente com base em dados técnicos. Surdo às cantilenas do mercado.

Os eternos retardatários
Dois exemplos correspondentes à atual corrida às Bolsas mostram claramente como o investidor comum se “atrasa” em suas compras, e como paga caro por comportar-se apenas emocionalmente. O primeiro exemplo corresponde a CBUM – Companhia Brasileira de Usinas Metalúrgicas um papel esquecido, tanto que estava cotado a 1,26 cruzeiro em dezembro (cotação média). A empresa apresentara um bom balanço semestral em outubro, e o lucro por ação projetado para o balanço anual a encerrar-se em março, é de 0,41 cruzeiro. Até início de fevereiro, o papel estava a 2,00 cruzeiros com índice PL inferior a 5, portanto (para o investidor ainda pouco familiarizado com o índice: quanto mais alto o PL, mais cara, proporcionalmente, a ação; o índice é calculado dividindo-se a cotação pelo lucro por ação, que a empresa acusou em seu balanço, estabelecendo, portanto, uma relação entre o preço da ação e a capacidade de gerar lucros da empresa. Em começos de março. CBUM já estava a 3,00 cruzeiros, com um índice PL ainda baixo, em termos de mercado, em torno de 7,5. Até 6,00 cruzeiros, PL seria de 15 – e quem comprasse a esse preço não estaria arriscando nem demais nem de menos. No mercado eufórico dos últimos dias, um PL de 15 poderia ser aceito, mas, é lógico, também, que a partir desse preço, e desse índice, o investidor que comprasse já não poderia esperar uma valorização no mesmo ritmo (a ação já triplicara de preço; já não podia ser tão bom negócio comprá-la). No entanto, houve compradores, para o papel, até a 10,00 cruzeiros (eles podem até acertar na mosca, mas foi um tiro no escuro, um risco assumido). Houve queda de cotações, no final da semana – e que alguns observadores tentam usá-la para generalizar em relação a todos os papéis “menores” do mercado.

CBUM, porém, não caiu por ser um papel menor. Caiu porque já estava muito caro. Outro exemplo, este grotesco, do comportamento dos retardatários: Financeira Real. Com reservas de quase 500 por cento no balanço da empresa, as ações subiram 26 vezes (lucro de 2.500 por cento), de 0,53 cruzeiro para 13,70 cruzeiros, de dezembro a março. Em março, a empresa distribui bonificação de 200 por cento. O papel cai para 5,00 cruzeiros – porque a ação já estava limpa, porque todos os atrativos já tinham sido usufruídos pelos compradores. Pois houve quem continuasse correndo atrás da Financeira Real, sem levar em conta qualquer dado técnico: a ação limpa foi de 5,00 para 8,10 cruzeiros. No final da semana, a ação estava novamente a 5,22.

Um mercado sem privilégios
Cair após voltas violentas não é privilégio dos papéis menores, como agora vai-se insinuando. Tudo depende do grau de exagero a que as cotações cheguem – por causa do emocionalismo do investidor. Por causa do emocionalismo do mercado. O melhor exemplo de um grande papel, que deu prejuízos violentos ao investidor está no comportamento do BEG – Banco do Estado da Guanabara, em 1970-71. “BEG é sensacional, divino, maravilhoso”, gritaram nos ouvidos do investidor, no segundo semestre do ano. BEG tinha sido maravilho em 1969, e no primeiro semestre do ano. Porque BEG tinha grandes reservas, distribuiu bonificações sensacionais, elevou seu capital por subscrição. Mas, a partir daí, as coisas mudaram de figura.

Em relação ao novo capital (que cresceu muito), o lucro no balanço semestral de junho, divulgado em julho, foi baixo. Era evidente que, no final do ano, o lucro continuaria insatisfatório, o lucro por ação idem, e o índice PL iria às nuvens. Mas o mercado continuaria a empurrar a ação para o investidor comum, a dizer-lhe que o papel era uma maravilha, e BEG sensacional, divino, maravilhoso. O investidor comum comprou BEG até a 14,10 cruzeiros, quase no final do ano: em fevereiro, registrava-se a mínima de 5,00 cruzeiros. Para não ir longe, isso significa que quem houvesse comprado 100 ações do BEG, com gastos de 1.410,00 cruzeiros, tinha em mãos apenas 500,00 cruzeiros.

E, para não deixar em branco aquela que foi a fase mais emocional das Bolsas brasileiras, há os exemplos da “corrida siderúrgica”, a situação das empresas, a prazo curto ou médio, houve uma alucinação coletiva. A Siderúrgica Nacional, em espaço de dias, passou de 2,68 a 5,86, e em fevereiro, estava a 3,10 cruzeiros. A Acesita saiu de 1,30 e foi aos 2,45 cruzeiros, pra voltar aos 1,60 cruzeiros em fevereiro. E ambos os papéis estavam abaixo do valor nominal, abaixo dos 1,00 cruzeiro, em princípios do ano.

Como enfrentar a queda?
Siderúrgica Rio-grandense estava a 1,60 cruzeiros em meados do ano, a 8,44 cruzeiros em dezembro, a 15,20 na corrida. Caiu depois? Apenas para 13,00 cruzeiros, com uma perda percentual de apenas 15 por cento, aproximadamente. Na corrida atual, Petróleo Ipiranga estava a 1,80, chegou aos 3,75 voltou aos 3,36, com perda de aproximadamente 10 por cento.

Que conclusões o investidor pode tirar de todos esses dados? E principalmente, o investidor que está enfrentando o problema da queda nas cotações de papéis que comprou nos dias agitados de março? • não há porque afastar-se dos papéis menores; neles podem estar boas oportunidades de ganhos, a prazo curto ou médio; • não é verdade que todos os papéis menores sejam mau negócio; • não é verdade que todos os papéis maiores sejam bom negócio; • os dados técnicos é que valem; Siderúrgica Rio-grandense pouco recuou porque a rentabilidade da empresa é alta (logo, a ação não estava cara), Petróleo Ipiranga, idem; • nas corridas pede-se entrar. Mas que não seja tarde demais, porque então não adianta. Siderúrgica Rio-grandense não caiu exageradamente, mas o investidor que comprou a 15,29 em dezembro, se quisesse desfazer-se dela mesmo em fins de março, ainda enfrentaria perdas; • ao mesmo tempo, é vesgueira encarar aplicações, como em Siderúrgica Rio-grandense, apenas a curto prazo; em períodos mais longos, a empresa poderá dar tantas alegrias quanto deu em 1970 (mas o fato é que não interessava ao investidor comprá-la a 15,20 num rabo de corrida).

A partir desses conceitos, o investidor que hoje enfrenta baixa nas cotações de suas ações pode traçar seu comportamento para as próximas semanas. Vale a pane reter as ações? Depende. Se os dados técnicos mostram que as ações estão caras demais, quase seguramente o papel vai demorar a recuperar-se. Se, por outro lado, o prejuízo para o investidor, a esta altura, é grande demais, às vezes é melhor esperar até uma próxima corrida – isto é, fique bem claro quando o papel é altamente especulado (os especuladores mais ou cedo ou mais tarde voltarão a manobrá-lo, e outros inocentes entrarão em sua jogada). E daqui para a frente olho nos dados técnicos. Surdos à euforia. Surdos ao pessimismo.



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